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	<title>Meia Palavra&#187; Tradução</title>
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		<title>Preview parte III (Comemorações, Penguin, literatura nacional, poesia e outros)</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Jan 2012 16:00:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tiago Pinheiro</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2012/01/outrapilha.jpg"><img class="size-full wp-image-17201 alignright" style="margin: 5px;border: 0px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2012/01/outrapilha.jpg" alt="" width="280" height="278" /></a>Para finalizar nosso preview, temos os lançamentos nacionais, poesia, comemorações, Flip, Penguin-Companhia das Letras e um montaréu de coisas para colocarmos na listinhas de presentes (aniversários, namorados, pai, mãe, Natal&#8230; vale até trocar o chocolate da Páscoa!) do ano todo. E vamos nós! Mas antes, se você não viu ainda as duas primeiras partes desse preview, dê uma olhada neles <a href="http://blog.meiapalavra.com.br/2012/01/04/preview-2012-fantasia-ficcao-cientifica-graphic-novels-e-policiais/">aqui</a> e <a href="http://blog.meiapalavra.com.br/2012/01/07/preview-2012-parte-ii-literatura-estrangeira-premiados-e-outras-coisas-legais/">aqui</a>.<span id="more-17197"></span></p>
<p style="text-align: justify"><strong>Comemorações</strong></p>
<p style="text-align: justify">Não há dúvidas de que, cada vez mais, o planejamento editorial se pauta pelas datas comemorativas envolvendo autores, obras e acontecimentos. Este ano teremos uma série de eventos que encherão as livrarias de todo o país. A começar pelo centenário de <strong>Jorge Amado</strong>, no dia 10 de agosto, que vem sendo preparado há anos, desde que Companhia das Letras adquiriu os direitos do autor. A Academia de Letras Brasileira e o Museu da Língua Portuguesa já têm exposições e ciclos críticos planejados para o ano todo. Até a Rede Globo fará uma nova adaptação de <em>Gabriela, Cravo &amp; Canela</em>! De livros, teremos edições especiais do centenário, o re-lançamento de <em>Os Velhos Marinheiros</em> e da obra infantojuvenil, além do inédito<em> Jorge &amp; Zélia</em>, com a correspondência entre o autor e sua esposa, a também escritora Zélia Gattai.</p>
<p style="text-align: justify">Outro que completa 100 anos de nascimento é <strong>Nelson Rodrigues</strong>, no dia 23 de agosto. A <strong>Editora Record</strong> ainda não divulgou a lista de lançamentos, mas há notícias de planejamentos de edições econômicas, além da divulgação de textos inéditos. Mas, é claro, teremos uma programação fervorosa de encenações de suas peças em todo o país.</p>
<p style="text-align: justify">O (um tanto) esquecido <strong>Lúcio Cardoso</strong>, autor de <em>Crônica da casa assassinada</em>, também faz os seus 100 anos, mas sem muitas repercussões. A Edusp, que lançou seu volume de poemas, agora trará seus <em>Diários</em> à tona.</p>
<p style="text-align: justify">Um pouco mais velho é <strong>Carlos Drummond de Andrade</strong>, que completará 110 anos no dia 31 de outubro. Aqui a lógica quase se inverte e, mais que a data, é a empolgação da Companhia das Letras pela estreia do poeta no seu catálogo – a começar por <em>A Rosa do Povo</em>, que já será seguido por outros títulos – que dá a corda para as comemorações. Para complementar, Drummond será o autor homenageado na Festa Literária Internacional de Paraty deste ano.</p>
<p style="text-align: justify">Temos também os 50 anos de morte de <strong>Patrícia Galvão</strong>, escritora que, infelizmente, passa às vezes como sombra de Oswald de Andrade, e cuja obra nunca foi inteiramente reeditada. Não seria mal se víssemos <em>Famosa Revista</em> e <em>Pagu: Vida e Obra</em> (organizada pelos irmãos Campos) de volta às prateleiras, além de alguns inéditos que certamente devem estar por aí. Como o centenário da moça não tem muito tempo (foi em 2010), então não devemos ver muita coisa além de notas de jornal.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>Os 90 anos da Semana de Arte Moderna</strong> não ficarão em branco com o lançamento de uma crônica inédita do jornalista Marcos Augusto Gonçalves.</p>
<p style="text-align: justify">E dentre os escritores internacionais, temos os bicentenário de <strong>Charles Dickens</strong>, os 120 anos de <strong>J. R. R. Tolkien</strong>, o centenário da morte de <strong>Bram Stocker</strong> e também de <strong>August Strindberg</strong>, além dos 100 anos de nascimentos de <strong>Eugene Ionesco</strong> e <strong>John Cage</strong> – todos esses sem nenhum tipo de evento ou lançamento programado até o momento.</p>
<p style="text-align: justify">Situação diferente é a de <strong>James Joyce</strong>, que, além de completar 130 anos, entra em domínio público (algo muito mais significativo do ponto de vista editorial, para bem ou para o mal). A Iluminuras já programa a edição de <em>O gato e o diabo</em>, livro infantil, além de uma seleta de escritos críticos, intitulada <em>De santos e sábios</em>. A L&amp;PM deve chegar com uma edição de bolso de <em>Dublinenses</em>. E, é claro, teremos a nova tradução de <em>Ulysses</em> de Caetano Galindo, que será lançada em abril pelo selo Penguin-Companhia das Letras.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>Penguin-Companhia das Letras</strong></p>
<p style="text-align: justify">Talvez os maiores sinais de maturidade de um campo editorial de um determinado país frente à produção estrangeira sejam dois. O primeiro é, não só a qualidade de traduções, mas variedade de boas traduções, cada qual com suas próprias características, relações com o momento em que foi publicada, etc. Até pouco tempo, era possível contar os casos desse tipo no cenário brasileiro: o Nietzsche, de Rubens Rodrigues Torres e de Paulo César de Souza; a poesia de Marina Tzvietáieva por Décio Pignatari, pelos irmãos Campos + Boris Schnaiderman e Aurora Bernardini; Rimbaud, também pelos Campos, por Ivo Barroso e pela dupla Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça; para dar uma mínima lista de uma  já pequena.</p>
<p style="text-align: justify">O segundo sinal de maturidade são as edições de bolso ou econômicas. A grande verdade é que o livro foi (e ainda é) caro no Brasil – às vezes com doses de elitismo descaradas. Mas os últimos anos têm sido mais promissores e com a chegada da Penguin em aliança com a Companhia das Letras, podemos ir às livrarias com alguma esperança a mais.</p>
<p style="text-align: justify">Todo esse intróito é apenas para lembrar a chegada neste ano de duas importantes traduções que serão lançadas por esse selo: <em>Ulysses<strong>, </strong></em>de<strong> James Joyce</strong>, que já citamos e cujas notícias se ouvem desde tempos longínquos, e a da obra máxima de <strong>Marcel Proust</strong>, por Mário Sergio Conti.</p>
<p style="text-align: justify">Não se trata apenas da importância das obras, e nem mesmo da competência comprovada de seus tradutores, mas o fato de que essas obras titânicas serão oferecidas em três versões distintas nas estantes brasileiras – com o benefício de que uma delas terá um preço mais aceitável. Que seja possível o cotejo, a discussão e a invetividade, gerando ecos cada vez maiores dessas obras – eis talvez o que deva ser mais comemorado este ano em termos de literatura traduzida no país. Exemplo disso é a dúvida apresentada por Mário Sergio Conti sobre o título da obra de Proust, que foi batizada tanto por <strong>Mário Quintana</strong> como por<strong> Fernando Py</strong>, como <em>Em busca do tempo perdido</em>, que talvez não seja mantido na nova tradução. Esse pequeno detalhe já faz gerar toda uma nova espécie de reflexão sobre a longa saga de Proust. As disparidades entre as versões de Galindo e as anteriores (de Houaiss e de Bernardina Pinheiro) certamente causarão impactos semelhantes.</p>
<p style="text-align: justify">Mas não serão só esses os lançamentos da Penguin-Companhia das Letras para este ano. Dos clássicos internacionais, teremos ainda uma nova tradução de <em>Ligações Perigosas,</em> de<strong> Choderlos de Laclos</strong>. Também teremos novos títulos brasileiros clássicos em edições comentadas, como <em>Senhora,</em> de <strong>José de Alencar,</strong> e <em>Clara dos Anjos,</em> de <strong>Lima Barreto</strong>, além de uma <strong>Antologia do teatro brasileiro do século XIX</strong>.</p>
<p style="text-align: justify">Fica também uma expectativa para com esse ano: com a compra de 45% da Companhia das Letras pela Penguin, tornando-se sócia. Será que veremos mudanças na linha de publicações?</p>
<p style="text-align: justify"><strong>Prosa brasileira e de língua portuguesa</strong></p>
<p style="text-align: justify">Grandes nomes da literatura nacional publicarão livros inéditos este ano. Para começar, devemos esperar da Companhia das Letras os novos de <strong>Milton Hatoum</strong> (<em>O lugar mais sombrio</em>) e <strong>Marçal Aquino</strong> (<em>Como se o mundo fosse um lugar bom</em>). Além desses, virão prosas de <strong>Carlos de Britto e Mello, Carola Saavedra, Cecilia Giannetti, Elvira Vigna, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Noemi Jaffe e Zulmira Ribeiro Tavares.</strong></p>
<p style="text-align: justify">Teremos ainda diversas reedições, continuando o trabalho que foi começado nos anos anteriores com <strong>Erico Verissimo, Vinicius de Moraes, Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar</strong> e<strong> Zélia Gattai</strong>. <strong>Otto Lara Resende</strong>, que começou a ter sua correspondência publicada em 2011, ganha volumes de cartas trocadas com Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos.</p>
<p style="text-align: justify">Além disso, começam a ser publicados autores recentemente adquiridos pela editora, tal como as memórias de <strong>Pedro Nava</strong> (os dois primeiros volumes ainda este ano) e a obra de <strong>Paulo Mendes Campos</strong>.</p>
<p style="text-align: justify">Não nos esqueçamos que este ano sairá o volume da famosa revista norte-americana <strong>Granta, </strong>dedicada somente a jovens escritores brasileiros! Certamente será outra lista que definirá o futuro editorial de muita gente.</p>
<p style="text-align: justify">Depois de Saramago, a vida dos portugueses aqui no Brasil ficou um pouco mais fácil, mas nem tanto. Com o sucesso de <strong>valter hugo mãe</strong> por conta da Flip de 2011, é bem possível que seu livro mais recente, <em>o filho de mil homens,</em> apareça por aqui.</p>
<p style="text-align: justify">Se o manuscrito de Saramago interrompido pela sua morte ainda não vier esse ano, seus filhotes, vencedores do prêmio que leva o nome do autor de <em>Ensaio sobre a Cegueira</em>, certamente estarão por aqui. Um exemplo é <strong>José Luis Peixoto</strong>, com o seu <em>Livro</em> (sim, esse é o título).</p>
<p style="text-align: justify">Outra portuguesa que já está nos livros de literatura é a <strong>Maria Gabriela Llansol</strong> (1931-2008), que terá os seus diários – que na verdade são uma espécie de prosa poética escrita diariamente – lançados pela Autêntica. Esperemos que saia sua obra completa, inclusive as excelentes traduções &#8211; altamente experimentais! &#8211; que ela fez de Baudelaire e Rimbaud.</p>
<p style="text-align: justify">Se os portugueses ainda têm dificuldades, que dirá dos africanos? Que eu saiba, só podemos contar, por enquanto, com o novo de <strong>Mia Couto</strong>, <em>Histórias abensonhadas</em>. Mas editoras como a Língua Geral, que vem se esforçando para aproximar os dois continentes, certamente trarão novos títulos, ainda não divulgados.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>Poesia</strong></p>
<p style="text-align: justify">2011 foi para poesia um ano, ao mesmo tempo, angustiante e promissor no Brasil – ao menos em termos editoriais. A preocupação veio, sobretudo, pelo anúncio da saída do editor <strong>Augusto Massi</strong> da Cosac Naify, que junto com o poeta <strong>Carlito Azevedo</strong> e a 7Letras, coordenava a excelente coleção &#8220;Ás de Colete&#8221;, responsável pela divulgação e recuperação de novos e velhos nomes brasileiros e estrangeiros. Uma breve lista dá conta da força dos títulos: Cacaso, Chacal, Michel Déguy, Francisco Alvim, Orides Fontela, Ricardo Domeneck, Marcos Siscar, Angélica Freitas, Fabiano Calixto, Age de Carvalho, Cesare Pavese, Marilia Garcia, Walter Gam, Júlio Castañon Guimarães e outros. Como o Carlito já disse que sem o Massi ele não fica, a coleção tem o futuro incerto.</p>
<p style="text-align: justify">Provavelmente, muitos desses autores irão se refugiar na outra editora na qual Carlito Azevedo tem parte, talvez a principal de poesia no país, a 7Letras. Esse foi o caminho de <strong>Ricardo Domeneck</strong>, num ritmo de publicação alucinado (foi ontem que saiu <em>Cigarros na cama,</em> pela Berinjela!), que lança o seu <em>Ciclo do amante substituível</em> ainda neste mês.</p>
<p style="text-align: justify">Outros autores têm livros planejados, mas a editora ainda é um mistério. <strong>Angélica Freitas</strong> (que irá roteirizar uma Graphic Novel para a Quadrinhos na Cia. – confira na <a href="http://blog.meiapalavra.com.br/2012/01/04/preview-2012-fantasia-ficcao-cientifica-graphic-novels-e-policiais/">primeira parte do preview</a>) e <strong>Fabiano Calixto</strong>, que finaliza um inédito de poesia e uma antologia de seus livros anteriores, ainda não têm direção certa.</p>
<p style="text-align: justify">Por outro lado, a Companhia das Letras resolveu voltar a investir na publicação de poetas tanto nacionais quanto internacionais. Depois do lançamento de autores como Szymborska e o relançamento de <strong>Derek Walcott</strong>, sem falar dos novos de<strong> Chico Alvim, Fernando Corsaletti</strong> e outros no ano passado, este 2012 chegará com outros grandes títulos.</p>
<p style="text-align: justify">Dos internacionais chegam <strong>Adonis, Paul Auster </strong>e<strong> Elizabeth Bishop</strong>. Para essa última, a editora tem programado três livros: o relançamento de <em>Uma Arte</em>, uma coletânea de prosa e outra de poesia, ambas pela coleção “Listrada”.</p>
<p style="text-align: justify">Dos nacionais, teremos os novos de <strong>Antonio Cicero</strong> (que além de <em>Provas</em>, lança também uma antologia de textos críticos), <strong>Paulo Henriques Britto, Alexandre Barbosa de Souza</strong> e<strong> Paulo Nunes</strong>.</p>
<p style="text-align: justify">Cabe registrar também o trabalho que a Eduerj tem feito com a coleção<strong> &#8220;Ciranda de poesia</strong>&#8220;, na qual poetas fazem uma antologia e texto críticos de outros poetas. Saem esse ano os volumes dedicados<strong> Ana Cristina César</strong>, por <strong>Marcos Siscar</strong>, <strong>Armando Freitas Filho</strong>, por <strong>Nuernberger</strong>, <strong>Marcos Siscar</strong>, por <strong>Masé Lemos</strong> e <strong>Angela Melim</strong>, por <strong>Ana Chiara</strong>.</p>
<p style="text-align: justify">Haverá também reedições em massa de grandes poetas brasileiros que estão de casa nova. É o caso de <strong>Mario Quintana</strong>, que agora é da Alfaguara, e também de <strong>Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Orígenes Lessa</strong>, os três agora saem pela Global, que promete inéditos para todos eles.</p>
<p style="text-align: justify">Cabe ainda destacar o lançamento de uma nova tradução de nem mais nem menos de <em>Um Lance de Dados,</em> de <strong>Mallarmé</strong>, feita por Álvaro Faleiros, professor de poesia francesa da USP, e que sairá pela Ateliê.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>Não-ficção</strong></p>
<p style="text-align: justify">Um gênero, que poderíamos apelidar de “ensaísmo científico”, tem gerado ótimos e populares livros. E teremos novos de grandes representantes desse espécime. A começar por dois do médico <strong>Oliver Sacks</strong>, autor de <em>Um antropólogo em marte</em> e <em>O Olhar da Mente;</em> as anotações de viagem ao México em <em>Diário de Oaxaca</em> e as suas implicações em <em>Alucinações.</em> Outro médico, <strong>Drauzio Varella</strong>, lançará um inédito esse ano. Teremos ainda <strong>Stephen Pinker</strong> (<em>The Better Angel of our Nature</em>), <strong>E. O. Wilson e Ber Hölldobler</strong> (<em>Superorganismo</em>), <strong>Richard Dawkins</strong> (<em>A magia da realidade</em>), <strong>Brian Greene</strong> (<em>A realidade oculta</em>) e <strong>David Eagleman</strong> (<em>Incógnito</em>). Todos pela Companhia das Letras, com exceção do último, publicado pela Rocco.</p>
<p style="text-align: justify">Seria arriscado dizer que o precursor desse gênero seria <strong>Sigmund Freud</strong>? Bom, ao menos teremos novos volumes da sua obra completa, traduzida por Paulo César de Souza para a Companhia das Letras, e uma edição mais em conta de <em>A interpretação dos sonhos</em>, que também terá um volume sobre <strong>Jung</strong> na coleção “Enciclopédia”.</p>
<p style="text-align: justify">Sem contar, é claro, com o antropólogo francês <strong>Claude Levi-Strauss</strong>, de quem a Companhia das Letras lançará <em>A antropologia diante dos problemas do mundo moderno</em> e <em>A outra face da Lua</em>.</p>
<p style="text-align: justify">Dos livros jornalísticos temos o jurado-de-morte-pela-máfia-italiana <strong>Roberto Saviano</strong> (<em>A máquina da lama,</em> pela Companhia das Letras), a jurada-de-morte-pela-máfia-mexicana <strong>Lydia Cacho</strong> (<em>Memórias de uma infâmia,</em> pela Bertrand Brasil), o ameaçado-e-censurado-pelo-governo-chinês e também <strong>Nobel da Paz Liu Xiabo</strong> (<em>Monólogos de um sobrevivente do dia do juízo final,</em> pela L&amp;PM) e <strong>David Remnick</strong> (<em>O túmulo de Lênin: os últimos dias do império soviético,</em> também pela Companhia das Letras), que não foi ameaçado por ninguém.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>Mais algumas coisas legais</strong></p>
<p style="text-align: justify">A Sá Editora, que vem lançando na coleção &#8220;Gesto Literário&#8221; alguns nomes internacionais vindos de países com a literatura pouco divulgada no Brasil, lança dois escritores turcos: <em>Suflê</em>, da escritora <strong>Asli E. Perker,</strong> e <em>Um golpe de sorte</em>, de <strong>Reha Çamoruglu</strong>.</p>
<p style="text-align: justify">A Bertrand Brasil publica o Man Booker Prize de 2010 – <em>The Finkler Question</em>, de <strong>Howard Jacobson</strong> – e o Pulitzer de 2009 – <em>Oliver Kitteridge</em>, de <strong>Elizabeth Strout</strong>. Já a Rocco traz o Man Booker Prize de 2011, <em>O sentido de um fim</em>, do grande <strong>Julian Barnes</strong>, além de um finalista do mesmo prêmio, <em>Na língua dos bichos,</em> de <strong>Stephen Kelman</strong>.</p>
<p style="text-align: justify">A Companhia das Letras lança um novo de <strong>David Grossman</strong>, chamado <em>Fora do tempo</em> – não sei como esse me escapou!</p>
<p style="text-align: justify">A Ateliê lança um volume de escritos e depoimentos do século XIV e XV contendo informações sobre a vida de <strong>Dante Alighieri</strong>.</p>
<p style="text-align: justify">Teremos ainda os diários de <strong>Andy Wahrol</strong> e sua biografia pela L&amp;PM.</p>
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		<title>Links e notícias da semana #58</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Oct 2011 17:00:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Taize Odelli</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8216;Nunca digo não quando ela pede um livro&#8217;, diz mãe sobre Dia das Crianças. O poeta brasileiro Ricardo Domeneck comenta a escolha de Tomas Tranströmer para o Nobel de 2011, em seu blog e na Folha de São Paulo. E no site da Revista Serrote, Paulo Roberto Pires comentou a &#8216;não-eleição&#8217;, em forma de fake [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><a href="http://alinde.tumblr.com/post/11437766178/teachingliteracy-visuaria"><img class="size-medium wp-image-14975 aligncenter" style="border: 0pt none" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2011/10/tumblr_lt1d3xJZlQ1qzhokmo1_500-300x237.jpg" alt="" width="300" height="237" /></a></p>
<p><a href="http://g1.globo.com/dia-das-criancas/2011/noticia/2011/10/nunca-digo-nao-quando-ela-pede-um-livro-diz-mae-sobre-dia-das-criancas.html" target="_blank">&#8216;Nunca digo não quando ela pede um livro&#8217;</a>, diz mãe sobre Dia das Crianças.</p>
<p>O poeta brasileiro Ricardo Domeneck comenta a escolha de Tomas Tranströmer para o Nobel de 2011, em <a href="http://ricardo-domeneck.blogspot.com/2011/10/sobre-tomas-transtromer-e-minha-pequena.html" target="_blank">seu blog</a> e na <a href="http://ricardo-domeneck.blogspot.com/2011/10/sobre-tomas-transtromer-e-minha-pequena.html" target="_blank">Folha de São Paulo</a>. E no site da <a href="http://www.revistaserrote.com.br/2011/10/cosic-o-nao-nobel" target="_blank">Revista Serrote</a>, Paulo Roberto Pires comentou a &#8216;não-eleição&#8217;, em forma de fake e de protesto, do sérvio Dobrica Cosic para o Nobel. No primeiro dia da Feira de Frankfurt, é anunciado um novo prêmio literário britânico &#8220;anti-Man Booker Prize&#8221;, o <a href="http://paineldasletras.folha.blog.uol.com.br/arch2011-10-09_2011-10-15.html#2011_10-12_16_52_21-160637125-0">Literature Prize</a>.</p>
<p><a href="http://mundodek.blogspot.com/2011/10/animacoes-de-carlos-lascano.html" target="_blank">No Mundo de K</a>, Kovacs comentou as animações de Carlos Lascano. Editora publica discurso do filósofo esloveno <a href="http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/989280-editora-publica-discurso-do-filosofo-esloveno-slavoj-zizek-em-wall-street.shtml" target="_blank">Slavoj Zizek</a> em Wall Street. Polêmicas no mundo dos livros: a <a href="http://money.cnn.com/2011/10/07/technology/kindle_dc_comics/?source=cnn_bin" target="_blank">Livraria Barnes &amp; Noble</a> tira das prateleiras Comics da DC por conta do acordo com o Kindle Fire (em inglês) e a Caixa reeditou e voltou a passar o <a href="http://www.youtube.com/watch?v=FBwJtxCsWyQ&amp;feature=youtu.be" target="_blank">comercial de Machado de Assis</a>, desta vez com ator negro.</p>
<p>E tem ensaio bem legal no <a href="http://www.nytimes.com/2011/10/09/books/review/will-the-e-book-kill-the-footnote.html?_r=1&amp;ref=books" target="_blank">NY Times</a> (em inglês): E-Readers acabarão com as notas de rodapé? Ainda em inglês, as <a href="http://www.totalfilm.com/features/50-worst-movie-adaptations/the-golden-compass-2007-1" target="_blank">50 piores adaptações para o cinema</a>.</p>
<p>A nossa Anica zombie fan falou um pouco de <a href="http://praler.wordpress.com/2011/10/06/n%C2%BA-13/" target="_blank">Literatura sobre zumbis no Pra Ler!</a>, da Rádio UFMG Educativa. Saiu a terceira edição do <a href="http://issuu.com/bibliotecapr/docs/candido3" target="_blank">Jornal Cândido</a>, da Biblioteca Pública do Paraná</p>
<p>Enxurrada de links sobre tradução: no <a href="http://www.lpm-blog.com.br/?p=11564" target="_blank">blog da L&amp;PM</a>, saiu uma matéria sobre as traduções e edições dos livros de Jack Kerouac em Portugal; no blog da <a href="http://editora.cosacnaify.com.br/blog/?p=9358" target="_blank">Cosac Naify</a>, Benjamin Moser falou da tradução da obra de Clarice Lispector; e no <a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/2011/10/12/traduzindo-fitzgerald/" target="_blank">Mundo Livro</a>, tradutores das novas edições de O grande Gatsby respondem duas perguntinhas e o blog ainda faz uma <a href="http://wp.clicrbs.com.br/mundolivro/2011/10/12/traducao-e-reacao-14/">comparação entre 5 traduções</a>.</p>
<p>Este mês o Ultraje a Rigor está completando 30 anos de estrada, e tem promoção rolando com sorteio da biografia da banda (&#8220;Nós vamos invadir sua praia&#8221;) e uma camiseta exclusiva. Basta acessar a <a href="https://www.facebook.com/event.php?eid=267936366562427" target="_blank">página da promoção no facebook</a>, seguir as regras e cruzar os dedos.</p>
<p>Hoje, dia 14, tem lançamento da <a href="http://www.cafeespacial.com/" target="_blank">Revista Café Espacial n° 10</a> comemorando os 4 anos da publicação que será realizado na cidade de Marília, interior de São Paulo. No dia 19 de outubro, às 21h, a Kafka Edições lança a coleção <em>Livros que não param em pé</em>, no Jokers em Curitiba. Os livros lançados são: Com que se pode jogar, de <a href="http://blog.meiapalavra.com.br/2011/06/13/10-perguntas-e-meia-para-luci-collin/" target="_blank">Luci Collin</a>; O Rei era assim, de Paulo Sandrini; e Os hábitos e os monges, de Assionara Souza.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Lançamentos da Companhia das Letras:</strong></p>
<p>O grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald (Tradução de Vanessa Barbara)<strong></strong></p>
<p>O anel mágico da tia Tarsila, de Tarsila do Amaral</p>
<p>Sombras no asfalto, de Luís Dill</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Poemas de Tomas Tranströmer</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Oct 2011 20:00:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luciano R. M.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Línguas&Tradução]]></category>
		<category><![CDATA[Notícias]]></category>
		<category><![CDATA[A Insegurança Nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Allegro]]></category>
		<category><![CDATA[Depois da RDA]]></category>
		<category><![CDATA[Depois de uma Morte]]></category>
		<category><![CDATA[Haikais]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Estrangeira]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Sueca]]></category>
		<category><![CDATA[Madrigal]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Tomas Tranströmer]]></category>
		<category><![CDATA[Tradução]]></category>

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		<description><![CDATA[Ontem foi anunciado o vencedor  prêmio Nobel de literatura desse ano, que foi o poeta sueco Tomas Tranströmer. Praticamente desconhecido no Brasil, ele é um dos maiores nomes da literatura sueca contemporânea, tendo sido extensamente traduzido para boa parte dos idiomas europeus. Como de praxe, as traduções para a língua portuguesa praticamente inexistem (só sei [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2011/10/transtromerklein.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-14791" style="border: 0pt none;margin: 5px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2011/10/transtromerklein-300x221.jpg" alt="" width="300" height="221" /></a>Ontem foi anunciado o vencedor  prêmio Nobel de literatura desse ano, que foi o poeta sueco Tomas Tranströmer. Praticamente desconhecido no Brasil, ele é um dos maiores nomes da literatura sueca contemporânea, tendo sido extensamente traduzido para boa parte dos idiomas europeus. Como de praxe, as traduções para a língua portuguesa praticamente inexistem (só sei de alguns poucos poemas traduzidos em Portugal, e nada mais).</p>
<p style="text-align: justify">Eu e o Tiago já discutimos um pouco a respeito da escolha da Academia Sueca em outro tópico, e, conforme prometido, traduzimos alguns poemas de Tranströmer.<span id="more-14790"></span><strong></strong></p>
<p><strong>A insegurança nacional</strong></p>
<p>(tradução de Luciano Ramos Mendes)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A sub-secretária se inclina para a frente e desenha um X</p>
<p>e seus brincos balançam como espadas de Damócles</p>
<p>Tal qual uma borboleta manchada é invisível no chão</p>
<p>também o demônio se mescla ao jornal aberto.</p>
<p>Um elmo vestido por ninguém tomou o poder.</p>
<p>A mãe tartaruga foge voando sob a água.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Depois da RDA (visita de cinco dias em 1990)</strong></p>
<p><strong></strong>(tradução de Tiago Guilherme Pinheiro)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O olho todo-poderoso do ciclope foi partido em meio às nuvens</p>
<p>e à grama bufando dentro da poeira de carvão.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Magoados pelos sonhos da noite</p>
<p>nós subimos à bordo de um trem</p>
<p>que se detém em todas as estações</p>
<p>para botar lá uns ovos.</p>
<p>Tudo parece tranqüilo&#8230;</p>
<p>Badalando os baldes dos sinos das igrejas</p>
<p>Que buscam por água</p>
<p>E a tosse implacável de alguém</p>
<p>Que engasga tudo e todo mundo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um ídolo de pedra que comove-se aos prantos:</p>
<p>eis a cidade.</p>
<p>Onde os mau-entendidos dominam</p>
<p>entre os vendedores dos quiosques os açougueiros os carpinteiros os oficiais da marinha</p>
<p>os mau-entendidos de bronze, os universitários,</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Que aos meus olhos fazem mal!</p>
<p>Eles viram</p>
<p>Eles leram ao surdo lampejo das lanternas dos pirilampos</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Contudo, nós entendemos o badalar</p>
<p>Dos baldes dos sinos das igrejas, que buscam por água</p>
<p>Todas as quartas-feiras</p>
<p>- mas já estamos na quarta?-</p>
<p>Vejam só o que nos dão no lugar do Dia da Domingo!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Allegro</strong></p>
<p>(tradução de Luciano Ramos Mendes)<strong></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eu toco Haydn depois de um dia escuro</p>
<p>e sinto um calorzinho nas mãos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>As teclas desejosas. Os martelos gentis.</p>
<p>O som é jovem, vigoroso e silencioso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O som diz que existe a liberdade</p>
<p>e que não se devem impostos ao imperador.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eu enfio minhas mãos nos meus haydn-bolsos</p>
<p>e imito um homem tranqüilo sobre o mundo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eu ergo minha haydn-bandeira. O sinal é:</p>
<p>&#8220;Jamais nos renderemos, mas queremos paz.&#8221;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A música é uma casa de vidro na encosta</p>
<p>onde voam pedras, rolam rochas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>As rochas rolam e a atravessam</p>
<p>mas as vidraças continuam intactas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Depois de uma morte</strong></p>
<p>(tradução de Tiago Guilherme Pinheiro)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Houve então uma colisão</p>
<p>que deixou para trás uma longa, bruxelante cauda de cometa.</p>
<p>Fechou-nos em seu interior. Fez com que nevassem as imagens da TV.</p>
<p>Formou estalactites frias nos fios dos telefones.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ainda é possível esquiar lentamente sob o sol invernal</p>
<p>Em meio a alamedas onde umas poucas folhas perduram.</p>
<p>Parecem páginas rasgadas de antigas listas telefônicas</p>
<p>Nomes engolidos pelo frio.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É bonito ouvir o coração bater</p>
<p>Mas é comum que a sombra pareça mais verdadeira que o corpo.</p>
<p>O samurai fica insignificante</p>
<p>Ao lado de sua armadura de escamas de dragão negro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Madrigal</strong></p>
<p>(tradução de Luciano Ramos Mendes)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify">Herdei um bosque sombrio onde raramente vou. Mas chegará um dia em que os mortos e os vivos trocarão de lugar. Então, o bosque se colocará em movimento. Não estamos sem esperanças. Os crimes mais difícies continuam sem solução, apesar dos esforços de muitos policiais. Do mesmo modo, há em nossa vida um grande amor por solucionar. Herdei um bosque sombrio, mas caminho em um outro bosque, o luminoso. Todas as criaturas que cantam, serpenteiam, mexem a cauda e se arrastam! É primavera e o ar é muito forte. Tenho um diploma da universidade do esquecimento e estou tão vazio quanto a camisa que seca no varal.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Haikais</strong></p>
<p>(tradução de Tiago Guilherme Pinheiro)<strong><br />
</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Forte e lenta brisa</p>
<p>Da livraria marinha</p>
<p>- Descasarei em paz aqui</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A grama crescente&#8230;</p>
<p>Sua face uma runa, pedra</p>
<p>ascendente na memória</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na biblioteca das meias-espertezas</p>
<p>Um livro-sermão na estante</p>
<p>Intocado</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Desgrenhados pinos</p>
<p>Num pântano trágico</p>
<p>- para sempre, eternamente</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O Cavalo da Morte salta sobre mim</p>
<p>Eu sou um problema de xadrez</p>
<p>E ela, a solução.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ele escreve e escreve&#8230;</p>
<p>Cola fluindo pelos canais;</p>
<p>Uma gôndola atravessando o Styx.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Shakespeare escrevia por dinheiro: O goleiro da literatura</title>
		<link>http://blog.meiapalavra.com.br/2011/09/30/shakespeare-escrevia-por-dinheiro-o-goleiro-da-literatura/</link>
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		<pubDate>Fri, 30 Sep 2011 23:00:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Anica</dc:creator>
				<category><![CDATA[Shakespeare escrevia por dinheiro]]></category>
		<category><![CDATA[Shakespeare Escrevia por Dinheiro]]></category>
		<category><![CDATA[Tradução]]></category>

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		<description><![CDATA[Este mês enquanto lia Ao Ponto do Anthony Bourdain me surpreendi em um daqueles raros momentos em que aprecio não só o livro, mas também a tradução dele. Assisto ao programa No Reservations há anos, e já estou bem familiarizada com o estilo desbocado de Bourdain e foi uma agradável surpresa perceber que o tradutor, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><img class="alignleft" style="border-style: initial;border-color: initial;border-width: 0px;margin: 5px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2011/02/anica.png" alt="" width="200" height="200" />Este mês enquanto lia <a title="Ao Ponto (Anthony Bourdain)" href="http://blog.meiapalavra.com.br/2011/09/07/ao-ponto-anthony-bourdain/" target="_blank">Ao Ponto</a> do Anthony Bourdain me surpreendi em um daqueles raros momentos em que aprecio não só o livro, mas também a tradução dele. Assisto ao programa <a title="no reservations" href="http://www.travelchannel.com/TV_Shows/Anthony_Bourdain" target="_blank">No Reservations</a> há anos, e já estou bem familiarizada com o estilo desbocado de Bourdain e foi uma agradável surpresa perceber que o tradutor, Celso Nogueira, conseguiu passar com perfeição esse jeito de falar do autor para a nossa língua &#8211; o que convenhamos, não é fácil, ainda mais se considerar que além dos palavrões, Bourdain usa muito da ironia construída através de expressões, trocadilhos e afins.</p>
<p style="text-align: justify">Uma coisa dá em outra, e lá estava eu pensando em como o tradutor é o goleiro da literatura. Reparem como ele tá sempre lá, pelas bordas, algumas vezes até salvando o time, mas poucas vezes seus nomes se destacam numa constelação de artilheiros. Em literatura, o que primeiro se pensaria é que o gol é do Bourdain, e os méritos da vitória são dele. Mas não há mérito algum no trabalho do Nogueira? Por que é tão difícil para nós reconhecermos o papel dos tradutores na literatura?</p>
<p style="text-align: justify"><span id="more-14603"></span>Você reconhece? Certo, e qual é seu tradutor preferido? Você consegue pensar em pelo menos cinco nomes diferentes de tradutores? Não compreendam mal, não estou dizendo que eles devam virar celebridades. Mas esse cantinho escuro que muitos leitores (e algumas editoras também) acabam oferecendo para eles não me parece certo. Sim, editoras também. Dia desses estava dando uma olhada no site de uma editora até &#8220;grande&#8221; (digamos assim) e nas informações sobre o livro não consta o nome do tradutor. Como assim?</p>
<p style="text-align: justify">Isso para não falar do problema de quando cai nas mãos do tradutor uma bomba, e é ele que fica com a culpa. O último Jane Austen que li achei estranhíssimo no começo, e qual foi meu primeiro pensamento? Problema na tradução. Aí fui ler o original e descobri que não, a culpa era da dona Austen mesmo. Levei a questão para o pessoal da equipe, e o <a title="gabriel" href="http://blog.meiapalavra.com.br/author/tilion/" target="_blank">Gabriel</a> (que é tradutor) disse isto aqui, que acredito ter bastante a ver com minha opinião sobre os tradutores:</p>
<blockquote>
<p style="text-align: justify">Se o original não ajuda, não há milagre que faça o tradutor melhorar o texto (sem reescrevê-lo totalmente, óbvio). Se a obra for ruim e o tradutor bom, a tradução vai parecer ruim. Se o tradutor for ruim, ela vai parecer ainda pior. Mas de um jeito ou de outro, o tradutor é que costuma levar a culpa, não o autor. O pensamento da maioria dos leitores é: se leem uma tradução e acham o livro bom, é mérito do autor; se acham o livro ruim, é o tradutor o culpado. Difícil ver alguém falando bem de um livro pela tradução em si, comentando-a. Não que todos tenham que saber a língua original para poder comparar, pois dá pra saber se uma tradução é boa justamente pela fluência do texto (simplificando bem as coisas num dos pontos centrais pra não entrar nos detalhes dos outros aspectos que também são levados em conta). Se uma tradução ruim salta à vista pelos problemas que apresenta, o mesmo se dá com uma tradução boa justamente por não haver essa percepção de &#8220;tem algo errado neste texto&#8221;. É aquela coisa de o tradutor bom &#8220;desaparecer&#8221; na tradução – o que não significa que a crítica da tradução também deva sumir.</p>
<p style="text-align: justify">
</blockquote>
<p style="text-align: justify">E eu acho que é também um pouco uma questão de hábito que podemos desenvolver, melhorar. Quando comecei a ler quadrinhos, eu mal sabia os nomes dos autores, com o tempo um amigo me ensinou a importância de reconhecer também o trabalho do artista responsável pelas ilustrações, hoje em dia eu não consigo falar de uma HQ sem comentar o trabalho do autor e do ilustrador, para mim é a combinação dos dois que leva ao todo. Se vou ler uma tradução, por que não fazer uma leitura semelhante?</p>
<p style="text-align: justify">Vocês vão começar a reparar que alguns nomes costumam estar sempre presentes em livros que você gosta. Um exemplo é o <a title="10 Perguntas e Meia para Guilherme da Silva Braga" href="http://blog.meiapalavra.com.br/2011/04/25/10-perguntas-e-meia-para-guilherme-da-silva-braga/" target="_blank">Guilherme da Silva Braga</a>, que traduziu para a Hedra alguns títulos do Lovecraft e <em>O Gato Preto e outros contos</em> do Edgar Allan Poe. Tem também a <a title="10 Perguntas e Meia para Denise Bottmann" href="http://blog.meiapalavra.com.br/2010/08/09/10-perguntas-e-meia-para-denise-bottmann/" target="_blank">Denise Bottmann</a> que traduziu diversos títulos relacionados com História para a Companhia das Letras. O <a title="10 Perguntas e Meia para Caetano W. Galindo" href="http://blog.meiapalavra.com.br/2011/01/24/10-perguntas-e-meia-para-caetano-w-galindo/" target="_blank">Caetano Galindo</a> chega ano que vem com uma tradução de <em>Ulysses</em>, e dizem também que será o responsável por <em>Infinite Jest</em>. Ou seja, tá sem ideia sobre o que ler? Adote um tradutor favorito e vá atrás do que ele já traduziu.</p>
<p style="text-align: justify">Mas mais importante de tudo, comece a reparar em quem traduziu os livros dos quais você gosta. Um exemplo de como isso é importante é que os casos de plágio da Martin Claret passaram batido para muitas pessoas, poucos perceberam que eram MUITOS títulos creditados a uma pessoa só, como a Denise Bottmann reparou e colocou em seu Não gosto de plágio (<a title="martin claret" href="http://naogostodeplagio.blogspot.com/2008/05/martin-claret-na-fundao-biblioteca.html" target="_blank">o que inclui até tradutores de Machado de Assis, Eça de Queiroz e Gil Vicente, vê se pode!</a>).</p>
<p style="text-align: justify">O que aliás me fez lembrar de uma anetoda, que conto aqui para encerrar a coluna deste mês. Prédio da reitoria, elevador com um punhado de estudantes de Letras conversando até chegar ao décimo andar. Os livros da Martin Claret eram novidade então, e estavam sendo comentados por dois alunos.</p>
<p style="text-align: justify">Fulano: Achei barato, acabei comprando um do Machado de Assis.</p>
<p style="text-align: justify">Ciclano: Mas e a tradução, é boa?</p>
<p style="text-align: justify">***</p>
<p style="text-align: justify">Em tempo, fui lembrada pela @<a title="dia do tradutor" href="http://twitter.com/#!/biasmaal/status/119449018597244931" target="_blank">biasmaal</a> que hoje é dia do tradutor. Parabéns para todos os que trazem para o português grandes obras lá de fora!</p>
<p style="text-align: justify">***</p>
<p style="text-align: justify"><strong>Livros lidos:  </strong>Obax (André Neves), Ao Ponto (Anthony Bourdain), Arte e Letra Estórias: N (Vários), 40 Novelas (Luigi Pirandello), 24 Letras por Segundo (Vários), Paciente 67 (Denis Lehane), A lenda do cavaleiro sem cabeça (Washington Irving), Zuckerman Acorrentado (Philip Roth).</p>
<p style="text-align: justify"><strong>Leituras em andamento:</strong> Por que não sou cristão (Bertrand Russell).</p>
<p style="text-align: justify"><strong>Livros que chegaram</strong>: Obax (André Neves), Arte e Letra Estórias: N (Vários), 24 Letras por Segundo (Vários), Paciente 67 (Denis Lehane), A lenda do cavaleiro sem cabeça (Washington Irving), Zuckerman Acorrentado (Philip Roth), Por que não sou cristão (Bertrand Russell).</p>
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		<title>Isto é água (David Foster Wallace)</title>
		<link>http://blog.meiapalavra.com.br/2011/09/06/isto-e-agua-david-foster-wallace/</link>
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		<pubDate>Tue, 06 Sep 2011 20:00:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Colaborador Meia Palavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Caetano W. Galindo]]></category>
		<category><![CDATA[David Foster Wallace]]></category>
		<category><![CDATA[O Discreto Blog da Burguesia]]></category>
		<category><![CDATA[Tradução]]></category>

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		<description><![CDATA[Pouparemos o espaço para introduções ao autor, uma vez que para falar sobre David Foster Wallace temos um excelente artigo de Caetano Galindo aqui no Meia Palavra. Entretanto, sobre o artigo que você lerá aqui, cabe contar que trata-se de um discurso que ele fez em 2005, em uma cerimônia de graduação. O texto começou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><img class="alignleft" style="border-style: initial;border-color: initial;border-width: 0px;margin: 5px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2011/03/david-foster-wallace.jpg" alt="" width="300" height="300" />Pouparemos o espaço para introduções ao autor, uma vez que para falar sobre <strong>David Foster Wallace</strong> temos <a title="david foster definições" href="http://blog.meiapalavra.com.br/2011/04/05/definicoes-para-david-foster-wallace-ou-dfw-e-dois-pontos/" target="_blank">um excelente artigo de Caetano Galindo</a> aqui no Meia Palavra. Entretanto, sobre o artigo que você lerá aqui, cabe contar que trata-se de um discurso que ele fez em 2005, em uma cerimônia de graduação. O texto começou a ser divulgado e compartilhado na internet, e o <strong>Luis Calil</strong> do ótimo <a title="o discreto blog da burguesia" href="http://discretoblog.wordpress.com" target="_blank">O Discreto Blog da Burguesia</a> publicou recentemente uma tradução para <em>Isto é água</em>, que você poderá conferir a seguir.</p>
<p style="text-align: center"><strong>ISTO É ÁGUA</strong><br />
<span style="text-decoration: underline">David Foster Wallace</span></p>
<p style="text-align: justify">Há dois peixes jovens nadando ao longo de um rio, e eles por acaso encontram um peixe mais velho nadando na direção oposta, que pisca para eles e diz, “Bom dia, rapazes, como está a água?”. E os dois peixes jovens continuam nadando por um tempo, e então um deles olha pro outro e diz, “Que diabos é água?”.<span id="more-13957"></span>Se você está preocupado pensando que eu estou planejando me apresentar aqui como o peixe velho e sábio explicando o que é água, por favor não fique. Eu não sou o peixe velho e sábio. O ponto imediato da história dos peixes é que as realidades mais óbvias, ubíquas e importantes são frequentemente as mais difíceis de se ver e discutir. Declarada como uma frase, é claro, isso é só um lugar-comum banal – mas o fato é que, nas trincheiras diárias da existência adulta, lugares-comuns banais podem ter importância de vida ou morte.</p>
<p style="text-align: justify">É claro que o principal requerimento de discursos de formatura como esse é que eu devo falar sobre o significado da sua educação de Ciências Humanas, tentar explicar por que o diploma que você acabou de receber tem algum valor humano real ao invés de apenas compensação material. Então vamos falar do maior clichê do gênero do discurso de formatura, que é que a educação de ciências humanas não tem o propósito de te encher de conhecimento, mas sim de ensiná-lo a pensar. Aqui vai outra historinha didática:</p>
<p style="text-align: justify">Tem dois caras sentados juntos num bar numa região remota do Alaska. Um dos caras é religioso, o outro é ateu, e os dois estão discutindo sobre a existência de Deus com a intensidade especial que vem depois da quarta cerveja. E o ateu diz: “Olha, não é como se eu não tivesse razões verdadeiras pra não acreditar em Deus. Não é como se eu nunca tivesse experimentado essa coisa toda de Deus e oração. Mês passado uma nevasca terrível me pegou longe do acampamento, eu tava completamente perdido, e não conseguia ver nada, e tava 25 graus negativos, então eu tentei: eu caí de joelhos na neve e gritei ‘Ó Deus, se existir um Deus, eu tô perdido nessa nevasca, e eu vou morrer se você não me ajudar.’” E agora, no bar, o cara religioso olha pro ateu confuso. “Bem, então você deve acreditar agora”, diz ele. “Afinal, aqui está você, vivo.” O ateu rola os olhos. “Não, cara, o que aconteceu é que dois esquimós por acaso apareceram por lá e me mostraram o caminho do acampamento.”</p>
<p style="text-align: justify">É fácil fazer uma análise literária dessa história: A mesma exata experiência pode significar duas coisas completamente diferentes para duas pessoas completamente diferentes, considerando os diferentes modelos de crença e as diferentes formas de construir significado de uma experiência. Porque nós valorizamos tolerância e diversidade de crença, não queremos na nossa análise literária afirmar que a interpretação de um cara é verdadeira e a interpretação do outro cara é falsa ou ruim. O que não tem problema, só que nós também acabamos nunca falando sobre de onde vêm esses modelos e crenças diferentes.</p>
<p style="text-align: justify">Quero dizer: de onde eles vêm dentro dos dois caras? É como se a orientação ao mundo mais básica de uma pessoa, e o significado de sua experiência, fossem de alguma forma simplesmente impressos nos genes, como altura ou tamanho do sapato – ou automaticamente absorvidos da cultura, como linguagem. Como se a forma em que construímos significado não fosse uma questão de escolha pessoal e intencional. Além disso, há toda a questão de arrogância. O cara não-religioso está completamente certo na sua rejeição da possibilidade de que os esquimós tiveram qualquer coisa a ver com sua oração e pedido de ajuda. Verdade, existem também muitas pessoas religiosas que parecem arrogantes e certas de suas próprias interpretações. Elas provavelmente são muito mais repulsivas do que os ateus, pelo menos para a maioria. Mas o problema do religioso dogmático é exatamente o mesmo do descrente da história: certeza cega, uma mente fechada que representa um aprisionamento tão completo que o prisioneiro nem sabe que está encarcerado.</p>
<p style="text-align: justify">O ponto aqui é que isso é uma parte do que me ensinar como pensar significa. Ser um pouco menos arrogante. Ter um pouco de consciência crítica sobre mim e minhas certezas. Porque uma grande porcentagem das coisas sobre as quais eu costumo automaticamente ter certeza é, na verdade, totalmente errada ou ilusória. Eu aprendi isso do jeito difícil, e eu aposto que vocês também vão.</p>
<p style="text-align: justify">Aqui vai um exemplo de algo completamente errado que eu costumo automaticamente ter certeza: tudo na minha experiência apóia minha crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, a pessoa mais real, vívida e importante que existe. Nós raramente falamos sobre esse tipo de egocentrismo natural e básico, porque ele é tão socialmente repulsivo, mas é basicamente o mesmo para todos nós, no fundo. É a nossa configuração padrão, impressa nos nossos circuitos desde o nascimento. Pense nisso: você nunca teve uma experiência da qual você não foi o centro absoluto. O mundo como nós o vemos está bem na sua frente, ou atrás de você, ou à sua esquerda ou à sua direita, na sua TV, no seu monitor, ou o que for. Os pensamentos e sentimentos de outras pessoas precisam ser comunicados pra você de alguma forma, mas os seus próprios são tão imediatos, urgentes, reais… você entendeu.</p>
<p style="text-align: justify">Mas por favor, não se preocupe pensando que eu estou me preparando pra pregar pra você sobre compaixão ou desprendimento ou as supostas “virtudes”. Isso não é uma questão de virtude, é uma questão de eu escolher fazer o trabalho de alterar ou me livrar da minha configuração padrão natural, que é ser profundamente e literalmente egocêntrico, e ver e interpretar tudo pela lente do eu. Pessoas que conseguem ajustar sua configuração padrão natural dessa forma são geralmente descritas como “bem ajustadas”, o que eu lhe sugiro que não é um termo acidental.</p>
<p style="text-align: justify">Como vocês devem saber, é extremamente difícil se manter alerta e atento, ao invés de se hipnotizar pelo monólogo constante dentro da sua próprio cabeça (pode estar acontecendo agora). Vinte anos depois da minha gradução, eu cheguei à conclusão de que o clichê sobre a educação de Humanas sobre te ensinar como pensar é na verdade uma simplificação de uma idéia muito mais profunda e séria: aprender como pensar significa como exercer controle sobre como e o que você pensa. Significa estar ciente e consciente o suficiente para escolher no que você presta atenção e escolher como você constrói significado de uma experiência. Porque se você não exercitar esse tipo de escolha na vida adulta, você está lascado.</p>
<p style="text-align: justify">Pense no velho clichê sobre a mente ser “um ótimo servo mas um terrível mestre.” Esse, como vários outros clichês, tão bobo e broxante na superfície, na verdade expressa uma grande e terrível verdade. Não é mera coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre atiram na cabeça. Eles atiram no terrível mestre. E a verdade é que a maioria desses suicídas estão mortos muito antes de puxarem o gatilho. E eu sugiro que esse é o verdadeiro valor da educação de Humanas: como evitar viver sua confortável e próspera vida adulta morto, inconsciente, um escravo da sua cabeça e da sua configuração padrão natural de ser unicamente, completamente, imperialmente sozinho, dia após dia. Isso pode soar como hipérbole ou baboseira abstrata. Vamos deixar mais concreto.</p>
<p style="text-align: justify">O fato é que vocês jovens graduados não fazem idéia do que realmente significa “dia após dia”. Há por acaso partes enormes da vida adulta americana sobre as quais ninguém fala nesses discursos de formatura. Uma dessas partes envolve tédio, rotina e frustrações triviais. Seus pais vão saber muito bem do que eu estou falando.</p>
<p style="text-align: justify">Por exemplo, digamos que é um dia comum, e você acorda de manhã, e você vai pro seu trabalho exigente, e você trabalha duro por nove ou dez horas, e no fim do dia você está cansado e estressado, e tudo que você quer fazer é ir pra casa e jantar e talvez relaxar por algumas horas e então cair na cama cedo porque você tem que acordar no dia seguinte e fazer tudo de novo. Mas aí você lembra que não tem comida em casa – você não teve tempo de fazer compras essa semana, por causa do seu trabalho exigente – e então agora, depois do trabalho, você tem que entrar no seu carro e dirigir até o supermercado. É o fim do expediente, e o tráfego está horrível, então chegar no lugar demora muito mais do que deveria, e quando você finalmente chega lá, o supermercado está muito cheio, porque, é claro, é a hora do dia que todas as outras pessoas com emprego também tentam espremer um tempo pra fazer compras, e a iluminação da loja é fluorescente e medonha, e no som toca algum pop corporativo ou Muzak que destrói a alma, e é basicamente o último lugar que você quer estar. Mas você não pode entrar e sair rapidamente: você tem que vagar pelos corredores lotados dessa loja enorme e exageradamente iluminada para achar as coisas que você quer, e você tem que manobrar o seu carrinho de compras enferrujado por todas essas outras pessoas cansadas e apressadas que também empurram carrinhos, e é claro que também estão lá as pessoas idosas se movendo num ritmo glacial e as pessoas espaçosas e as crianças que bloqueiam os corredores e com as quais você tenta ser educado quando pede para elas deixarem você passar – e finalmente, você pega tudo que precisa pro jantar, só que agora não tem caixas abertos suficientes apesar de ser a correria do fim do dia, então a fila do caixa está incrivelmente longa, o que é estúpido e irritante, mas você não pode despejar sua fúria na moça agitada trabalhando no caixa, que está sobrecarregada num emprego cujo tédio diário e insignificância ultrapassam a imaginação de qualquer um de nós nessa faculdade prestigiada.</p>
<p style="text-align: justify">De qualquer forma, você finalmente chega na frente do caixa, e paga pela sua comida, e espera receber seu cartão autenticado pela máquina, e então desejam-lhe “um bom dia” numa voz que é a absoluta voz da morte, e então você tem que levar seus sacos de plástico frágil no seu carrinho através do estacionamento cheio, esburacado e sujo, e você tenta colocar os sacos no seu carro de forma que tudo não caia das sacolas e role pelo seu porta-malas no caminho para casa, e então você tem que dirigir para casa no tráfego lento de hora do rush, cheio de SUVs e picapes, etc, etc.</p>
<p style="text-align: justify">O ponto é que merda trivial e frustrante desse tipo é exatamente onde entra o trabalho de escolher. Porque os engarrafamentos e corredores lotados e longas filas do caixa me dão tempo para pensar, e se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar e no que prestar atenção, eu vou ficar enfezado e miserável toda vez que eu for comprar comida, porque minha configuração padrão natural é a certeza de que situações como essa são na verdade só sobre mim, sobre minha fome e meu cansaço e meu desejo de chegar em casa, e vai parecer que todos os outros estão no meu caminho, e quem é esse povo, mesmo? E olha o quão repulsivo é boa parte deles, e como aqui na fila do caixa eles parecem estúpidos, olhos mortos, não-humanos, como vacas, ou o quão irritante e rude são as pessoas que estão falando alto no celular no meio da fila, e olha como isso é profundamente injusto: eu trabalhei duro o dia inteiro e estou faminto e cansado e não posso nem chegar em casa para comer e relaxar por causa de todo esse maldito povo idiota.</p>
<p style="text-align: justify">Ou, se eu estou na forma mais socialmente consciente da minha configuração padrão, eu posso passar o tempo no engarrafamento do fim do dia ficando irritado e enojado com todos esses SUVs e picapes e caminhonetes enormes, idiotas, que bloqueiam pistas, queimando e desperdiçando seus tanques egoístas de 40 galões de gasolina, e eu posso considerar o fato de que adesivos religiosos ou patrióticos costumam estar pregados nos veículos maiores e mais egoístas, dirigidos pelos motoristas mais feios, imprudentes e agressivos, que geralmente estão falando no celular enquanto cortam os outros pra avançar 10 metros idiotas num engarrafamento, e eu posso pensar sobre como os filhos dos nossos filhos vão nos desprezar por gastar todo o combustível do futuro e provavelmente estragar o clima, e quão mimados e estúpidos e nojentos nós somos, e como a sociedade consumista moderna é um saco, e assim por diante. Você entendeu.</p>
<p style="text-align: justify">Se eu escolher pensar assim na loja ou na rua, tudo bem, muitos de nós pensam – só que pensar dessa forma costuma ser fácil e automático e não precisa ser uma escolha. É a minha configuração padrão natural. É a forma automática de como eu vivo as partes chatas, frustrantes e lotadas da vida adulta quando eu estou operando na crença automática, inconsciente de que eu sou o centro do mundo, e que minhas necessidades imediatas e sentimentos são o que deve determinar as prioridades do mundo.</p>
<p style="text-align: justify">A questão é que, é claro, há formas completamente diferentes de se pensar sobre esses tipos de situações. Nesse trafego, todos esses veículos parados no meu caminho, não é impossível que algumas dessas pessoas nas caminhonetes já estiveram em acidentes de carro horríveis no passado e agora acham dirigir tão aterrorizante que seus terapeutas praticamente ordenaram que elas comprem uma caminhonete grande e pesada para que se sintam seguras o suficiente para dirigir novamente. Ou que a picape que acabou de me cortar talvez esteja sendo dirigida por um pai cujo filho esteja ferido ou doente no banco de passageiros, e ele está tentando levar essa criança pro hospital, e ele está numa pressa maior e mais legítima que a minha – ou seja, sou eu que estou no caminho dele. Ou eu posso me forçar a considerar a possibilidade de que todo mundo na fila do supermercado está tão entediado e frustrado quanto eu, e que algumas dessas pessoas tem uma vida mais difícil, tediosa e dolorosa que a minha.</p>
<p style="text-align: justify">Novamente, por favor não ache que eu estou dando conselho moral, ou que estou dizendo que você deve pensar dessa forma, ou que qualquer um espere que você automaticamente faça isso. Porque é difícil. Requer determinação e esforço, e se você é como eu, alguns dias você não vai conseguir fazê-lo, ou simplesmente não vai querer.</p>
<p style="text-align: justify">Mas na maioria dos dias, se você está ciente o bastante para se dar uma escolha, você pode escolher outra forma de olhar para essa senhora obesa, de olhos mortos e maquiagem exagerada, que acabou de gritar com o filho na fila do supermercado. Talvez ela não seja assim, geralmente. Talvez ela esteja acordada três noites seguidas segurando a mão do seu marido que está morrendo de câncer ósseo. Ou talvez essa mesma senhora seja a atendente do departamento de veículos motorizados, que ontem mesmo ajudou a sua esposa resolver algum problema chato através de um pequeno ato de bondade burocrática.</p>
<p style="text-align: justify">É claro, nada disso é provável, mas também não é impossível. Só depende do que você quer considerar. Se você tem certeza automática de que sabe o que a realidade é, e você está operando na sua configuração padrão, então você, como eu, provavelmente não vai considerar possibilidades que não são irritantes ou miseráveis. Mas se você realmente aprender como prestar atenção, então você saberá que existem outras opções. Estará dentro da sua capacidade vivenciar uma situação lotada, lenta e quente como não só significante, mas sagrada, uma chama como a que criou as estrelas: amor, companheirismo, e a unidade mística de todas as coisas, no fundo.</p>
<p style="text-align: justify">Não que essa coisa mística seja necessariamente verdade. A única coisa que é Verdade com v maiúsculo é que você decide como vai tentar vê-la.</p>
<p style="text-align: justify">Essa, eu afirmo, é a verdadeira educação, a de aprender como ser bem ajustado. Você vai conscientemente decidir o que tem significado e o que não tem. Você decide o que venerar.</p>
<p style="text-align: justify">Porque aqui está algo que é estranho mas real: nas trincheiras diárias da vida adulta, não existe algo como o ateísmo. Não existe “não venerar”. Todo mundo venera. A única escolha que temos é o que venerar. E a razão convincente para talvez escolher venerar algum tipo de deus ou coisa espiritual – seja JC, Alá, ou a Deusa Mãe dos Wicca, ou as Quatro Nobres Verdades, ou algum conjunto de princípios éticos invioláveis – é que praticamente qualquer outra coisa que você venerar vai te comer vivo.</p>
<p style="text-align: justify">Se você venera dinheiro e coisas, se é aí que você encontra significado verdadeiro na vida, então você nunca terá o suficiente. É a verdade. Venere o seu corpo e beleza e atração sexual, e você sempre vai se sentir feio. E quando o tempo e idade começarem a aparecer, você vai morrer um milhão de mortes antes de finalmente te enterrarem. De certa forma, nós já sabemos dessas coisas. Elas já foram codificadas em mitos, provérbios, clichês, epigramas, parábolas – o esqueleto de toda grande história. O truque é manter a verdade evidente na consciência diária..</p>
<p style="text-align: justify">Venere o poder, e você vai acabar se sentindo fraco e medroso, e você vai precisar de ainda mais poder sobre os outros para entorpecer o seu próprio medo. Venere seu intelecto, ser visto como esperto, e você vai acabar se sentindo estúpido, uma fraude, sempre à beira de ser descoberto. Mas a coisa insidiosa sobre essas formas de veneração não é que elas são más ou perversas – é que elas são inconscientes. Elas são a configuração padrão. São o tipo de veneração em que você gradualmente se acomoda, dia após dia, ficando mais e mais seletivo sobre o que você vê e como você mede valor sem jamais estar totalmente ciente do que está fazendo.</p>
<p style="text-align: justify">E o suposto mundo real não irá te desencorajar de operar na sua configuração padrão, porque o suposto mundo real de homens e dinheiro e poder cantarola alegremente numa piscina de medo e raiva e frustração e desejo e veneração de si mesmo. Nossa própria cultura atual canalizou essas forças de formas que geraram extraordinária riqueza e conforto e liberdade pessoal. A liberdade de sermos senhores dos nossos pequenos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, sozinhos no centro de toda a criação. Esse tipo de liberdade tem vários méritos. Mas é claro que há vários tipos diferentes de liberdades, e no grande mundo lá fora de querer e conseguir, você não irá ouvir muito sobre o tipo mais precioso. O tipo realmente importante de liberdade envolve atenção e consciência e disciplina, e ser capaz de realmente se importar com outras pessoas e se sacrificar por elas repetidamente numa miríade de formas triviais e pouco excitantes.</p>
<p style="text-align: justify">Essa é a verdadeira liberdade. Isso é ser educado, e saber como pensar. A alternativa é a inconsciência, a configuração padrão, a corrida maluca, a constante e torturante sensação de ter tido, e perdido, alguma coisa infinita.</p>
<p style="text-align: justify">Eu sei que essas coisas não soam divertidas ou joviais ou grandiosamente inspiradoras como um discurso de formatura deve soar. O que isso é, até onde eu sei, é a Verdade com v maiúsculo, com uma porção de sutilezas retóricas removidas. Você está, é claro, livre para pensar disso o que você quiser. Mas por favor não o rejeite como algum sermão hipócrita. Nada disso é realmente sobre moralidade ou religião ou dogma ou questões fantasiosas sobre vida após a morte. A Verdade com v maiúsculo é sobre vida antes da morte. É sobre o valor real de educação real, que não tem quase nada a ver com conhecimento, e tudo a ver com simples consciência – consciência daquilo que é real e essencial, tão escondido na obviedade ao nosso redor, o tempo todo, que nós temos que continuar relembrando repetidamente:</p>
<p style="text-align: justify">“Isto é água.”</p>
<p style="text-align: justify">“Isto é água.”</p>
<p style="text-align: justify">É inimaginavelmente difícil fazer isso, se manter consciente e vivo no mundo adulto dia após dia. O que significa que mais um grande clichê acaba sendo verdade: sua educação realmente é o trabalho de uma vida toda. Eu lhes desejo muito mais que sorte.</p>
<p style="text-align: justify"><em>(Agradecimentos especiais para Luis Calil por compartilhar conosco a tradução de Isto é Água, que você <a title="discreto blog isto é isto é água" href="http://discretoblog.wordpress.com/2011/08/31/isto-e-isto-e-agua/" target="_blank">pode conferir também no blog O Discreto Blog da Burguesia</a>)</em></p>
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		<title>&#8220;O Eu e o Id&#8221; e outros textos (Sigmund Freud)</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Aug 2011 19:58:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tiago Pinheiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Companhia das Letras]]></category>
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		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Sigmund Freud]]></category>
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		<description><![CDATA[Ainda que com alguns meses de atraso, fico feliz em festejar aqui o plano editorial da tradução das Obras Completas de Sigmund Freud, que a Companhia das Letras, sob a direção de Paulo César de Souza (que fez as traduções de Nietzsche para essa mesma ediora), vem levando a cabo, com seis volumes já lançados.  Essas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2011/08/freud.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-13444" style="margin: 5px;border: 0px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2011/08/freud-186x300.jpg" alt="" width="186" height="300" /></a>Ainda que com alguns meses de atraso, fico feliz em festejar aqui o plano editorial da tradução das <em>Obras Completas</em> de Sigmund Freud, que a Companhia das Letras, sob a direção de Paulo César de Souza (que fez as traduções de Nietzsche para essa mesma ediora), vem levando a cabo, com seis volumes já lançados.  Essas traduções merecem atenção não só por serem diretas do alemão, mas porque talvez esta seja a primeira vez que temos um texto freudiano, enquanto projeto de pensamento, em português.<br />
A história da edição <em>Standard</em> norte-americana, na qual foi baseada os volumes brasileiros anteriores (publicados pela Imago), é tão rocambolesca e tão violenta (com alguma coisa que hoje pode nos parecer cômica) que talvez valha a pena comentá-la aqui.</p>
<p style="text-align: justify">Para quem não sabe, essa tradução norte-americana contou com o apoio do próprio Freud, quando a fama desse começou a despontar no Novo Continente. O então responsável pela reunião dos textos, James Strachey, teve em vista a necessidade de transformar a psicanálise freudiana mais “científica”, isto é, tornar suas obras cobertas de notas, de referências, etc, mas, mais do que isso, modificar seu linguajar para que ficasse mais “apropriado” para a comunidade médica dos EUA. Foi assim que surgiram os famosos <em>Ego</em>, <em>Id</em> e <em>Supergo</em> – tirados do latim (língua que contem um presíigio científico ainda hoje, derivado da sua alteridade religiosa&#8230;), como versões de <em>Ich</em>, <em>Es</em> e <em>Über-Ich</em>, cujas traduções literais seriam tão somente Eu, Isso e Super-eu.</p>
<p style="text-align: justify"><span id="more-13442"></span></p>
<p style="text-align: justify">Não se trata apenas de “precisão” na transposição dos conceitos: a questão aqui é o lugar no qual a teoria de Freud quer se inserir. Todo seu esforço é voltado para cindir termos tão básicos de nossa vida que de fato seria necessário modificar o próprio modo como nós nos comportamos (e mesmo o próprio conceito de “vivente”). Freud sabe que é na linguagem diária, no senso comum, que reside o substrato das estruturas que determinam nossas relações e nossa possibilidade de pensamento.</p>
<p style="text-align: justify">Pensar nas complexidades das constituições pulsionais do Ego é uma discussão reservada a especialistas em salas fechadas. Pensar o eu, esse eu que fala a você, esse eu que é também você, como também é o outro, pensá-lo como uma construção social (um eu que é o eu de todos e de ninguém – um Super-eu) constituída para negociar instintos de natureza diferente (essa coisa indefinível, isso que não me sai da cabeça e que eu não consigo expressar), determinados pela busca conflituosa do repouso mental e do prazer, é formular uma questão bem diferente. Não à toa toda a obra de Freud é constituída em cima de fatos absolutamente corriqueiros da vida comum – o chiste, o sonho, os lapsos de linguagem –, tudo aquilo que antes não tinha dignidade de ser pensado. É a vida cotidiana que Freud espera atingir, mostrando que ela não é dada, não é tão acessível como se imagina.</p>
<p style="text-align: justify">Neste tomo que tenho em mãos, e que corresponde ao 16º volume, com textos de 1923-25, fase em que Freud já está chegando a seu modelo final (ainda que dificilmente possa se dizer “acabado”), temos o importante texto <em>O Eu e o Id</em> (o tradutor preferiu manter o Id no lugar de Isso, por uma questão de funcionamento ambíguo que isso daria a certas frases no português &#8211; sinceramente, acho uma pena), em que Freud avançará ainda mais na descrição da dinâmica do aparelho psíquico iniciada em <em>Para além do princípio de prazer</em> (1920). Aqui vemos como o “Eu” é uma estrutura mínima dentro de um campo gerado e dominado por uma espécie de massa amórfica pré-linguística que Freud chama simplesmente de Isso (Id), onde imperam duas formas básicas de instinto, os famosos instintos sexuais (Eros) e o instinto de morte, que antes foram traduzidos por “pulsões” ( no original, <em>Trieb</em>, palavra que tem uma longa tradição dentro do pensamento alemão. Essa é a mesma palavra que Nietszche e que costumamos verter como “vontade”). Temos a descrição da formação desse Eu, sempre imperfeita com relação ao seu ideal, o Super-eu, que se origina a partir da relação que a criança assume com o primeiro modelo de “eu” que tem a sua frente – seu pai. Aqui entendemos o papel do Complexo de Édipo (bem longe do que ouvimos falar dele por aí&#8230;) na formação do “indivíduo”, em seu caráter essencialmente conflituoso.</p>
<p style="text-align: justify">Além desse texto mais longo, inclui-se também a chamada “Autobiografia”, que se trata mais de um perfil intelectual de Freud. Dos textos curtos, os que mais se destacam são, talvez (é difícil escolher!), “A Organização genital infantil”, “O Problema econômico do masoquismo”, “A Dissolução do Complexo de Édipo”, “As Resistências à Psicanálise” e o importantíssimo “A Negação”. Inclui-se aqui, para os que vão se iniciar na obra de Freud, talvez um dos melhores textos introdutórios para compreendermos a noção de “inconsciente” e “memória” para este autor: “Notas sobre o ‘Bloco Mágico’”. Aqui fica muito evidente que esquecimento e memória são forças ativas em nosso aparelho psíquico, isto é, um não é a ausência do outro (não deixamos escapar uma lembrança – ela foi apagada pelo nosso mecanismo psíquico), que nossas lembranças são modificadas, rasuradas, apagadas, sobrepostas, criadas (mesmo quando não são vivenciadas no sentido comum da palavra), a todo o momento. A noção de experiência e de passado se torna muito mais complexa aqui. E Freud explica tudo isso a partir de um instrumento que consiste numa placa de cera maleável, utilizada para fazer anotações, muito semelhante àquele antigo brinquedo no qual era possível desenhar numa superfície branca girando os botões nas laterais, podendo limpar a superfície com um pequeno apagador.</p>
<p style="text-align: justify">Seria possível falar muito ainda, como muito já foi falado. Mas acho que o mais importante a se ressaltar aqui é que agora podemos perder o medo de Freud e aproveitar um texto magnífico e agradável, preocupado com seu leitor, sabendo que estamos num pensamento alicerçado na experiência de todos nós, que, querendo fazer parte desse comum, busca modificar-lhe o sentido, dar uma nova forma a nossa vivência.</p>
<p style="text-align: justify">Título: &#8220;O Eu e o Id&#8221;, &#8220;Autobiografia&#8221; e Outros Textos [1923-1925]</p>
<p style="text-align: justify">Autor: Sigmund Freud</p>
<p style="text-align: justify">Tradutor: Paulo César de Souza</p>
<p style="text-align: justify">376 páginas</p>
<p style="text-align: justify">Preço: 52 reais</p>
<p style="text-align: center">Saiba mais sobre essa e outras obras no site da <strong>Companhia das Letras</strong></p>
<p style="text-align: center"><a href="http://www.companhiadasletras.com.br/"><img class="aligncenter size-full wp-image-2400" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2010/07/logocia.jpg" alt="" width="279" height="129" /></a></p>
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		<title>10 Perguntas e Meia para Luci Collin</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Jun 2011 17:32:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Anica</dc:creator>
				<category><![CDATA[10 perguntas e meia]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Gary Snyder]]></category>
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		<description><![CDATA[Nascida em Curitiba, Luci Collin é mil em uma só: professora de Literatura na UFPR, graduada em Piano, Letras e Percussão, doutora em Letras pela USP. Já escreveu livros de poesia (Estarrecer (1984), Espelhar (1991), Esvazio (1991), Ondas e Azuis (1992), Poesia Reunida (1996), Todo Implícito (1998)) e de contos (Lição Invisível (1997), Precioso Impreciso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2011/06/luci-collin.jpg"><img class="size-medium wp-image-11284 alignleft" style="border: 0pt none;margin: 5px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2011/06/luci-collin-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" /></a>Nascida em Curitiba, Luci Collin é mil em uma só: professora de Literatura na UFPR, graduada em Piano, Letras e Percussão, doutora em Letras pela USP. Já escreveu livros de poesia (<em>Estarrecer</em> (1984), <em>Espelhar</em> (1991), <em>Esvazio</em> (1991), <em>Ondas e Azuis</em> (1992), <em>Poesia Reunida</em> (1996), <em>Todo Implícito</em> (1998)) e de contos (<em>Lição Invisível</em> (1997), <em>Precioso Impreciso</em> (2001), <em>Inescritos</em> (2004), Acasos Pensados (2008) e Vozes num Divertimento (2008)). Também já traduziu obras como <em>Re-habitar: ensaios e poemas</em>, de Gary Snyder (Azougue, 2005), <em>Etnopoesia no milênio</em>, de Jerome Rothenberg (Azougue, 2006) e <em>Contos irlandeses do início do século XX</em> (Travessa dos Editores, 2007).É tanta coisa que é certo que esse breve parágrafo não apresenta tudo o que ela já produziu &#8211; e aguardem que tem um romance chegando por aí em breve!</p>
<p style="text-align: justify">E com isso fica claro que Luci Collin respira Literatura, o que reflete em seu trabalho, que somado ao senso de humor e sensibilidade ímpares, faz com que qualquer aluno que diz &#8220;odiar literatura&#8221; se apaixone em poucas horas. De Shakespeare à James Joyce, Luci conta histórias de contadores de histórias como ninguém. Ela topou responder nossas 10 perguntas e meia, que você pode conferir aqui.</p>
<p style="text-align: justify"><span id="more-11283"></span><strong>1. Você pesquisou sobre Gary Snyder, um poeta associado aos escritores da Geração Beat. Tendo em vista a controvérsia que existe acerca dos méritos literários dos beats, o que a Geração Beat representou para a Literatura, na sua opinião? E em relação a visão de mundo, crítica do sistema, atuação política, postura espiritual?</strong></p>
<p style="text-align: justify">Esta controvérsia é estéril, uma vez que é indiscutível a contribuição dos <em>beats</em> &#8211; em termos de estilo, temática e técnica &#8211; para a literatura. A Geração Beat, e aqui incluímos a revolucionária ficção de Jack Kerouac, herdeiro imediato de um dos maiores nomes da literatura norte-americana que foi Mark Twain, e de William Burroughs, mestre de técnicas como o <em>cut-up</em>, e a revolucionária poesia de Allen Ginsberg, herdeiro imediato de Walt Whitman.  Só esta tríade bastaria para afirmar a importância literária do movimento beat, mas a ela ainda podemos acrescentar as contribuições de Kenneth Rexroth, Lawrence Ferlinghetti, Michael McClure,  Diane di Prima, Gregory Corso  e Gary Snyder, entre outros. O impacto da literatura beat &#8211;  uma literatura que conjugou e absorveu elementos também da música, do cinema e de outras artes -,  extrapola os limites da produção literária e envolve o intenso questionamento de âmbitos diversos  da nossa cultura: a repressão imposta pelo sistema capitalista, a sexualidade, o abuso do poder político, a escravidão perpetrada pelo materialismo e pelo consumo em detrimento de valores espirituais, o livre pensar; a proposição de uma contracultura pelos <em>beats</em> representa que a literatura é um meio vivo de expressão e não uma súmula teórica de regras literárias desconectadas do pulso contemporâneo. Se alguém tem dúvida dos méritos, literários e culturais,  da Geração Beat, atesta que, se leu seus autores, os compreendeu pouco e que perdeu uma grande oportunidade de convívio com a expressão humana em um de seus momentos mais fulgurantes. Leiam os <em>beats</em>, os que duvidam deles.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>2. </strong><strong>Gary Snyder não ganhou a notoriedade que ganharam Burroughs, Kerouac ou Ginsberg, por  exemplo. Algum motivo especial para isso? O que estamos perdendo por não conhecermos mais sobre esse literato?</strong></p>
<p style="text-align: justify">Com o poema “A Berry Feast” Snyder participou da famosa leitura de poemas na Six Gallery, em São Francisco no dia 07 de outubro de 1955. Este evento projetou a produção daqueles poetas em um   âmbito nacional e “Howl”, por exemplo, poema lido por Ginsberg naquela noite, tornou-se imediatamente o “hino” da contracultura. Mas, deliberadamente, Snyder saiu deste cenário em que se evidenciava a Geração Beat e foi, no mesmo ano, para o Japão, a fim de aprofundar seus estudos de japonês e a prática do zen budismo. Ficou anos no Japão e só se estabeleceria em definitivo novamente nos EUA no início da década de 1970. Isso gerou um desligamento de seu nome de toda a propaganda e atenção que a Geração Beat recebeu da mídia e da crítica. Com mais de trinta livros publicados, Snyder é hoje um nome reconhecido no mundo todo. Poeta, ensaísta, tradutor do chinês antigo e do japonês, antropólogo e ativista ambiental, vencedor do Pulitzer Prize, Snyder se afirmou como um dos maiores nomes da poesia e da ensaística norte-americana pos-moderna. Com base no pensamento oriental e na natureza Snyder renova a tradição poética desde Whitman passando por Pound e Rexroth; seu livro <em>Myths and Texts</em>, que resgata valores ancestrais e xamânicos da cultura ameríndia,  foi considerado pela crítica o sucessor direto do <em>The Waste Land</em> de T. S. Eliot – isso bastaria para evidenciar a importância do nome deste poeta na cena literária de hoje.</p>
<p style="text-align: justify"><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify"><strong>3. </strong><strong>Em outra entrevista afirmou que daria o Nobel para Gertrude Stein, se possível fosse, poderia comentar mais sobre seus motivos para tal escolha?</strong></p>
<p style="text-align: justify">Gertrude Stein, embora injustamente abafada da história do Modernismo, foi uma das vozes mais revolucionárias da literatura do século 20. Basta analisar os textos que a escritora produziu <strong>no início do século </strong>(e não na década de 1920, como outros modernistas de renome), e salta aos olhos a grande inventividade de Stein, a proposta revolucionária de seus conceitos literários, e a habilidade excepcional com que aplica estes conceitos à sua literatura. A justificativa para o apagamento do nome de Gertrude Stein pela crítica literária é que, em um momento de produção artística eminentemente masculina (Robert Scholes está entre os que afirmam que o Modernismo é um “movimento feito por homens”) ela desafia todas as convenções possíveis, não só as literárias: é mulher, judia, expatriada, homossexual e experimentalista radical  - que se recusa a explicar seus procedimentos estéticos, ou seja, pronta para ser invisível  aos olhos da crítica que acha mais fácil descartá-la do que compreendê-la. Quem leu com atenção o romance de Stein <em>The Making of Americans: Being a History of a Family&#8217;s Progress<strong>, </strong></em>escrito de 1903 a 1911? Até o início da década de 1930, apenas William Carlos Williams percebe e aponta, com consistência, a importância de Stein. Vale lembrar que a escritora publicou com excelência nos três gêneros literários  e que operou uma revolução não só na ficção como também na poesia e na dramaturgia; criou conceitos como o “presente contínuo” e a “insistência”, desenvolveu o cubismo na literatura e a noção de retrato literário mas, diferentemente de James Joyce e de T. S. Eliot, por exemplo, não explicou suas próprias composições, acreditando que este seria o papel natural da crítica. Pagou um alto preço por isto. Infelizmente, dada a incapacidade desta crítica e de boa parte dos leitores – ainda agarrados a conceitos de realismo e linearidade – Stein foi descartada e até ridicularizada como escritora hermética e menor.  Mas o tempo vem recuperando a relevância do nome de Stein e cada vez mais se descobre a extraordinária qualidade da obra desta autora, inclusive aqui no Brasil.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>4. </strong><strong>Gertrude Stein foi uma das pessoas responsáveis por fazer o termo &#8220;Geração Perdida&#8221; ser usado mais amplamente para designar a geração de escritores como Fitzgerald, Hemingway, T.S. Eliot entre outros. Qual a relação dela para com esses escritores? E de que forma os temas caros a essa geração se instilam na obra dela?</strong></p>
<p style="text-align: justify">Stein foi uma grande mentora intelectual de toda uma geração de artistas, não só de  escritores, mas de vários músicos, bailarinos, fotógrafos e artistas plásticos. Sua coleção particular de objetos de arte &#8211; não só da produção pré-moderna (como a de Paul Cézanne) e moderna (como de Picasso e Matisse), mas também com grande acervo de arte chinesa e japonesa -, exibida livremente nas paredes de seu famoso <em>salon,</em> em Paris, e as reuniões semanais que ela organizava em sua própria casa para que ali se discutisse arte e estética, influenciaram toda uma geração de novos artistas.  Stein é a mistagoga de Ernest Hemingway, Thornton Wilder, Sherwood Anderson, Paul Bowles, Virgil Thomson, entre outros. Na primeira fase de sua produção – até o ano de 1933 – que é marcada pelo experimentalismo radical, não há como encontrar temas da “Geração Perdida”, expressão que ela mesma cunhou referindo-se aos escritores mais jovens, cuja literatura ela via florescer.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>5. </strong><strong>Falando sobre a obra de Louis-Ferdinand Céline, Mario Vargas Llosa afirmou recentemente  que &#8220;A Literatura não é edificante&#8221;. O que pensa sobre isso?</strong></p>
<p style="text-align: justify">Acredito que tenha se referido ao fato de que a literatura não tem obrigação nenhuma de ser  didática nem moralizante, de ensinar ou perpetuar valores ou sentimentos tidos como morais. O que deve ser é livre, sempre, e estética, sempre; deve evocar emoções profundas, experiências emocionais vigorosas e que conduzam a alguma reflexão, deve provocar alguma desestabilidade comovente que gere reflexão.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>6. </strong><strong> Para você, o que é melhor escrever, prosa ou poesia? Dos seus livros quais você acha que melhor representam sua produção literária?</strong></p>
<p style="text-align: justify">Da perspectiva da escritura, prosa e poesia acabam sendo complementares, em relação às sensações que suscitam ao escritor tanto no momento da composição  quanto depois, quando os leitores começam a dividir suas impressões conosco. Dos livros que escrevi, tem muito de mim no <em>Lição Invisível</em> (contos); e, espero, mais ainda no <em>Trato de silêncios</em> (poesia), inédito ainda.</p>
<p style="text-align: justify"><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify"><strong>7. Quais seus livros preferidos? E quais sugestões de leitura você faria para alguém que diz que não gosta de ler?</strong></p>
<p style="text-align: justify">Minha trajetória como leitora foi sempre muito aberta e, apesar de naturalmente ter freqüentado os clássicos, sem constrangimento de confessar isso, li muitos livros que chocariam os colegas acadêmicos e literatos por serem “literatura menor”. Não me arrependo, mas isto é a minha experiência apenas. Acredito que cada um vai construindo sua história como leitor. Há leituras que se fazem com o tempo – não basta dizer que ler <em>Os Sertões</em> é importante, que ler <em>Ulisses</em> é vital e você compra o livro e sai fruindo aquela literatura; há sempre o melhor momento para determinadas leituras. Eu sou uma leitora de trajetória  esdrúxula e sempre foi assim (não acredito muito em conselhos, regras ou gostos literários a serem impostos como os melhores). Para mim autores sempre fascinantes são  Eugéne Ionesco, Alain Robbe-Grillet, Osman Lins, Jorge de Lima e Samuel Beckett (além de Stein e Snyder, claro &#8211; tenho que ser pelo menos meio coerente&#8230;) entre outros. Para alguém que ainda não gosta de ler, busque algum livro que tematize algo de seu interesse; isso vai colocá-lo em franca conversa com o livro e com o autor. O prazer da leitura demanda atenção, liberdade e cumplicidade &#8211; dê ao livro a chance de, em algum momento, encantá-lo.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>8. </strong><strong>Você também é tradutora. Acredita que o tradutor é um traidor? O que vê de mais difícil na tarefa de traduzir uma obra?</strong></p>
<p style="text-align: justify">É bastante difícil falar de tradução no Brasil pois infelizmente ainda não temos uma tradição de crítica de tradução em nosso país; isto nos leva a uma série de implicações , sobretudo ditadas pelo parâmetro mercadológico, que exacerbam as dificuldades do fazer tradutório. Assim, neste cenário da prática da tradução, a noção de “traidor”, em grande medida, oscilará muito. Temos excelentes tradutores no Brasil, mas que, às vezes, sucumbem a condições tenebrosas impostas pelo mercado; assim, nem sempre o bom tradutor pode dar-se ao luxo de traduzir apenas o que lhe agrada. Mercado à parte, na minha experiência, os problemas de tradução podem variar muito, de autor para autor, e abarcam desde dificuldades ligadas especificamente à linguagem, ao gênero ou ao estilo do escritor até dificuldades culturais mais amplas, que requerem traduções de elementos culturais.  O mais difícil é lidar com a frustração de saber que às vezes o máximo possível (para aquele momento, talvez, mas que será publicado) é passar ao leitor uma pálida cópia do que o original nos apresenta. Mas traduzir – significando revelar ou possibilitar a existência de uma obra em outra língua – é sempre um ato compensador para o tradutor.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>9. </strong><strong>Quais são as expressões irlandesas mais difíceis de traduzir?</strong></p>
<p style="text-align: justify">Aquelas que não encontram correspondente imediato em português por pertencerem exclusivamente à cultura irlandesa, à sua história ou a contextos históricos e políticos mais antigos, da formação celta, por exemplo, com os quais o leitor brasileiro dificilmente estará familiarizado. Há muitos casos, na maioria palavras cujo sentido mais comum se perdeu ou se transformou na cultura irlandesa ou que estão ligadas ao idioma gaélico (irlandês). Frente a estas dificuldades, o tradutor deve contar com estratégias  e com muita criatividade.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>10. Entre escrever e traduzir, qual a sua preferência? Por quê?</strong></p>
<p style="text-align: justify">Embora estejam ligadas à produção escrita, aos desdobramentos da palavra, escrever e traduzir são atividades muito diferentes. Talvez tenham em comum a intenção de gerar comunicação, mas quando você produz seu próprio texto, há muito mais liberdade, você sabe quais os seus limites e intenções; na tradução, um bom tempo é passado até que você consiga vislumbrar qual o limite do texto a ser traduzido e, às vezes, por mais penoso que seja constatar isto, o tradutor não consegue se satisfazer com as soluções encontradas para determinados problemas de tradução. A leitura de um autor a ser traduzido deve ser muito cuidadosa,  o tradutor  deve se esforçar para se aproximar ao máximo do autor cuja obra apresentará em outro idioma. No aspecto lúdico, escrever e traduzir podem ser igualmente divertidos. No aspecto dramático também (rsrs).</p>
<p style="text-align: justify"><strong>1/2. Acasos pensados são&#8230;</strong> drops de caqui.</p>
<p style="text-align: justify"><em>A Equipe Meia Palavra agradece a atenção de Luci, que disponibilizou seu e-mail para quem quiser fazer mais perguntas: luci_collin@yahoo.com</em></p>
<p style="text-align: justify"><a href="http://meiapalavra.com.br/showthread.php?tid=7358" target="_blank">DISCUTA ESSA ENTREVISTA NO FORUM DO MEIA PALAVRA</a><em><br />
</em></p>
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		<title>Traduções por vir: Literatura Russa</title>
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		<pubDate>Wed, 18 May 2011 19:09:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tiago Pinheiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Traduções por vir]]></category>
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		<description><![CDATA[O objetivo dessas listas será o de apresentar algumas obras importantes que ainda não tem tradução para o português ou que, pelo menos, não tenham sido publicadas no Brasil. Desta primeira, dedicada aos russos ou aqueles que escrevem em russo, excluí alguns importantíssimos nomes, pelo simples fato de ter alguma notícia de que tais autores [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2011/05/literatura-russa.jpg"><img class="size-medium wp-image-10395 alignright" style="margin: 5px;border: 0px none" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2011/05/literatura-russa-215x300.jpg" alt="" width="215" height="300" /></a>O objetivo dessas listas será o de apresentar algumas obras importantes que ainda não tem tradução para o português ou que, pelo menos, não tenham sido publicadas no Brasil. Desta primeira, dedicada aos russos ou aqueles que escrevem em russo, excluí alguns importantíssimos nomes, pelo simples fato de ter alguma notícia de que tais autores estão em processo de tradução ou simplesmente esperando a publicação: os poemas do tchuvache Guénadi Aigui, talvez um dos poetas mais importantes do final do século XX (traduzidos por ninguém mais ninguém menos que Boris Schnaiderman), os contos de Nikolai Leskov e de Konstantin Paustovski (ambos traduzidos por prof. Noé Silva), as pequenas pérolas narrativas de Mikhail Zoschenko (por Denise Regina Sales), a poesia zaum do revolucionário Khlébnikov, grande companheiro de Maiakovski (pelo prof. Mario Ramos Francisco Júnior) e as novelas do abkhaziano Fazil Iskander, enorme contista e satirista (por Gabriela Soares da Silva).</p>
<p style="text-align: justify">Tenho esperança de escrever sobre esses autores individualmente, na medida em que forem sendo publicados. Aqui se trata de uma lista de sugestões, talvez não muito conhecidas por aqui&#8230; Até porque a literatura russa é ainda mais vasta que o seu século XIX! E mesmo lá tem coisas esquecidas&#8230; Vamos a nossa lista então:</p>
<p style="text-align: justify"><em><span id="more-10393"></span>História da cidade</em>, de Mikhail Saltykov-Shchedrin (1826-1889): um dos maiores satiristas russos do século XIX, talvez apenas atrás de Gógol. Esse livro é uma espécie de história russa vista a partir de uma província, Glupov (algo como “a cidade boba”, “a cidade ingênua”). A graça de Saltykov-Shchedrin reside, não só nos personagens absolutamente caricatos que ele cria, mas na própria fonte de suas paródias: segundo ele próprio, sua forma de escrever sátiras “derivava do pior jornalismo político de sua época, um misto de panfletismo com altas doses de verborragia e mesmo de vulgaridade”. Claro que havia um astucia em seu uso dessa material, inclusive devido às constantes ameaças de censura que ele sofreu. Ao fim, ele se considerava uma espécie de seguidor de Esopo, um escritor obrigado a lidar com uma espécie de “animália”.</p>
<p style="text-align: justify"><em>Chevengur</em>, de Andréi Platónov (1899-1951): um dos grandes nomes do gênero “utópico/distópico” não só na Rússia, mas na literatura mundial. Nessa obra, o Partido tenta fazer um telescópio temporal, isto é, tenta criar um modo de fazer o Comunismo triunfar em questão de semanas. Fragmentário, trabalhando o “tempo” na própria escrita,  o livro descreve a viagem dos operários até a vila de Chevengur, uma espécie de paraíso terrestre. Ao nunca descrever o que seria essa utopia, Platónov expõe uma das perguntas mais dolorosas do projeto socialista: os que hoje fazem a revolução poderão desfrutar desse outro modo de vida? Esse modo de vida é pensável hoje? Mais que mostrar uma “dispotia”, Platónov joga com as afetividades do leitor, que nunca sabe julgar aquilo que lhe é descrito como ideal (porque esse ideal também é desejável). O romance não deixa de criticar fortemente o regime, sua burocracia e sua crueldade, mas é muito mais perspicaz e ambíguo que a maioria dos romances (principalmente europeus) do gênero. Apesar de ser proibido durante quase todo o regime soviético, pouco autores exerceram tanta influência como Platónov nos autores desse período.</p>
<p style="text-align: justify"><em>Contos de Kolima</em>, de Varlam Shalamov (1907-1982): apesar da grande fama da obra de Soljenitsin pelo seu retrato da vida nas Gulags soviéticos, talvez esses pequenos relatos de Shalamov sejam muito mais potentes para relatar a miséria e as dores desses campos de concentração. E, sobretudo, o frio: o autor não cansa de descrever o frio siberiano, de como ele pede todo o pensamento. Ao contrário do tom quase jornalístico e “burocrático” de <em>Arquipélago Gulag</em>, <em>Contos de Kolima </em>traça um retrato mais próximo dos personagens e das próprias expectativas do povo soviético. São relatos muito curtos, mas muito incisivos (e poderíamos quase dizer, mais fiéis) desse buraco negro político.</p>
<p style="text-align: justify">“O Achado” e <em>Assassinando miragens </em>de Vladimir Tendryakov (1923-1984): escritor emblemático do “entre-tempos” soviético, isto é, começa a escrever no período de destalinização de Khrushchev (1955) e morre um ano antes da perestroika. Ou seja, é o autor emblemático do desencantamento com o projeto soviético, que ele irá colocar na forma das angústias morais vividas pelos seus personagens que serão, não à toa, homens ligados a polícia, como se seus contos fossem uma versão muito peculiar da narrativa policial, já que a culpa, a angústia, a incapacidade é que tomam lugar, sendo que o criminoso parece ser a própria história que não permitiu que um outro mundo viesse a existir. Em “O achado” é um comissário de polícia, absolutamente misantropo, que vai enfrentar a angústia de ter uma criança morta em suas mãos, sem que ninguém dê a mínima para ele. Já em “Assassinando miragens”, último livro do autor, que só pode ser publicado postumamente, um físico cria um programa de computador capaz de calcular o mecanismo da História, buscando um modo de “corrigir” a moral humana. Ao retirar a variável “Jesus Cristo” para ver  qual rumo os eventos do mundo teriam, ele é capaz de entrever uma solução&#8230;</p>
<p style="text-align: justify"><em>Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha e outros horríveis contos de fadas </em>de Lyudmila Petrushevskaia (1938-): talvez a escritora russa mais importante viva, grande aposta para ganhar o prêmio Nobel. Tem uma enorme produção, principalmente de contos muito curtos, nos quais utiliza uma linguagem seca, econômica, mas cheia de simbolismos, apelando para imaginários de inocência, como mostra o próprio título, no qual classifica seus textos como “contos de fadas” (nisso, talvez, resida uma espécie de parentesco entre ela e o escritor alemão Günter Grass), para denunciar a certa caducidade da sociedade russa soviética e pós-soviética. Possui um grande humor negro e um amplo espectro de personagens deformados, obesos, depressivos, decadentes, paranóicos, como no conto em que um doente terminal não consegue dormir por causa das “paredes finas” do hospital, que permitem ouvir médicos e pacientes gemendo (de prazer) a noite toda&#8230;</p>
<p style="text-align: justify"><em>A Banha azul </em>de Vladimir Sorkin (1955-): escritor da geração da perestroika, um dos mais famosos e mais peculiares, chamado de “o Sade russo”. Essa bizarra ficção científica trata de um grupo de cientista que em 2068 revive os maiores escritores do século XIX e XX – Dostoievski, Tolstoi, Tchékov, Nabokov e companhia – para que eles produzam, enquanto escrevem, um combustível que permitirá que a colonização do espaço sideral pelos russos, o tal da “banha azul” (e não sangue azul&#8230;). Não bastasse isso, a tal substancia também pode ser usada como uma droga&#8230; Com a hegemonia da China no cenário mundial, o governo russo decide criar uma máquina do tempo para enviar essa tecnologia para 1954, com o objetivo de mudar a história do mundo&#8230; Nisso, Berya, Stálin e Kruschev, maravilhados com o poder da droga, revolvem criar um Gulag do Amor, cheio de bacanais entre escritores (a Anna Akhmátova, a “poetisa pura” é retratada como uma vagabunda, Stálin e Khrushchev viram um casal feliz&#8230;). Cada capítulo do livro é escrito por um autor e Sorkin falsifica o “estilo” de cada um deles&#8230; Não é preciso dizer que esse livro foi banido por muito tempo da Rússia, e Sorkin foi indiciado por “pornografia”&#8230; E olha que ele foi escrito nos anos 1990&#8230;</p>
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		<title>10 Perguntas e Meia para Ivo Barroso</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Mar 2011 14:52:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lucas Deschain</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ivo Barroso nasceu em Ervália, MG, em 1929. É um amante da Literatura desde a mais tenra idade, foi aluno da Faculdade Nacional de Filosofia no Rio de Janeiro, e tendo escolhida voltar-se às Letras, logo passou a traduzir poesia, contribuindo com suplementos e revistas da época. Foi encarregado pelos trabalhos da Coleção dos Prêmios [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><strong><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2011/03/Ivo.Barroso.jpg"><img class="size-full wp-image-7683 aligncenter" style="margin-top: 5px;margin-bottom: 5px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2011/03/Ivo.Barroso.jpg" alt="" width="350" height="263" /></a>Ivo Barroso</strong> nasceu em Ervália, MG, em 1929. É um amante da Literatura desde a mais tenra idade, foi aluno da Faculdade Nacional de Filosofia no Rio de Janeiro, e tendo escolhida voltar-se às Letras, logo passou a traduzir poesia, contribuindo com suplementos e revistas da época. Foi encarregado pelos trabalhos da <em>Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura</em>, ajudou Houaiss na <em>Grande Enciclopédia Delta-Larousse</em> e Carlos Lacerda na E<em>nciclopédia Século XX</em>. Ganhou diversos prêmios por suas traduções inclusive o Prêmio Jabuti pela tradução de <em>O Livro dos Gatos</em>, de T.S. Eliot, e o Prêmio da Academia Brasileira de Letras, pelos esforços tradutórios em <em>Teatro Completo</em>, também de T.S. Eliot e Seu notável trabalho com a tradução inclui Shakespeare, Rimbaud, Eliot, Hesse, Calvino, Kazantzakis, Eco, Svevo e diversos outros. Além disso, pode ser encontrado no <a href="http://gavetadoivo.wordpress.com/" target="_self">Gaveta do Ivo</a>, seu blog.<span id="more-7682"></span></p>
<p style="text-align: justify"><strong>01. Como a tradução chegou para você? Através da escrita, do amor a literatura, por necessidades financeiras&#8230;</strong></p>
<p style="text-align: justify">Creio que pela curiosidade. Antes mesmo de ter conhecimentos linguísticos já tentava adivinham o sentido de palavras estrangeiras, um pouco assim como quem resolve enigmas ou mata palavras cruzadas. Mais tarde, já engatinhando em dois ou três idiomas, passava horas catando as palavras em precários dicionários de bolso que frustravam boa parte das minhas ilusões.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>02. Quais as armadilhas e as benesses da tradução da poesia? Ser poeta ajuda a traduzir poesia?</strong></p>
<p style="text-align: justify">Não posso imaginar um tradutor de poesia que não seja poeta. Poemas traduzidos em prosa deixam de ser poemas. Na tradução, em geral, as armadilhas são muitas e, em poesia, a principal é a frustração de nunca se alcançar a reprodução da totalidade do poema. Quanto às benesses, agrada-nos às vezes produzir um belo verso que poderia ser nosso.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>03. O que representa para você de ter seu nome associado com gigantes da literatura como T.S. Eliot, Hermann Hesse, André Malraux, Arthur Rimbaud?<br />
</strong><br />
Uma grande responsabilidade e muito exercício de estilo para não frustrar o leitor.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>04. No blog <a href="http://lendowalden.blogspot.com/" target="_self">LendoWalden</a>, Denise Bottmann tem mostrado como o processo de tradução mergulha fundo no universo do autor, tanto em relação ao contexto histórico como quanto a língua estrangeira bem como referências, informações biográficas, idiossincrasias etc. Que tipo de informações costuma levar em conta ao traduzir?</strong></p>
<p style="text-align: justify">Como em geral só traduzo livros propostos por mim, fica implícita desde logo uma certa familiaridade com a(s) obra(s) do autor, inclusive com sua época, seus contemporâneos e sua biografia.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>05. No que a tradução mudou sua experiência de leitor? Alguma tradução o fez mudar de idéia em relação a algum autor ou obra?</strong></p>
<p style="text-align: justify">De idéia em relação a um autor, não; mas houve  uma que me fez mudar de vida. Quando li, primeiro em espanhol, o <em>Demian</em>, de Hermann Hesse, determinei-me a traduzi-lo para que outros, como eu, pudessem se beneficiar com minha experiência – o livro me ajudara a libertar-me (em grande parte) de uma timidez obsessiva, que me incapacitava  inclusive  para a literatura.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>06. Quando o ato de trazer ao vernáculo se torna uma arte?</strong></p>
<p style="text-align: justify">Quando o tradutor consegue transpor o que está dito da maneira em que foi dito, ou seja, reproduzir integralmente o estilo do autor.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>07. O que pensa sobre a discrepância encontrada entre obras traduzidas e obras de escritores nacionais no mercado editorial brasileiro? Isso é um problema ou apenas questão de proporionalidade?</strong></p>
<p style="text-align: justify">Em geral as obras traduzidas são <em>bestsellers</em> já consagrados em outros países e adquiridos por nossos editores já com essa garantia de vendas; daí o número de traduções superar grandemente o das obras produzidas no país, as quais, salvo algumas exceções, são sempre uma incógnita de vendagem. Observe que não me refiro à qualidade.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>08. Das &#8220;tendências&#8221; literárias atuais: qual sua opinião? A Internet é mocinha, vilã ou algo não tão dicotômico assim?</strong></p>
<p style="text-align: justify">A Internet é uma ferramenta que pode ser muito útil e estimular inclusive, através da pesquisa (que é o seu forte), a leitura do livro-objeto. Mas acho ocioso pensar-se que ela será capaz de acabar com o livro, ou algo assim.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>09. Das traduções que tem no currículo, alguma pela qual tem algum apreço ou orgulho em especial? Alguma tradução na qual gostaria de ter seu nome?</strong></p>
<p style="text-align: justify">A tradução em que, por necessidade do próprio texto, mais tive que interferir, numa espécie de criatividade paralela, foi <em>Os Gatos</em> (Old Possum´s Book of Practical Cats) de T. S. Eliot. A que me deu mais trabalho foi  <em>A Vida, modo de usar</em>, de Georges Perec. E a de que mais gosto são os (agora 50) Sonetos, de William Shakespeare.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>10. Você foi escolhido como um dos responsáveis pelas traduções das obras da Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura, o que pensa que o Nobel representa para a Literatura Contemporânea? E sobre os últimos laureados, algum comentário? Apostas para 2011?</strong></p>
<p style="text-align: justify">Representa, antes de mais nada, uma grande divulgação; o laureado passa a ser um escritor internacional, o que sem dúvida despertará a curiosidade dos leitores. Não entro na questão dos méritos, pois eu próprio tive algumas decepções. Quando morava na Suécia, fiz tentativas de promover a obra de Drummond junto à Academia Sueca, mas a grande frustração foi que ele morreu no ano em que teria sua maior chance de ser o escolhido.</p>
<p style="text-align: justify"><strong>1/2 &#8211; Entre a prosa e a poesia&#8230;</strong> Fico com ambas.</p>
<p style="text-align: justify"><em>(A equipe Meia Palavra agradece a atenção e cordialidade de Ivo Barroso)</em></p>
<p style="text-align: justify"><a href="http://www.meiapalavra.com.br/showthread.php?tid=6596">COMENTE ESSE ARTIGO NO FÓRUM MEIA PALAVRA</a></p>
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		<title>Salinger &#8211; Um Título &#8211; Parte II</title>
		<link>http://blog.meiapalavra.com.br/2010/12/18/salinger-um-titulo-parte-ii/</link>
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		<pubDate>Sat, 18 Dec 2010 11:29:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Colaborador Meia Palavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Línguas&Tradução]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[J. D. Salinger]]></category>
		<category><![CDATA[Jorio Dauster]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Estrangeira]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Norte-Americana]]></category>
		<category><![CDATA[O Apanhador no Campo de Centeio]]></category>
		<category><![CDATA[Tradução]]></category>

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		<description><![CDATA[Perdeu a primeira parte? Você pode encontrá-la aqui. Voltando ao nosso drama lingüístico, fizemos longas listas de títulos alternativos até encontrarmos A sentinela do abismo, em que respeitávamos tanto o contexto quanto o conceito. Heureca! Que nada, a alegria durou pouco. Da agente literária de Salinger veio a ordem ríspida: ou se vertia o título [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2010/12/J.D.Salinger.jpeg"><img class="size-full wp-image-5390 alignright" style="border: 0pt none; margin: 5px;" title="J.D.Salinger" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2010/12/J.D.Salinger.jpeg" alt="" width="200" height="277" /></a>Perdeu a primeira parte? Você pode encontrá-la <a href="http://meiapalavra.mtv.uol.com.br/2010/12/17/salinger-um-titulo-parte-i/" target="_self">aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltando ao nosso drama lingüístico, fizemos longas listas de títulos alternativos até encontrarmos <em>A sentinela do abismo</em>, em que respeitávamos tanto o contexto quanto o conceito. Heureca! Que nada, a alegria durou pouco. Da agente literária de Salinger veio a ordem ríspida: ou se vertia o título literalmente ou era suspensa a venda dos direitos de tradução. Ordens do autor. Em vão tentei explicar por carta que a expressão era virtualmente ininteligível no vernáculo. Aproveitando uma ida a Nova York, obtive a graça de uma entrevista com a agente, pois já então era de todo impossível comunicar-se com o próprio eremita de New Hampshire. Nenhuma chance de revisão da sentença, porém ao menos fiquei sabendo que Salinger entrara em órbita ao tomar conhecimento de certas versões dadas ao título que lhe devera ter custado imensas dores de parto.</p>
<p style="text-align: justify;">Com base em três delas que vim a conhecer mais tarde, passei a dar toda a razão ao autor. Senão vejamos.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-5389"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Em espanhol, saíram-se com <em>El cazador oculto</em>, obviamente por conta da menção a um campo e ao fato de que o Holden adulto nele estaria escondido para não comprometer a espontaneidade das crianças ao brincarem. Mas que extraordinário exemplo de insensibilidade do tradutor ao não perceber o quanto a idéia de caçada e de morte era antagônica à mensagem que o título buscava transmitir!</p>
<p style="text-align: justify;">O francês nos brindou com <em>L’attrape-coeurs</em>, que corresponderia em português a um abominável Pega-corações. No entanto, quando a língua de Racine já tem consagradas as expressões attrape-mouches (pega-moscas) e attrape-nigaud (prima-irmã de nossa “pegadinha”), dá para questionar a qualidade da versão gaulesa independentemente de sua dose excessiva de açúcar.</p>
<p style="text-align: justify;">E, por fim, a mais notável, inclusive por demonstrar a desistência do tradutor português – recurso ao menos rechaçado pelos coleguinhas de Espanha e França – de extrair o título da rica contextura em que o original o situara. Pois bem, o ilustre sr. João Palma-Ferreira tascou <em>Uma agulha no palheiro</em> (na melhor tradição do conterrâneo que batizou o “Psycho” hitchcockiano de “O filho que era a mãe”)! Todavia, desconfiando de que não havia mesmo nenhuma relação entre o fundilho das calças e o orifício por elas protegido, ofereceu à posteridade uma Advertência cujo sabor só pode ser apreciado mediante sua reprodução integral: “O título português do romance de J.D.Salinger <em>Uma Agulha no Palheiro</em> foi especialmente escolhido tendo em atenção a singularidade expressiva desta frase comum portuguesa (sic) e não corresponde à nem pretende ser a tradução do título original norte-americano:<em> The Catcher in the Rye</em>, para o qual foi sempre difícil encontrar uma forma suficientemente alusiva e gramaticalmente correcta em todas as que ocorreram ao tradutor. Supõe-se, pois, que, sem fugir ao que o escritor pretendeu (sic), o título da edição portuguesa marcará incisivamente o espírito deste livro admirável.”</p>
<p style="text-align: justify;">Seja como for, ao fim e ao cabo a edição brasileira estampou a tradução literal, ainda que amenizada por breve nota onde se lia: “Os três jovens diplomatas brasileiros que fizeram a presente tradução escolheram o título <em>A Sentinela do Abismo</em>. O Autor preferiu, entretanto, o título <em>O Apanhador no Campo de Centeio</em>.” O que, pelo jeito, não atrapalhou em nada, se é que não serviu para tornar ainda mais indelével a marca do livro na memória do leitor. As vendas continuam firmes, ano após ano, mesmo depois que o tresloucado assassino de John Lennon foi apanhado com um exemplar da obra. Que aqui no Brasil passou a ser carinhosamente chamada de Apanhador.</p>
<p style="text-align: justify;">E você, já leu o Apanhador?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Jorio Dauster </strong>foi presidente da Vale do Rio Doce e  embaixador do Brasil junto à União Européia, é tradutor, responsável  pela transposição ao vernáculo obras como <em>Lolita</em> de Nabokov, <em>O Apanhador no Campo de Centeio</em>, de Salinger, entre outros nomes como Alberto Manguel, Philip Roth, Thomas Pynchon e Ian McEwan.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.meiapalavra.com.br/showthread.php?tid=498" target="_self">COMENTE ESSE ARTIGO NO FÓRUM MEIA PALAVRA</a><br />
﻿</p>
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