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	<title>Meia Palavra&#187; Poema</title>
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		<title>Emily Dickinson</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Sep 2008 19:18:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Anica</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Emily Dickinson]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Estrangeira]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2008/09/emily-dickinson.gif"><img class="size-medium wp-image-170 alignright" style="border: 0pt none;margin: 5px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/uploads/2008/09/emily-dickinson-230x300.gif" alt="Emily Dickinson" width="230" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify">No Brasil a poesia dessa norte-americana nascida em 1830 é pouco conhecida &#8211; pelo menos para aqueles que não circulam com muita freqüência nas praias da poesia gringa. O que não deixa de ser uma pena, visto que tanto a escritora quanto os escritos são interessantíssimos. Ironia das ironias, enquanto a primeira é de uma complexidade de deixar biógrafos de cabelo em pé, a segunda é de tal simplicidade que talvez seja uma das razões pelas quais os trabalhos dela não são tão famosos quanto de outros poetas de língua inglesa.</p>
<p style="text-align: justify">Em vida, pouco de seus poemas foram publicados. Dickinson na realidade só fez uma tentativa com quatro poesias, mas foi aconselhada pelo editor da Atlantic Monthly, Thomas Wentworth Higginson, a não publicá-los, pois seu estilo de escrita não era &#8220;comercial&#8221;. Apenas após a morte da poeta que sua irmã, Lavinia, ao encontrar diversos de seus trabalhos, resolveu publicá-los. São mais de 1.800 poemas escritos durante o período em que viveu em Homestead.</p>
<p style="text-align: justify"><span id="more-169"></span></p>
<p style="text-align: justify">Desses escritos, a maior parte lida com temas como a morte, a vida e a natureza &#8211; mas de um jeito bastante leve, simples. O que a diferencia é o estilo, que apresenta um ritmo diferente e a presença constante de travessões. Curioso é o fato de que as primeiras edições de poemas de Dickinson deixavam de lado o que seria considerado &#8216;extravagâncias&#8217; da escritora, sendo que apenas edições mais modernas trazem os recursos estilísticos originais. Por exemplo, &#8220;How happy is the little stone&#8230;&#8221;, foi escrito assim:</p>
<blockquote><p>How happy is<br />
the little Stone<br />
That rambles<br />
in the Road<br />
alone,<br />
And doesn&#8217;t<br />
care about<br />
Careers<br />
And Exigencies<br />
never fears –<br />
Whose Coat<br />
of elemental Brown<br />
A passing<br />
Universe put on,<br />
And independent<br />
as the Sun<br />
Associates<br />
or glows alone,<br />
Fulfilling absolute<br />
Decree<br />
In casual<br />
simplicity –</p></blockquote>
<p>Mas foi publicado inicialmente assim:</p>
<blockquote><p>How happy is the little stone<br />
That rambles in the road alone,<br />
And doesn&#8217;t care about careers<br />
And exigencies never fears —<br />
Whose coat of elemental brown<br />
A passing universe put on;<br />
And independent as the sun,<br />
Associates or glows alone,<br />
Fulfilling absolute decree<br />
In casual simplicity.</p></blockquote>
<p style="text-align: justify">Desnecessário entrar na discussão dos males que esse tipo de &#8220;edição&#8221; pode causar aos trabalhos daqueles que estudam Dickinson, mas de certa forma há de se considerar se atualmente teríamos acesso fácil aos poemas se eles não tivessem aparecido inicialmente na forma &#8220;comercial&#8221; &#8211; embora também há de se questionar a intenção de Dickinson de ser lida, visto que com tantos escritos ela tenha tentado publicar poucos.</p>
<p style="text-align: justify">Com isso, chegamos novamente à complexidade da autora, o que de certa forma acaba influenciando muito a leitura de sua obra. Aos 20 anos Dickinson passou a se vestir apenas de branco, e decidiu não mais sair de casa. Recebia os amigos (poucos) em uma sala separada por uma tela, e ninguém além de sua mãe ou irmã podiam vê-la. Além da fama de &#8220;esquisita&#8221; local, essa reclusão também deu margem a vários debates sobre quais seriam as condições que levaram a poeta a se &#8220;esconder&#8221;, sendo a mais aceita uma doença (embora não se saiba qual).</p>
<p style="text-align: justify">Mas, mais do que isso, talvez o fator mais importante dessa peculiaridade da escritora sejam os poemas como por exemplo &#8220;I&#8217;m nobody! Who are you?&#8221;:</p>
<blockquote><p>I&#8217;m nobody! Who are you?<br />
Are you nobody, too?<br />
Then there&#8217;s a pair of us — don&#8217;t tell!<br />
They&#8217;d banish us, you know.<br />
How dreary to be somebody!<br />
How public, like a frog<br />
To tell your name the livelong day<br />
To an admiring bog!</p></blockquote>
<p style="text-align: justify">Para quem ficou interessado no trabalho dessa brilhante poeta e estão com o inglês em dia, não deixem de comprar a edição da Barnes &amp; Nobles, que está custando apenas <a href="http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/produto.dll/detalhe?pro_id=241027&amp;ID=C95601EA7D809070836080938">11 reais na Saraiva</a> (não se deixe enganar pelo preço, é um livro importado com mais de 300 páginas e ótimos artigos sobre Dickinson).</p>
<p><a href="http://www.meiapalavra.com.br/showthread.php?tid=1341"><strong>Comente esse post no Fórum Meia Palavra.</strong></a></p>
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		<title>Anatomia da poesia: One Art</title>
		<link>http://blog.meiapalavra.com.br/2008/04/27/anatomia-da-poesia-one-art/</link>
		<comments>http://blog.meiapalavra.com.br/2008/04/27/anatomia-da-poesia-one-art/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 27 Apr 2008 17:08:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Anica</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Elizabeth Bishop]]></category>
		<category><![CDATA[Poema]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Pode parecer estranho estabelecer uma relação entre criaturas feitas de carne e osso com outras feitas de palavras e idéias, mas o fato é que poesia é, de certa forma, um ser vivo. Tão vivo que depois de criada parece que ganha pernas e sai por aí, para todo o sempre (ou pelo menos enquanto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2010/07/elizabeth-bishop1.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-2811" style="border: 0pt none;margin: 5px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2010/07/elizabeth-bishop1.jpg" alt="" width="144" height="176" /></a>Pode parecer estranho estabelecer uma relação entre criaturas feitas de carne e osso com outras feitas de palavras e idéias, mas o fato é que poesia é, de certa forma, um ser vivo. Tão vivo que depois de criada parece que ganha pernas e sai por aí, para todo o sempre (ou pelo menos enquanto a última cópia não sumir). É levando em consideração essa idéia que começo hoje a série &#8220;Anatomia da poesia&#8221;, que procura indicar os <em>órgãos vitais</em> de alguns poemas, visando estudá-los de uma forma um pouco mais divertida do que é feito em sala de aula.</p>
<p style="text-align: justify">E, para começar, coloco sob observação a brilhante poeta norte-americana, Elizabeth Bishop. O charme na poesia de Bishop vai além do domínio sobre as palavras: embora escreva na língua inglesa, tem muito do Brasil em suas obras &#8211; ou pelo menos das paisagens que ela viu enquanto por aqui passou. Vejamos então o que <em>One Art </em>pode nos oferecer.</p>
<p style="text-align: justify"><span id="more-51"></span></p>
<p style="text-align: justify">Para começar, uma leitura completa do poema:</p>
<blockquote><p><strong>One Art</strong><br />
The art of losing isn&#8217;t hard to master;<br />
so many things seem filled with the intent<br />
to be lost that their loss is no disaster.<br />
Lose something every day. Accept the fluster<br />
of lost door keys, the hour badly spent.<br />
The art of losing isn&#8217;t hard to master.<br />
Then practice losing farther, losing faster:<br />
places, and names, and where it was you meant<br />
to travel. None of these will bring disaster.<br />
I lost my mother&#8217;s watch. And look! my last, or<br />
next-to-last, of three loved houses went.<br />
The art of losing isn&#8217;t hard to master.<br />
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,<br />
some realms I owned, two rivers, a continent.<br />
I miss them, but it wasn&#8217;t a disaster.<br />
-Even losing you (the joking voice, a gesture<br />
I love) I shan&#8217;t have lied. It&#8217;s evident<br />
the art of losing&#8217;s not too hard to master<br />
though it may look like (Write it!) like disaster.</p></blockquote>
<p>***</p>
<p>Tradução de Paulo Henriques Britto</p>
<blockquote><p>“A arte de perder não é nenhum mistério;<br />
Tantas coisas contêm em si o acidente<br />
De perdê-las, que perder não é nada sério.<br />
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,<br />
A chave perdida, a hora gasta bestamente.<br />
A arte de perder não é nenhum mistério.<br />
Depois perca mais rápido, com mais critério:<br />
Lugares, nomes, a escala subseqüente<br />
Da viagem não feita. Nada disso é sério.<br />
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero<br />
Lembrar a perda de três casas excelentes.<br />
A arte de perder não é nenhum mistério.<br />
Perdi duas cidades lindas. E um império<br />
Que era meu, dois rios, e mais um continente.<br />
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.<br />
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente<br />
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério. “</p></blockquote>
<p style="text-align: justify">Agora à análise!</p>
<p style="text-align: justify"><strong>Cérebro</strong>: Assim como na língua portuguesa temos bastante poemas escritos em formas fixas (tal como haicai, soneto e balada), na poesia em inglês também podemos encontrar obras que seguem um padrão pré-estabelecido para números de estrofes, posicionamento de rimas, etc.</p>
<p style="text-align: justify">No caso de <em>One Art</em>, temos um bom exemplo de uma forma fixa conhecida como &#8220;villanelle&#8221;, que apresenta 19 versos distribuídos em 5 tercetos (estrofes de três versos) e 1 quadra (estrofe de quatro versos). Lembra, de certa forma, uma canção, até por apresentar dois refrões que se repetem alternadamente.</p>
<p style="text-align: justify">Na poesia de Bishop as idéias que se repetem são a de que a perda não é um desastre e que dominar a arte de perder não é difícil. Durante os cinco tercetos a poeta intercala o refrão com exemplos de perdas, das mais banais (chaves, relógios, nomes) para outras maiores (cidades, impérios, continentes).</p>
<p style="text-align: justify"><strong>Coração</strong>: Embora siga uma forma fixa, o que torna o processo de criação mais complexo já que não trata-se mais de dizer algo, mas também de respeitar as regras do &#8220;como dizer&#8221;, ainda assim <em>One Art</em> não é um poema frio: ele é todo sentimento, quente, e tão pessoal que, contraditoriamente, torna-se universal. Ao falar de suas próprias perdas, Elizabeth Bishop cria um vínculo com o leitor que se identificará com a idéia central.</p>
<p style="text-align: justify">Uma das formas de capturar o leitor é quando, no final, ao usar a expressão &#8220;<em>Write it!</em>&#8220;, ela deixa claro que está conversando com ele. Como em uma entrevista, ou conversa entre o sábio e o aprendiz. E é na conclusão do poema (a quadra) que toda a ironia e a paixão do discurso explodem ao mesmo tempo, com a utilização de uma única expressão.</p>
<p style="text-align: justify">Bishop salta de &#8220;The art of losing isn&#8217;t hard to master.&#8221; para um &#8220;The art of losing isn&#8217;t <strong>TOO</strong> hard to master.&#8221; A expressão &#8220;too&#8221;, que no inglês quando posicionado na frente do adjetivo indica algo que é mais do que você gostaria, deixa evidente que apesar do que disse anteriormente, quando o assunto é a perda da pessoa amada, as coisas mudam e a idéia de perda já não é mais tão simples quanto como quando tratava-se de coisas e lugares.</p>
<p style="text-align: justify">Aqui cabe uma curiosidade: nos rascunhos de Bishop para o poema, a conclusão de <em>One Art</em> fica muito mais explícita, como é possível ler nesse trecho:</p>
<blockquote><p>All that I write is false, it&#8217;s evident<br />
The art of losing isn&#8217;t hard to master.<br />
oh no.<br />
anything at all anything but one&#8217;s love. (Say it: disaster.)</p>
<p>Tradução livre:<br />
Tudo o que escrevi é mentira, é evidente<br />
A arte da perda não é dificil de dominar<br />
oh não<br />
qualquer coisa, qualquer coisa exceto o amor de alguém.<sup><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/2008/04/27/anatomia-da-poesia-one-art/#footnote_0_51" id="identifier_0_51" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="Mais sobre os rascunhos pode ser encontrado neste site: The Drafts of &amp;#8220;One Art&amp;#8221;, em ingl&ecirc;s">1</a></sup></p></blockquote>
<p style="text-align: justify"><strong>Estômago</strong>: E quem é essa pessoa? Apesar de ser bastante contrária às leituras biográficas, para alguns poemas é simplesmente impossível não estabelecer uma relação entre vida e obra. <em>One Art</em> é quase uma biografia em versos. Como dito anteriormente, o Brasil é peça importante na vida da poeta, visto que ela passou mais de quinze anos por aqui.</p>
<p style="text-align: justify">Bishop fazia uma espécie de cruzeiro e resolveu desembarcar em Santos. Depois disso, foi para o Rio e lá reencontrou Lota (Maria Carlota de Macedo Soares, uma importante arquiteta carioca), ficando sob os cuidados da amiga brasileira por causa de uma reação alérgica a um pedaço de caju. Dos cuidados nasceu a paixão, e elas passaram a morar juntas em Petrópolis e depois em Ouro Preto (&#8220;I lost two cities, lovely ones.&#8221;), tranformando o lar em ponto de encontro dos intelectuais da época (&#8220;some realms I owned&#8221;).</p>
<p style="text-align: justify">Lota e Bishop romperam por volta de 1965, e a poeta voltou à terra natal para dar aulas na universidade. Um ano depois, recebe a visita de Lota, que acaba tomando um vidro de valium e se suicida. Quase dez anos depois, Bishop nos presenteia com <em>One Art</em>.</p>
<p><a href="http://www.meiapalavra.com.br/showthread.php?tid=1303"><strong>Comente esse artigo no Fórum Meia Palavra.</strong></a></p>
<ol class="footnotes"><li id="footnote_0_51" class="footnote">Mais sobre os rascunhos pode ser encontrado neste site: <a href="http://www.english.uiuc.edu/maps/poets/a_f/bishop/drafts.htm">The Drafts of &#8220;One Art&#8221;</a>, em inglês</li></ol>]]></content:encoded>
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