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	<title>Meia Palavra&#187; Literatura Paranaense</title>
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		<title>Mirinha (Dalton Trevisan)</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Jan 2012 16:00:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tiago Pinheiro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um livro novo de Dalton Trevisan não é nenhuma novidade: lança-os as pilhas, com força, contra nossas cabeças, todos os anos. Também não são novos os personagens que, com nomes ou sem, são sempre os mesmos: crianças inocentemente promíscuas, pais depravados, velhos nojentos, tarados, assassinos, violentos, putas, puritanas, putas puritanas, vovôs e vovós gagás, etc. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2012/01/mirinha.jpg"><img class="size-medium wp-image-17218 alignright" style="margin: 5px;border: 0px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2012/01/mirinha-180x300.jpg" alt="" width="180" height="300" /></a>Um livro novo de Dalton Trevisan não é nenhuma novidade: lança-os as pilhas, com força, contra nossas cabeças, todos os anos. Também não são novos os personagens que, com nomes ou sem, são sempre os mesmos: crianças inocentemente promíscuas, pais depravados, velhos nojentos, tarados, assassinos, violentos, putas, puritanas, putas puritanas, vovôs e vovós gagás, etc. Nem os argumentos, que raras vezes existem no sentido forte da palavra. Mas a despeito da repetição – que com toda a razão o autor diz não ser culpa sua, mas do mundo -, há sempre alguma pequena modificação, um desvio, que são por vezes sinais dos tempos (os tarados de Trevisan dos anos 1960 eram menos psicóticos que os de hoje) e, por outras, de técnica. Em <em>Mirinha</em>, lançado agora pela L&amp;PM, não é diferente: já conhecemos tudo, sem que isso signifique alguma coisa, a não ser a confirmação das nossas indiferenças. Porém, esse livro em especial traz consigo uma coisa rara dentro da rotina de produção do escritor paranaense: esse é o seu primeiro romance/novela desde <em>A Polaquinha</em>, de 1985, que até agora era sua única incursão no gênero.<span id="more-17214"></span><br />
Fazer um resumo parece algo desnecessário: uma menina de quinze anos é seduzida por um homem mais velho e casado; sua mãe descobre e a bota para fora de casa, enquanto seu amante promete sustentá-la; ela fica confinada num quartinho enquanto vai ganhando peso; é expulsa e quase morta depois de uma crise de ciúme do seu amante; passa a frequentar bares e uma mulher tenta seduzi-la; mora numa casa onde acontecem orgias todas as quintas; é expulsa de lá, chega até a pobreza extrema, até quando a mãe resolve recebê-la de volta em casa, já quase desfigurada.</p>
<p style="text-align: justify">Para se ter uma ideia mais próxima do que é esse livro, seria preciso colocar um pouco a imaginação de um açougueiro nesse resumo: seria preciso cortar rudemente cada um desses episódios até transformá-los em picadinhos de história, que formam, em seu todo, uma bola de vísceras desfigurada.</p>
<p style="text-align: justify">Do mesmo modo funcionam os aprimoramentos da técnica de escrita de Trevisan: aqui, a mudança só se dá pela eliminação. Os diálogos estão cada vez mais secos, chegando realmente ao mínimo comunicativo que, na falta de atribuição de muitas das falas (nem sempre sabemos quem fala o que e todos falam sem que transpareça qualquer marca de subjetividade que os diferencie), aquilo que poderia ser visto como personagens se relacionando no mundo social, torna-se uma massa amorfa curtida pela violência, pela pobreza, pelo machismo, pelo preconceito, pelo dinheiro, pela novelinha da TV e outras constantes daquilo que insistimos chamar de “vida”.<br />
<em></em></p>
<p style="text-align: justify"><em>Mirinha</em> é, como todos os livros de Trevisan, a insistência da denuncia da falcatrua romântica que ronda o imaginário (seria muito chamá-lo assim?) brasileiro. Já no seu título, com esse diminutivo típico de uma desfaçatez que mascara a subordinação racista e sexista com afetos de idílio amoroso, e que lembra, por exemplo, <em>A Moreninha</em>, de Joaquim Manuel de Macedo.</p>
<p style="text-align: justify">O exercício anual de ler um livro novo desse autor é sempre a lembrança de que nossa violência diária foi construída em alicerces de promessas de amores eternos. Se, para Dalton Trevisan, nem Guimarães Rosa escapa, e até mesmo sob Machado de Assis paira uma dúvida, quem somos para acreditarmo-nos inocentes?</p>
<p style="text-align: justify">Título: Mirinha</p>
<p style="text-align: justify">Autor: Dalton Trevisan</p>
<p style="text-align: justify">96 páginas</p>
<p style="text-align: justify">Preço: 12 reais</p>
<p style="text-align: center">Saiba mais sobre essa e outras obras no site da <strong>L&amp;PM Editores</strong></p>
<p style="text-align: center"><a href="http://www.lpm-editores.com.br/site/default.asp"><img class="aligncenter size-full wp-image-2400" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2010/08/lepm.jpg" alt="" width="279" height="129" /></a></p>
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		<title>Viúvas e a nova edição do Catatau de Leminski</title>
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		<pubDate>Sat, 30 Oct 2010 12:00:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tiago Pinheiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Catatau]]></category>
		<category><![CDATA[Herdeiros de escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Iluminuras]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura dos anos 1970]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Paranaense]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Leminski]]></category>

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		<description><![CDATA[Imagino que se possa fazer uma história da literatura moderna só pensando no poder que os herdeiros, muito em especial, as viúvas, tiveram sobre ela, sobre o monopólio de certas obras (inclusive de seu suposto “significado”), sobre uma espécie de jogo editorial obscuro com relação à especulação de livros esgotados, ou sobre livros inéditos tornados [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2010/10/leminski.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-4360" style="margin: 5px; border: 0px;" title="leminski" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2010/10/leminski-285x300.jpg" alt="" width="285" height="300" /></a>Imagino que se possa fazer uma história da literatura moderna só pensando no poder que os herdeiros, muito em especial, as viúvas, tiveram sobre ela, sobre o monopólio de certas obras (inclusive de seu suposto “significado”), sobre uma espécie de jogo editorial obscuro com relação à especulação de livros esgotados, ou sobre livros inéditos tornados públicos claramente contra a vontade do autor. <span id="more-4359"></span></p>
<p style="text-align: justify;">Nessa vasta lista incluem-se notoriamente Maria Kodama (a viúva de Borges que reeditou aqueles primeiros livros de ensaios que ele desprezava); Peter Hemingway (que reescreveu os livros do pai e ainda lançou uma biografia um pouco suspeita); Vera Nabokov (que não sabem o que é livro e o que não é no meio da papelada do marido); Carolina López e Jorge Herralde (as “viúvas” de Bolaño, o segundo editor da Anagrama, que está ajudando a publicar qualquer coisa que tenha a marca da caneta do escritor); os filhos de Guimarães Rosa (que impedem a publicação dos diários a anos); Max Brod (a grande viúva de Kafka) e a viúva de Max Brod (que está impedindo a abertura de uma maleta com vários manuscritos inéditos de Kafka). Isso para não lembrar o século XIX, com as viúvas de Dostoievski, de Tolstoi e tanto outros. E há, é claro, Alice Ruiz, viúva de Paulo Leminski, que conseguiu escolher sempre as piores editoras para publicar os livros do seu marido. Aliás, parecia uma maldição: bastava a editora publicar o livro para que começasse a entrar em decadência: foi assim com a Brasiliense, com a DBA e a coleção Risco:Ruído, com a Travessa dos Editores, etc. As edições eram pequenas e, às vezes, bastante ruins.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso criou uma espécie de aura mítica em cima dos livros do Leminski, uma aura devido ao difícil acesso, ao preço elevadíssimo e injustificável, algo que acaba obscurecendo até mesmo as avaliações sobre o legado de Leminski.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora, a Iluminuras, graça aos bons santos da literatura, relança o Catatau. Para quem não sabe, esse romance experimental narra (?!) os delírios de Descartes (renomeado Cartésio) após desembarcar no Brasil holandês de Maurício de Nassau e fumar um cigarrinho suspeito&#8230; Suas visões perpassam a história de todo o país e certamente todas as suas alusões até hoje não foram suficientemente apreendidas (inclusive alusões ao regime militar, em pleno vigor quando o livro fora escrito, no início dos anos 1970).</p>
<p style="text-align: justify;">É um livro exigente (alguns dizem: “ilegível”). Não vou me arriscar a transcrever algumas das impressões que tenho sobre ele&#8230; Mas fica aqui o agradecimento para Alice Ruiz, que dessa vez talvez tenha acertado de editora&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.meiapalavra.com.br/showthread.php?tid=5654">COMENTE ESSE ARTIGO NO FÓRUM MEIA PALAVRA</a></p>
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		<title>Catatau (Paulo Leminski)</title>
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		<pubDate>Tue, 19 May 2009 13:25:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Anica</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Catatau]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Paranaense]]></category>
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		<description><![CDATA[Ganhei o livro há quatro anos e confesso que sempre começava mas depois largava no meio. Minha teoria era de que Catatau deveria ser lido em um fôlego só. Quando percebi que jamais conseguiria ler dessa maneira, larguei mão e resolvi ler aos poucos, como pessoas normais fazem com os livros, sabe? De qualquer forma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2010/07/leminskicatatau.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-2897" style="border: 0pt none;margin: 5px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2010/07/leminskicatatau.jpg" alt="" width="200" height="264" /></a> Ganhei o livro há quatro anos e confesso que sempre começava mas depois largava no meio. Minha teoria era de que <em>Catatau</em> deveria ser lido em um fôlego só. Quando percebi que jamais conseguiria ler dessa maneira, larguei mão e resolvi ler aos poucos, como pessoas normais fazem com os livros, sabe? De qualquer forma continuo achando que a experiência teria sido milhares de vezes mais legal se eu pudesse ler assim, e mais: ler em voz alta.</p>
<p style="text-align: justify"><em>Catatau</em> é isso, uma experiência. Um &#8220;romance ideia&#8221;. É uma leitura diferente, com uma intenção diferente partindo do autor. Nas palavras do próprio Leminski: &#8220;O Catatau é o fracasso da lógica cartesiana branca no calor, o fracasso do leitor em entendê-lo, emblema do fracasso do projeto batavo, branco, no trópico.&#8221;<sup><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/2009/05/19/catatau-paulo-leminski/#footnote_0_927" id="identifier_0_927" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="LEMINSKI, Paulo. Catatau Curitiba: Travessa dos Editores, 2004. p.271">1</a></sup></p>
<p style="text-align: justify"><span id="more-927"></span>Por isso se você gosta de obras com enredos redondinhos, narrativas lineares e outras facilidades literárias, é melhor (infelizmente) passar longe do livro. Acredito que basta dizer que <em>Catatau</em> tem um só parágrafo para ter uma idéia do que estou falando. Mas se você vencer o &#8220;medo&#8221; de obras ditas &#8220;difíceis&#8221; (Joyce, Rosa, alguém?), eu devo dizer que a leitura é muito recompensadora, e a verdade é que lá pela página 30 você já pegou o &#8220;jeito&#8221; da coisa e lê sem qualquer problema.</p>
<p style="text-align: justify"><em>Catatau</em> surgiu de um estalo que Leminski teve enquanto dava aula de História. &#8220;E se Descartes tivesse vindo para o Brasil com Nassau?&#8221; O que vemos é exatamente isso. Temos Descartes (Cartésio) esperando Artiscewsky &#8211; no melhor estilo Vladimir e Estragon esperando Godot. Vemos o que Descartes vê, do jeito alucinado que ele enxerga o lugar onde está. A fala toda mescla diversas linguagens, numa tentativa de representar o que era a fala do Brasil na época. Neologismos diversos, além da utilização direta de tupi, latim, japonês, italiano, holandês, francês, grego, espanhol, inglês e alemão.</p>
<p style="text-align: justify">E mais do que brincar de forma brilhante com o <em>sentido</em> das palavras, é impressionante perceber o ritmo que ele dita durante a narrativa, que apesar de prosa em alguns momentos parecem poesia, é quase como se você estivesse lendo um dos haikais dele. E no meio de toda a confusão do pensamento da personagem, alguns momentos geniais com aquelas frases típicas do Leminski (por exemplo &#8220;Num universo impreciso, é preciso ser inexato, dizer sempre quase antes do dito.&#8221;). E é por isso que eu insisto na ideia da leitura de <em>Catatau</em> em voz alta, até para esse ritmo ficar mais óbvio, mais destacado.</p>
<p style="text-align: justify">O livro é realmente genial, e como falei anteriormente, vale a pena vencer o medo de não compreendê-lo . Como falou o próprio autor, &#8220;Dentro do Catatau, o leitor perde a mania de procurar coisas claras.&#8221;<sup><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/2009/05/19/catatau-paulo-leminski/#footnote_1_927" id="identifier_1_927" class="footnote-link footnote-identifier-link" title="LEMINSKI, Paulo. Catatau Curitiba: Travessa dos Editores, 2004. p.273">2</a></sup> e o fato de mexer dessa maneira com quem lê a obra faz dela ainda melhor.É claro, tive a sorte de ler a edição crítica da Travessa dos Editores, que além do texto original ainda traz índice onomástico, estudo dos procedimentos neológicos, iconografia entre outros &#8220;detalhes&#8221; que no final das contas só ajudam a enriquecer a leitura. Uma pena que aparentemente essa <a title="catatau na travessa" href="http://www.travessadoseditores.com.br/index.php?tras=secao.php&amp;area=10&amp;id=34&amp;page=1&amp;total=67" target="_blank">edição está esgotada</a> no momento.</p>
<p style="text-align: justify"><em>(Esse artigo foi originalmente publicado no .:Hellfire Club:. em abril de 2009)</em></p>
<p style="text-align: justify"><a title="COMENTE" href="http://www.meiapalavra.com.br/showthread.php?tid=2840&amp;highlight=Catatau" target="_blank"><strong>COMENTE ESSE ARTIGO NO FÓRUM MEIA PALAVRA</strong></a></p>
<ol class="footnotes"><li id="footnote_0_927" class="footnote">LEMINSKI, Paulo. <em>Catatau</em> Curitiba: Travessa dos Editores, 2004. p.271</li><li id="footnote_1_927" class="footnote">LEMINSKI, Paulo. <em>Catatau</em> Curitiba: Travessa dos Editores, 2004. p.273</li></ol>]]></content:encoded>
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		<title>Nervuras do silêncio</title>
		<link>http://blog.meiapalavra.com.br/2008/05/26/nervuras-do-silencio/</link>
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		<pubDate>Mon, 26 May 2008 14:42:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Colaborador Meia Palavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenhas]]></category>
		<category><![CDATA[Lieratura Brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Lindsey Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Paranaense]]></category>
		<category><![CDATA[Nervuras do Silêncio]]></category>

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		<description><![CDATA[Ler um livro é desinteressar-se a gente deste mundo comum e objetivo para viver noutro mundo. A janela iluminada noite adentro isola o leitor da realidade da rua, que é o sumidouro da vida subjetiva. (Augusto Meyer) &#8230;before I sink into the big sleep, I want to hear the scream of the butterfly (Jim Morrison) [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2010/07/nervuras1.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-2830" style="border: 0pt none;margin: 5px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2010/07/nervuras1.jpg" alt="" width="200" height="306" /></a><em>Ler um livro é desinteressar-se a gente deste mundo comum e objetivo<br />
para viver noutro mundo. A janela iluminada noite adentro<br />
isola o leitor da realidade da rua,<br />
que é o sumidouro da vida subjetiva.</em></p>
<p style="text-align: justify"><em>(Augusto Meyer)</em></p>
<p style="text-align: justify"><em>&#8230;before I sink<br />
into the big sleep,<br />
I want to hear<br />
the scream<br />
of the butterfly</em></p>
<p style="text-align: justify"><em>(Jim Morrison)</em></p>
<p style="text-align: justify">Há muito tempo que eu me pergunto: do que se faz a prosa poética? Faz-se de e com ausências? De imagens metafóricas? De saberes? De goles de experiências contidas na memória? De fragmentos filosóficos? De instantes intensos?</p>
<p style="text-align: justify">Será que a Literatura – em geral, e podemos abordar todo o tipo de arte – se alimenta de paixões, fugas e silêncios (além, como é muito teorizado, da própria literatura)? Mistura essa que pode dar forma ao barro, cuja matéria-prima dará vida – verbo – à coisa? Difícil é delimitar a matéria essencial da literatura. Em suma, diríamos ser a vida.</p>
<p style="text-align: justify"><span id="more-108"></span></p>
<p style="text-align: justify">Assim, as interrogações acumulam-se ao ler o livro Nervuras do silêncio, de Lindsey Rocha. Pequenos quadros poéticos de carpintaria pintados por dedos de açúcar. Pequenas fugas. Frestas. Frames à lá Kurosawa.</p>
<p style="text-align: justify">Ao abrir as Nervuras do Silêncio, o leitor estará convidado a entrar em movimentos empiristas de um balé onírico de sigilo, dança que nos retira do mundo circundante e nos transporta para as pérolas da vida subjetiva. Os textos poéticos são como conchas recolhidas à beira da epiderme. Águas vivas da noite beirando o prelúdio de Debussy. Hieróglifos, imprevisíveis retornos.</p>
<p style="text-align: justify">Há quem se engane em perder todo o tempo do mundo na confecção de florista, no arranjo estético do sentido, pois por trás das nervuras que percorrem o sangue das palavras, os textos partem, sobretudo, para uma espécie de ensaio filosófico (“&#8230;deixas azuis, falas com brilho de mata virgem, jardins de perguntas adocicadas e espelhos que refletem o contrário disso tudo”). Quadros minimalistas, recortes de momentos, pequenas larvas líricas que rastejam pelos nossos subterrâneos estão presentes em cada conto bem delineado pela jovem escritora curitibana.</p>
<p style="text-align: justify">O leitor, acostumado com enredo, espaço e tempo, estranhará as pequenas pinturas de Lindsey, pois elas são compostas de tonalidades de ausência – sintaticamente falando – por entre as quais, certamente, o leitor sentirá falta de terreno onde pisar. Mesmo com esse hiato – de alguma coisa: razão(?) – os textos carregam outros corpos. Outras epidermes. A sensação de delírios causada pelas nervuras de Lindsey – esquizofrenia(?) – é o que eleva o simbolismo de seus suspiros poéticos, dos seus saberes que passeiam pelo paradoxo de nos dar e, ao mesmo tempo, solicitar os sentidos; também o erotismo em lençóis d’água no desejo das teclas do piano de Chopin quererem ser o corpo tocado por alguém: “o doce poder de dizer ser sua vítima”. É, portanto, na desautomatização da razão que encontramos a vida, e dela tiramos sonhos, palavras e compomos minuetos silenciosos. Não há terreno, e sim nuvens por entre as quais passeiam vôos muitas vezes surreais. Coisas do espírito.</p>
<p style="text-align: justify">Ler nervuras do Silêncio é nos ler através da pele. Dígitos de fantasia. É “aprender a pescar. Deixar de rabugice. Usar a isca da presença. Escutar de repente um ‘sai dessa’ e sair”. Universo infinito feito de pequenas gotas silenciosas que resumem “toques, risos e saberes”.</p>
<p style="text-align: justify">Ao abrir o livro, cada fragmento nos faz tirar a roupa e saber que estamos sós, nus ao tempo presente cheio de vestígios rugosos no palco imagético da vida.</p>
<p style="text-align: justify">A título de conclusão, este conjunto de prosa-poética faz residir a solidão de Lindsey: ser vista como ela realmente quer.</p>
<p style="text-align: justify"><em>(Esse artigo é uma colaboração de Giuliano Gimenez, que escreve textos sem pé nem cabeça periodicamente no blog <a href="http://aguerradasimaginacoes.blogspot.com" target="_blank">http://aguerradasimaginacoes.blogspot.com</a>/)</em></p>
<p><a href="http://www.meiapalavra.com.br/showthread.php?tid=1325"><strong>Comente esse post no Fórum Meia Palavra.</strong></a></p>
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