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	<title>Meia Palavra&#187; I Concurso de Contos Meia Palavra</title>
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		<title>Bicho-papão (Vencedor do I Concurso de Contos Meia Palavra)</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Apr 2009 11:41:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Colaborador Meia Palavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meia Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Bicho-papão]]></category>
		<category><![CDATA[I Concurso de Contos Meia Palavra]]></category>
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		<description><![CDATA[Hoje, quarta-feira, 29 de abril de 2009, publicamos o conto vencedor do I Concurso de Contos Meia Palavra criado pela Anica. Ao todo 15 contos foram enviados e publicados para todos lerem. Os usuários do Meia Palavra votaram em seu conto favorito. A disputa foi acirrada, tivemos 3 que levaram o segundo lugar! Que no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="size-full wp-image-624 alignleft" style="margin: 5px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2009/03/meiatwitter.jpg" alt="meiatwitter" width="100" height="100" />Hoje, quarta-feira, 29 de abril de 2009, publicamos o conto vencedor do I Concurso de Contos Meia Palavra criado pela Anica. Ao todo 15 contos foram enviados e publicados para todos lerem. Os usuários do <a href="http://www.meiapalavra.com.br">Meia Palavra</a> votaram em seu conto favorito. A disputa foi acirrada, tivemos 3 que levaram o segundo lugar! Que no próximo concurso a disputa seja mais forte ainda e mostre todo o talento dos nossos usuários.</p>
<p>Fiquem a seguir com <em>Bicho-papão</em> escrito pelo <a href="http://www.meiapalavra.com.br/member.php?action=profile&amp;uid=473">JLM</a></p>
<p><span id="more-848"></span></p>
<p>I &#8211; A CARTA</p>
<p>Andréa olhava o moço ir embora. Parada na porta de casa, ainda não acreditava na história que ele lhe contara. Teve receio de pedir para repeti-la pela terceira vez. Seria declarar descaradamente que não acreditava nele. Só quando o vulto dobrou a esquina é que ela voltou a si e percebeu que tinha em mãos um envelope velho, amarelado, mas lacrado. Garranchos de caneta e umidade deformavam um nome escrito em tinta azul: Andréa Ferreira dos Santos. O nome dela. Eram palavras que, mesmo silenciosas e antigas, apontavam o dedo para uma única pessoa. Andréa Ferreira dos Santos. Ela. Precisava pensar melhor. Resolveu entrar em casa.</p>
<p>Deixou o envelope sobre a mesa e foi tomar o cafezinho que o visitante recusou. O jovem de roupas brancas dissera que tinha pressa em retornar à terra natal. Já estava em viagem há muitos anos e findava a sua missão em Andréa. A cada gole de café, sorvia o líquido e as palavras que ecoavam em seus ouvidos. O moço viera de longe, de Minas Gerais, somente para lhe entregar a carta. Contou que era a última de sete cartas entregues em sete cidades diferentes. E que, apesar de ter recebido instruções específicas de onde e como encontrar os destinatários, levou anos para terminar a tarefa. Cinco anos, para ser mais exato.</p>
<p>As sete cartas eram de um famoso médium espírita, psicografadas um pouco antes da sua morte e entregues ao fiel discípulo. Como último desejo do mestre querido, deveria entregar pessoalmente cada carta. Elas mudariam o destino de pessoas, algumas vivas, outras não. O jovem discípulo percorreu o país, procurando os destinatários somente pelos nomes escritos em cada envelope e pelas orientações fornecidas pelo vidente. Nunca teve curiosidade em ler as cartas, admitiu, mas precisou ser extremamente rígido na ordem de entrega, pois foi-lhe revelado que encontraria os destinatários em lugares e épocas específicos. Aquela seria a derradeira demonstração da fé que tinha no mestre. Uma fé que Andréa, apesar de ir à igreja todo fim de semana, invejou.</p>
<p>Findou o café e voltou a atenção ao envelope. O marido estava fora. As crianças, na escola. Tinha um tempo livre antes de começar a fazer o almoço. O momento era propício, mas ela estava com medo. A verdade é que não costumava receber cartas. Quase nunca. Ainda mais de um morto, ou pior, de dois mortos. Tentou relacionar quem, do além, poderia querer entrar em contato com ela. Certamente alguém falecido a mais de cinco anos. O tio Manoel do seu esposo estava descartado, morrera ano passado. A filha da Dona Rita também. Não se lembrou de ninguém mais. Com o tempo, os mortos também costumam morrer na memória. Mas, também poderia ser alguém que ela não conhecera, como os avós paternos, falecidos antes de Andréa nascer.</p>
<p>Além do receio sobre o misterioso remetente, Andréa também temia o conteúdo da carta. Se era algo tão importante a ponto de ser psicografado por um médium famoso e este ter incumbido um fiel discípulo de entregá-la pessoalmente, e deste último persistir por anos a fio até completar a tarefa, deveria ser uma mensagem necessária e significativa. Mas para quem? Para o falecido, para o médium ou para ela? E se fossem maldições ou coisas do além que ela não gostaria de saber? Mas, por outro lado, e se falasse do futuro, de seu marido ou dos seus filhos? E se lhe contasse como melhorar de vida ou evitar uma tragédia?</p>
<p>Naquele momento, Andréa sentiu-se terrivelmente sozinha. Aquela carta começava a pesar sobre os seus ombros.</p>
<p>II &#8211; O PAI</p>
<p>Escuridão. Vazio. Silêncio.</p>
<p>Um cachorro late distante. Um carro passa na rua, mais próximo. O chão frio e duro ecoa o barulho do motor da geladeira. Chão?! O despertar, a consciência, o abrir os olhos, os móveis assumindo as suas formas, a escuridão indo-se embora lentamente, tudo causa certa vertigem. Andréa demorou a perceber que estava deitada no chão da cozinha. Sentou-se no piso. O mundo ainda rodava e ela buscou equilíbrio. Começou a refazer mentalmente os passos desde onde se lembrava. Havia bebido o café, sentado à mesa, aberto o envelope, oh Deus, lido a carta. Percebeu que desmaiara ao ler aquela estranha carta. Um desespero súbito a subjugara, arrancando as rédeas da sua consciência.</p>
<p>A primeira frase que lera atropelou qualquer raciocínio lógico que Andréa tivesse formulado antes. Oxalá nunca tivesse aberto aquele maldito envelope. É verdade que a idéia de jogá-lo fora lacrado lhe passou pela cabeça, mas a curiosidade feminina falou mais alto. É apenas uma carta, que mal pode fazer, justificou-se. Não fazia idéia do efeito que as palavras possuem. Se elas são capazes de levantar ou derrubar impérios, imagine o que fariam na simples alma de uma mulher do interior. E foram as palavras que a faziam se arrepender da ousadia. Tentou se recuperar do baque, mas os seus olhos ardiam e a cabeça doía. Ao seu lado, também entregue ao chão, a carta mostrava o trecho inicial que Andréa havia lido.</p>
<p>Andréa, o seu pai foi assassinado.</p>
<p>Estas poucas palavras afetaram Andréa pelo mais óbvio dos motivos: ela havia visto o pai ainda cedo pela manhã. Como poderia uma carta, enviada cinco anos atrás, prever o assassinato de seu querido pai naquele dia? Só poderia ser um engano, com certeza era um engano.</p>
<p>Seu paizinho Cairo não poderia estar morto. De forma alguma. Aquela sentença era um equívoco ou uma mentira. Apesar disso, Andréa admitiu que ficaria em dúvida até o meio-dia, quando o pai regressaria da construção onde era pedreiro. E se ele não voltasse? Oh, meu Deus! Cairo, apesar da idade, tinha mais vigor que muitos jovens, era o que as vizinhas comentavam. De modos rústicos, sempre foi forte, enérgico e explosivo, não só no físico, mas também no temperamento. Signo de escorpião. Até mesmo os vícios – o cigarro de palha, o rabo-de-galo diário, o forró dos fins de semana – pareciam não afetar em nada a sua saúde.</p>
<p>A rudeza de Cairo transformou Andréa, na infância, em uma menina tímida, carente, calada, de presença quase imperceptível. Preterida em prol dos dois irmãos mais velhos, aprendeu a contentar-se com as migalhas da atenção do pai. A mãe sempre ensinava o mesmo mantra particular: teu pai gosta mais de filho homem, mas se você obedecê-lo em tudo talvez ele te ame. A sementinha de esperança plantada fez Andréa esforçar-se para superar os irmãos em prontidão, dedicação e obediência para, quem sabe, chamar para si os carinhos do pai.</p>
<p>Voltando da digressão, refletiu que ao invés de ficar ansiosa pela volta do pai, a solução mais rápida era continuar a ler a carta. Talvez encontrasse algo nela que comprovaria o engano. Pegou a carta e, apoiando-se na cadeira, sentou. De maneira ritual, abriu-a novamente e leu.</p>
<p>Mas não estou falando do Cairo. Ele não é o seu pai, eu sou. E fui assassinado por ele.</p>
<p>III &#8211; A MÃE</p>
<p>Quando eu namorava a sua mãe, Cairo era meu melhor amigo. Até o dia em que ambos me traíram. Magoado, mudei de cidade enquanto Cairo e Alessandra foram viver juntos. Mas isso foi antes de você nascer.</p>
<p>Soava estranho para Andréa ler revelações do passado de sua mãe e de seu pai. Eles haviam traído o namorado e amigo, respectivamente, e nunca haviam comentado sobre o assunto. Pelo menos não próximo dela. Não que ela acreditasse naquelas palavras, pois a primeira reação quando se acusa um ente querido é a negação incondicional, a proteção fraternal, a confiança pela intimidade e proximidade. Mesmo se as acusações forem verdadeiras. Confiamos e protegemos basicamente porque precisamos de alguém para confiar e nos proteger quando preciso for. Mas Andréa sabia que todos tem segredos – pequenos ou não – inclusive os seus pais, inclusive ela. Principalmente ela.</p>
<p>Andréa sentia vergonha por sua mãe estar internada no manicômio municipal. Este foi o motivo que a fez mudar de bairro. Evitar as fofocas sobre o fatídico episódio que ela se esforçava tanto para esquecer. Envergonhava-se de ter sido atacada com uma faca num violento acesso de loucura da mãe. Carregaria pelo resto da vida a maldição de ter a própria mãe tentando matá-la. Assim como carregaria o fardo por ter assinado os papéis da internação, pois o seu pai resolveria a situação de outra maneira: daria uma coça na desmiolada até ela sarar ou piorar de vez. Os seus irmãos não ajudaram, há muito andavam perdidos pelo mundo. Ela era a única responsável pela mãe louca.</p>
<p>Tentara visitar a mãe algumas vezes, sem sucesso, pois era só Alessandra ver a filha para atacá-la com quaisquer objetos próximos, urrando e esbravejando ofensas. Por fim, desistiu e abandonou a mãe aos cuidados dos enfermeiros e de Santa Dinfna, protetora dos doidos varridos.</p>
<p>Durante anos, descontei em outras mulheres o mal que Alessandra me fez. Virei um monstro, um bicho-papão, que comia vítimas pobres e indefesas e abandonava os restos na sarjeta. Não me orgulho do que me tornei. Inocentes sofreram sem merecer. Mas isso foi antes de você nascer.</p>
<p>E se esta história trazer alguma verdade? Afinal, ninguém confessa os pecados a uma desconhecida a não ser para provocar uma atitude condescendente e misericordiosa. Mas quem escreveu a carta não busca absolvição, mesmo porque está morto e enterrado. Então qual é o seu propósito? Prejudicar a relação de Andréa com seu paizinho, o único que lhe restara após a mãe ter sido internada? Andréa não entendia em quê estas revelações lhe seriam úteis.</p>
<p>Por outro lado, abria-se diante de Andréa uma vitrine onde poderia escolher o pai que desejasse. Mas ela já conhecia Cairo. Ele habitava em sua memória como pai desde antes dela pensar por conta própria. Cairo estava vivo, morava com ela, brincava com os seus filhos todos os dias e ajudava nas despesas da casa. E quem era o outro? Ninguém. Apenas um nome em uma carta velha. E havia algo mais importante: Cairo era o único que compactuava com Andréa o segredo da loucura de Alessandra.</p>
<p>Certa vez, voltei e Alessandra, ainda morando com Cairo, implorou por meu perdão. Disse que sempre me amou, se humilhou e sujeitou-se a todos os meus sadismos. Mas eu não sentia mais nada por ela. Eu não sentia mais nada por ninguém. Por isso, depois de satisfazer a minha vingança em Alessandra, fui embora, desconhecendo que você nasceria pouco tempo depois.</p>
<p>Andréa se negava a acreditar que havia nascido como resultado de uma vingança por causa de uma traição. Era desprezível demais. Ninguém merece saber que é fruto do ódio ao invés do amor, carregar em seus genes o estigma da maldade dos pais. Desejaria mil vezes não saber se esta fosse a verdade. Não queria ter essa história na sua vida nem a sua vida nessa história. Preferia a alegre ignorância ao conhecimento que trouxesse como bônus o sofrimento. Decidiu terminar o parágrafo e jogar a maldita carta no lixo.</p>
<p>Depois, visitando a cidade, vi sua mãe passeando com você. Uma linda menina de cachos dourados que só podia ser minha. Apaixonei-me pelos seus olhos azuis. O amor que senti pela filha superou o ódio pela mãe. Naquele momento, morreu o monstro, o bicho-papão, o coração sádico e endurecido. Desejei ser melhor, por você e para você. Foi quando resolvi te conhecer. E foi quando morri por sua causa. Agora, preciso te ajudar a se livrar do trauma de infância que, sem querer, deixei você sofrer.</p>
<p>IV &#8211; O TRAUMA</p>
<p>Um riso irônico alternava com suspiros apressados. Andréa tentava disfarçar as mãos suadas na calça, apesar de estar só. Dissimulou ao pensar em voz alta que trauma era coisa de gente rica. Pobre não tem estas frescuras. Seria cômico alguém afirmar que ela, justo ela, tinha um trauma de infância por causa de um desconhecido. Hilário. Ensaiou uma gargalhada, mas esta acabou não saindo tão natural como queria. Procurou racionalizar o que se lembrava da infância: sonhos, decepções, sofrimentos, brigas, enfim, coisas que existem em toda família e nem por isso são traumáticas. Traumatizada era o adjetivo que não combinava com o substantivo Andréa.</p>
<p>A carta começava a soar infundada e sem cabimento. Mal sabia que o pior ainda estava por vir. Quando uma carta póstuma é enviada afirmando que o verdadeiro pai foi assassinado pelo homem considerado até então o seu progenitor, que outras afirmações inimagináveis também não poderia sugerir? As palavras não conhecem limites, a imaginação sim. Se a imaginação seguir a trilha deixada pelas palavras corre o risco de conhecer lugares que não gostaria nem de ouvir.</p>
<p>Tentei me aproximar de você, mas Cairo não deixou. Então passei a te observar à distância na escola ou na pracinha. A minha rotina era te amar sozinho e em silêncio. Mas havia um pedófilo ameaçando a cidade. Três crianças estavam desaparecidas. Um dia, percebi um estranho te seguindo. Quando você se afastou das outras crianças, ele te atacou. E eu o ataquei. Defendi como uma fera a minha menininha daquele monstro. Rolamos pela rua. A multidão nos cercou assim que soube que se tratava do pedófilo. Mas quando nos separaram, não sabiam a quem culpar. Eu o acusava e ele a mim. A dúvida acabou quando um dentre a multidão apontou o dedo. A última cena que vi foi dedo de Cairo apontando para mim. Ali mesmo, fui linchado pela multidão ensandecida. Entre Cristo e Barrabás, venceu Barrabás, com uma pequena ajuda de Judas.</p>
<p>A memória de Andréa esboçava uma vaga lembrança daquela cena. Ela era pequena, contudo lembrou de assistir a multidão dando socos e pontapés no homem caído à sua frente. Mas Andréa nunca encarou o episódio como traumatizante. Nem lembrava dele. Ela não conhecia nem sentia nada pelo homem que apanhou até a morte, quem quer que fosse. Ao contrário, ela lembrou que depois daquele dia Cairo passou a tratá-la melhor que aos irmãos: deu-lhe atenção, carinho e proteção especiais que jamais tivera antes. Aquele ato violento realizou o sonho de uma menininha em saborear o amor paterno.</p>
<p>Mas não é esse o trauma a que me refiro, Andréa. Você sabe que é aquele que você esconde no íntimo, que sente vergonha ao lembrar, que te faz chorar quando está só. É o motivo da sua mãe ter tentado te matar. O trauma a que me refiro é você dormir desde os 12 anos de idade com Cairo, o homem que acredita ser seu pai. De criar dois filhos do pai-marido enquanto a sua mãe definha em um hospício. Cairo não se contentou em me matar, ele descontou em você todo o ódio que teve por mim e por sua mãe. E, desta vez, eu não pude salvar a minha menina do bicho-papão.</p>
<p>V – FINAL</p>
<p>A carta atingiu o ponto fraco de Andréa. Não foi um tapa no rosto, foi como sangrar sem estar ferida. Andréa realmente tinha esse segredo sujo. Ela fazia sexo com o pai, Cairo, desde a adolescência. Nunca dormiu com outro homem. Cairo não a deixara namorar ninguém. Sentia um ciúme doentio por ela até com os irmãos. Andréa, tentando fugir do sentimento de culpa, plantou a ilusão em sua mente de que a sua vida, mesmo imperfeita, seguia os caminhos que Deus havia traçado para ela. Deus escreve certo por linhas tortas, não é? E mais torta que a vida de Andréa, impossível. Então, se era para ela ser feliz como a mulher do pai, faria como nos tempos bíblicos, obedeceria resignada e lhe daria filhos. Quem não aceitou esta relação foi Alessandra, a mãe de Andréa. No dia em que flagrou o marido e a filha nus na cama do casal, Alessandra pirou. Pegou uma faca e atacou Andréa. Melhor uma filha morta que uma vagabunda. Foi preciso chamar os vizinhos naquele dia para conter a fúria de Alessandra. Ou ela matava ou ela morria. O único jeito de calar Alessandra foi interná-la no hospício como doida.</p>
<p>Sempre que o silêncio aparecia, trazia para Andréa os gritos e as maldições da mãe. Ira de mãe é ira divina. A vergonha e a depressão só faziam aumentar. Pensou várias vezes em suicídio. A carta declarava uma sentença – bem maior que um trauma infantil – da pena capital que Andréa cumpria fazia tempos. Sem amigos, nem parentes, a única alegria era viver integralmente num faz-de-conta para o pai-marido e os filhos. Mas não apaziguava o desespero que ela sentia. Ela não vivia, definhava. Com o coração apertado, boca seca, pensamentos confusos, ela resolveu terminar a carta que a trouxe de volta à dura e cruel realidade.</p>
<p>Filha, me perdoe por não te defender quando mais precisou de mim. Eu morreria mil vezes por você se pudesse, mas não pude. Se estivesse vivo eu mataria o desgraçado. Quero que saiba que todo problema tem solução, mesmo que tardia. Só depende de você. Não obedeça aquele que sempre te enganou e se aproveitou de você. Eu torço por você e aguardo o dia em que finalmente iremos nos abraçar como pai e filha. Com um amor mais profundo que a morte e um beijo, de teu pai, Jorge.</p>
<p>Um lampejo de esperança brilhou nos olhos de Andréa. E se ela não fosse filha de Cairo? Ele abusara dela, se aproveitara de sua inocência infantil e a enganara, mas ela não era culpada. Os céus, através daquela carta, revelavam que ela não era pecadora e não havia porque se sentir suja. O seu verdadeiro pai se chamava Jorge e a amava como um pai deve amar. Releu o final da carta molhando o papel com algumas gotas que caíam.</p>
<p>Neste instante, o portão da frente rangeu. Ela olhou para o relógio: meio-dia. Perdera toda a manhã lendo a carta e esqueceu-se do almoço. Cairo ficaria muito bravo. Mas era hora de Andréa dar um basta. Foi até o quarto. A porta da cozinha se abriu. Subiu na cama e alcançou a caixa de sapatos em cima do guarda-roupa. Andréa, cadê o meu almoço, trem? &#8211; ouviu Cairo gritar na sala. Sentada na cama, Andréa colocou uma bala no tambor do revólver e engatilhou no exato momento em que Cairo entrava no quarto. Ambos se olharam sabendo o que iria acontecer.</p>
<p>Na rua, dois garotos com uniformes escolares apostavam corrida até o portão para ver quem chegaria primeiro, o último seria mulher do padre, quando ouviram o estampido seco dentro da casa.</p>
<p>VI &#8211; EPÍLOGO</p>
<p>Andréa,</p>
<p>O seu pai foi assassinado. Mas não estou falando do Cairo. Ele não é o seu pai, eu sou. E fui assassinado por ele.</p>
<p>Quando eu namorava a sua mãe, Cairo era meu melhor amigo. Até o dia em que ambos me traíram. Magoado, mudei de cidade enquanto Cairo e Alessandra foram viver juntos. Mas isso foi antes de você nascer.</p>
<p>Durante anos, descontei em outras mulheres o mal que Alessandra me fez. Virei um monstro, um bicho-papão, que comia vítimas pobres e indefesas e abandonava os restos na sarjeta. Não me orgulho do que me tornei. Inocentes sofreram sem merecer. Mas isso foi antes de você nascer.</p>
<p>Certa vez, voltei e Alessandra, ainda morando com Cairo, implorou por meu perdão. Disse que sempre me amou, se humilhou e sujeitou-se a todos os meus sadismos. Mas eu não sentia mais nada por ela. Eu não sentia mais nada por ninguém. Por isso, depois de satisfazer a minha vingança em Alessandra, fui embora, desconhecendo que você nasceria pouco tempo depois.</p>
<p>Depois, visitando a cidade, vi sua mãe passeando com você. Uma linda menina de cachos dourados que só podia ser minha. Apaixonei-me pelos seus olhos azuis. O amor que senti pela filha superou o ódio pela mãe. Naquele momento, morreu o monstro, o bicho-papão, o coração sádico e endurecido. Desejei ser melhor, por você e para você. Foi quando resolvi te conhecer. E foi quando morri por sua causa. Agora, preciso te ajudar a se livrar do trauma de infância que, sem querer, deixei você sofrer.</p>
<p>Tentei me aproximar de você, mas Cairo não deixou. Então passei a te observar à distância na escola ou na pracinha. A minha rotina era te amar sozinho e em silêncio. Mas havia um pedófilo ameaçando a cidade. Três crianças estavam desaparecidas. Um dia, percebi um estranho te seguindo. Quando você se afastou das outras crianças, ele te atacou. E eu o ataquei. Defendi como uma fera a minha menininha daquele monstro. Rolamos pela rua. A multidão nos cercou assim que soube que se tratava do pedófilo. Mas quando nos separaram, não sabiam a quem culpar. Eu o acusava e ele a mim. A dúvida acabou quando um dentre a multidão apontou o dedo. A última cena que vi foi dedo de Cairo apontando para mim. Ali mesmo, fui linchado pela multidão ensandecida. Entre Cristo e Barrabás, venceu Barrabás, com uma pequena ajuda de Judas.</p>
<p>Mas não é esse o trauma a que me refiro, Andréa. Você sabe que é aquele que você esconde no íntimo, que sente vergonha ao lembrar, que te faz chorar quando está só. É o motivo da sua mãe ter tentado te matar. O trauma a que me refiro é você dormir desde os 12 anos de idade com Cairo, o homem que acredita ser seu pai. De criar dois filhos do pai-marido enquanto a sua mãe definha em um hospício. Cairo não se contentou em me matar, ele descontou em você todo o ódio que teve por mim e por sua mãe. E, desta vez, eu não pude salvar a minha menina do bicho-papão.</p>
<p>Filha, me perdoe por não te defender quando mais precisou de mim. Eu morreria mil vezes por você se pudesse, mas não pude. Se estivesse vivo eu mataria o desgraçado. Quero que saiba que todo problema tem solução, mesmo que tardia. Só depende de você. Não obedeça aquele que sempre te enganou e se aproveitou de você. Eu torço por você e aguardo o dia em que finalmente iremos nos abraçar como pai e filha.</p>
<p>Com um amor mais profundo que a morte e um beijo,</p>
<p>de teu pai,</p>
<p>Jorge.</p>
<p>O rapaz terminou de ler a carta em voz alta. A mulher olhava a chuva pela janela com os pensamentos longe. Demorou, mas disse:</p>
<p>- A carta vai cumprir o seu objetivo.</p>
<p>- Qual? – perguntou o rapaz todo de branco.</p>
<p>- Vingança. – respondeu – De um jeito que, se depender do meu santo protetor, vai acontecer.</p>
<p>- Existe alguma verdade na carta? O tal Jorge existiu mesmo? Ele era o pai de Andréa?</p>
<p>- Isso não importa. O essencial é você cumprir a sua parte no acordo. Lembra o que deve fazer?</p>
<p>- Sim&#8230; Entrego a carta para a moça, quando estiver sozinha&#8230; Minto sobre o tal vidente famoso falecido que psicografou para ela cinco anos atrás&#8230;</p>
<p>- Certo. Não se esqueça de dizer que você é de Minas Gerais e que é a última de sete cartas que está entregando. Se você cumprir esta pequena tarefa terá a sua recompensa te esperando na minha cama, quantas noites quiser ou agüentar. Farei coisas que você não imagina serem possíveis.</p>
<p>- Deixa comigo, Alessandra. Amanhã à noite cobrarei o meu prêmio. De manhã, irei até o endereço que me passou e faço o combinado.</p>
<p>Alessandra pegou a carta e lacrou-a no envelope que trazia o nome da filha escrito. Em seguida, entregou-o nas mãos do auxiliar de enfermagem. Deu um beijo sensual no futuro amante e retornou à janela. Enquanto ouvia o barulho da porta sendo trancada atrás de si, a sua mente insana revelava como tudo iria acontecer.</p>
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		<title>Constante (2º lugar &#8211; I Concurso de Contos Meia Palavra)</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Apr 2009 13:33:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Colaborador Meia Palavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meia Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Fórum Meia Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[I Concurso de Contos Meia Palavra]]></category>

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		<description><![CDATA[Nessa quarta-feira, dia 22 de Abril (&#8220;descobrimento&#8221; do Brasil), o blog Meia Palavra publica o terceiro conto a ficar com o 2º lugar no I Concurso de Contos Meia Palavra, organizado pela Anica, administradora do fórum e do blog Meia Palavra. Os contos foram escolhidos através de uma votação entre os usuários do fórum. A [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><img class="alignleft size-full wp-image-624" style="border: 0pt none;margin: 5px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2009/03/meiatwitter.jpg" alt="meiatwitter" width="100" height="100" />Nessa quarta-feira, dia 22 de Abril (&#8220;descobrimento&#8221; do Brasil), o blog Meia Palavra publica o terceiro conto a ficar com o 2º lugar no I Concurso de Contos Meia Palavra, organizado pela Anica, administradora do <a href="http://www.meiapalavra.com.br">fórum</a> e do blog Meia Palavra. Os contos foram escolhidos através de uma votação entre os usuários do fórum.</p>
<p style="text-align: justify">A seguir fiquem com<em> Constante</em> escrito pelo <a href="http://www.meiapalavra.com.br/member.php?action=profile&amp;uid=670">Tauil</a></p>
<p style="text-align: justify"><span id="more-801"></span></p>
<p style="text-align: justify">Naquela manhã parada de domingo, passava de cômodo em cômodo para ver se não havia deixado nada para trás. Estava se mudando para um pequeno apartamento no centro e deixar a casa onde crescera não era fácil. Era um casarão antigo de um bairro nobre, crivado de lembranças. Se aguçasse a audição, talvez fosse capaz de ouvir seu primeiro choro ainda ecoando pelo corredor que ligava uma saleta ao quarto dos pais. Era ali, naquele corredor, onde as assombrações o esperavam adormecer. Furtivo, teria de atravessá-lo pé ante pé, nem tão rápido para não ranger a madeira do chão e nem tão lento pra não cair nas mãos do monstro. Aí sim poderia enfiar-se nas cobertas da mãe. O pai, é verdade, nunca gostou. Dizia que o garoto tinha que aprender a enfrentar seus medos sozinho, provavelmente por nunca ter tido uma mãe que o acolhesse. No jardim ainda permanecia intacta a casinha do seu velho amigo Sombra, um vira-lata destruidor de flores que, por não contentar-se somente com as tulipas do seu jardim, havia sido envenenado por algum vizinho que já não morava mais ali. Na mureta azul, ainda se via a silhueta de Isabela, tímida, resistente ao primeiro beijo, recusando o buquê de tulipas amassadas. Em seu quarto, um papel de parede o transportava para o espaço. Na sala vasta, sob um tapete grosso estava o grande piano de cauda onde passava as tardes de sexta-feira tomando lições com Dona Otilha. Não havia aposento que não lhe remetesse nostalgia.</p>
<p style="text-align: justify">A buzina do carro despertou-lhe à realidade. Estavam com pressa. Caminhou o olhar pela estante de livros, tentando reconhecer os seus. Precisava empacotá-los no papelão porque agora iriam enfeitar uma nova sala, seriam folheados por novas crianças – um filho que estava por vir -, talvez um servisse de apoio para uma nova mesa bamba, enfim, pertenceriam a uma nova família que estava sendo constituída, assim como fez seu pai. Precisava desprender-se do abrigo materno. Mas não tardou a constatar que é impossível retirar um livro da estante e depositá-lo na caixa sem antes tirar-lhe o pó, mirar suas páginas, ver as anotações no rodapé, tentar lembrar onde e quando fora lido, e a cada exemplar que tocava, mais uma lembrança o envolvia. Passaria ali o resto do dia, preso ao passado, não fosse mais uma buzinada. Rapidamente encheu suas caixas sem remorso, pois sabia que também era inevitável esse processo na hora de colocá-los nas novas estantes, e ao fechar a última caixa notou que as prateleiras estavam praticamente vazias. Quase nada era de sua mãe e menos ainda herdara de seu pai. Com dificuldade, empilhou as quatro caixas no braço e desceu as escadas. Na pressa, não atinou que havia esquecido de vedá-las. Já na rua, depositou¬-as empilhadas na camionete e, olhando assim de frente o casarão, entrou no carro. Mal bateu a porta e sua esposa arrancou, indagando o porquê de ter demorado tanto sabendo que estava com pressa. Não respondeu. Seguiram para a avenida, e numa curva estreita, em função da velocidade, as caixas despencaram. Não mais alinhadas, os livros se espalharam pela caçamba, e um deles, por ocupar o topo, caiu para fora. Rodopiou três vezes e foi pousar na calçada. Ele quis parar para ver se estavam todos os livros ali, mas foi censurado pela esposa, e assim a camionete sumiu no horizonte. Caiu a noite e o livro permaneceu ali, enfiado em uns sacos de lixo amontoados na esquina.</p>
<p style="text-align: justify">Alguns dias depois, uma capa cor de mostarda um pouco suja e úmida destacava-se no meio de tanto negro. O mendigo, com pressa, despontou na outra esquina correndo em direção ao lixo: precisava ver se algo lhe servia antes que o caminhão da prefeitura passasse recolhendo a sujeira. Seu cão vinha atrás, manco, na velocidade que podia. Provavelmente havia brigado com outros cães de rua, pois sua perna inferior esquerda estava manchada de sangue seco e algumas moscas deliciavam-se na ferida exposta. O mendigo debruçou-se sobre o lixo apoiando-se na placa da esquina, e com a mão que lhe restara abria os sacos com violência. Restos de comida para o cão, um caixote de maçãs argentinas que lhe serviria de apoio, uma luminária quebrada e um brinquedo roto que poderia barganhar com os homens do mercado, uma escova de dentes totalmente gasta e, para seu completo espanto, um livro. Em todos os seus anos de esmiuçador de lixo nunca havia visto um livro assim, jogado ao relento. Que tipo de alma abandonaria um livro desse modo? Resolveu não questionar e depositou-o na sacola. De madrugada, com a parca luminosidade de um poste, deu uma olhada na disposição das letras, na formação das frases, tocou o título do livro em relevo, desfez algumas orelhas e cheirou-o enfim, mas talvez não fosse o cheiro de carne podre que esperava sentir. Fechou o livro com força e, no dia seguinte, trocou-o no mercado da cidade, junto com o brinquedo e a luminária, por um litro de cachaça.</p>
<p style="text-align: justify">O livro, posto na banca do mercado, tardou a vender. Era uma boa edição de um bom romance, mas talvez os possíveis clientes não gostassem do cheiro de lixo que exalava. Uma senhora, contra a vontade da filha, resolveu comprá-lo. Deixou alguns dias no sol, para que o cheiro saísse, e então pôde ter o prazer de ler o romance com calma, em seu ritmo. E em um mês inteiro a velhinha ocupou-se com ele, não que fosse grosso, mas ela gostava de atentar para detalhes. E por mais dois meses ele ficou parado, entre outros volumes, num móvel colonial, até que a velha sofresse um ataque cardíaco e os filhos doassem suas leituras. Em outra caixa, similar à primeira, o livro furta-cor agora era transportado para uma creche, onde nenhuma criança tinha maturidade suficiente para entendê-lo, e mesmo assim um jovem careca rebelde, sem esperanças de conseguir um novo lar, resolveu furtá-lo e metê-lo em sua sacola improvisada para uma fuga. E levou consigo a sacola, debaixo do braço, enrolada em um cobertor, alguma comida enlatada e outros itens que não convêm a ninguém. Enfim, livre, pôde deitar-se em um canto por sua própria conta, e só foi questionar se essa sua suposta liberdade realmente valia a pena nas altas da madrugada, enquanto cochilava debaixo do viaduto com outros foragidos. No dia seguinte, sem motivos, foi levado à delegacia e seus pertences foram confiscados. Um guarda desonesto caminhou o olhar pela sacola e achou prudente levar para sua casa o livro. Enfiou-o no carro e, findando a tarde, já em sua casa, resolveu arriscar-se na leitura. Na terceira tentativa ele desistiu, provavelmente devido à falta de conforto &#8211; o máximo que tinha era uma poltrona rasgada. Da casa do guarda, o livro continuou sua jornada, passando para outras mãos que prometeram devolvê-lo, e essas mãos passaram-no adiante para outras mãos furtivas, que também faziam promessas falsas, e o livro rodou por anos a fio, até que, por descuido ou por poesia, um menino de seis anos agarrou-o no ar para nunca mais soltar. Leu e releu a obra inúmeras vezes, o suficiente para que o odor de suas pequenas mãos se misturasse ao de outras tantas mãos que haviam o segurado previamente. E é por isso que o sujeito quando entra em um sebo, antes de comprar qualquer livro ele o cheira, sente a essência que lhe é transmitida e pensa que isso provém do próprio romance, mas não. Quem constrói essa fragrância não são as letras, como se pensa, mas justamente nós, os leitores. Comprado o livro, instintivamente seu aroma é guardado em alguma região de nosso cérebro que ainda não fora devidamente estudada, para mais tarde, quando reencontrá-lo numa esquina qualquer entre sacos de lixo, possa distinguir quantas mãos o tocaram, saber quantas pessoas foram influenciadas por um punhado de palavras sobrepostas e dizer que o livro jamais pertenceu a alguém, mas carrega consigo um pouco de cada leitor e deixa para os mesmos um pouco de si.</p>
<p style="text-align: justify"><a href="http://www.meiapalavra.com.br/showthread.php?tid=2773">COMENTE ESTE ARTIGO NO FÓRUM MEIA PALAVRA</a></p>
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		<title>Sobre pássaros que não se vêem e cachorros que fedem (2º lugar &#8211; I Concurso de Contos Meia Palavra)</title>
		<link>http://blog.meiapalavra.com.br/2009/04/15/sobre-passaros-que-nao-se-veem-e-cachorros-que-fedem-2%c2%ba-lugar-i-concurso-de-contos-meia-palavra/</link>
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		<pubDate>Wed, 15 Apr 2009 12:00:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Colaborador Meia Palavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meia Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[I Concurso de Contos Meia Palavra]]></category>

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		<description><![CDATA[Nesta quarta-feira, aniversário do blog Meia Palavra, publicamos outro conto que levou o segundo lugar, junto com A Velha do Carvalho publicado na semana retrasada, no concurso realizado no mês de fevereiro. O concurso foi idealizado pela Anica e os contos vencedores foram escolhidos pelos usuários do Fórum Meia Palavra. A seguir o segundo lugar, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-full wp-image-624" style="border: 0pt none;margin: 5px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2009/03/meiatwitter.jpg" alt="meiatwitter" width="100" height="100" />Nesta quarta-feira, aniversário do blog Meia Palavra, publicamos outro conto que levou o segundo lugar, junto com A Velha do Carvalho publicado na semana retrasada, no concurso realizado no mês de fevereiro. O concurso foi idealizado pela Anica e os contos vencedores foram escolhidos pelos usuários do<a href="http://www.meiapalavra.com.br"> Fórum Meia Palavra</a>.</p>
<p>A seguir o segundo lugar, Sobre pássaros que não se vêem e cachorros que fedem escrito pelo <a href="http://www.meiapalavra.com.br/member.php?action=profile&amp;uid=555">Wilson</a>.</p>
<p style="text-align: justify"><span id="more-738"></span>Deitavam-se na grama e contavam sapos voadores.</p>
<p style="text-align: justify">“Eu contei cinco”, dizia a menina.</p>
<p style="text-align: justify">“Aquele não conta”, respondia o menino. “Asas de morcego.”</p>
<p style="text-align: justify">“Mas ele voa.”</p>
<p style="text-align: justify">“Mas não é um pássaro.” Passou-se o silêncio, ele continuou: “é um roedor”.</p>
<p style="text-align: justify">As asas de penas multicoloridas brilhavam vividamente sob a luz do sol. Como vários arco-íris em espiral, brincando com a luz do sol em espectros improváveis e alucinantes. O menino e a menina, deitados na grama, a contarem sapos voadores.</p>
<p style="text-align: justify">O problema era que sapo não cantava como pássaro. O canto dos sapos voadores causava náusea e ânsia de vômito se escutado por muito tempo, a visão caleidoscópica de suas asas em constante movimento fazia seus olhos arderem. Não havia tempo para fazer uma recontagem. Era preciso tampar os ouvidos e sair correndo dali depois de algum tempo.</p>
<p style="text-align: justify">Os pais sempre acharam que os dois tinham um estômago fraco. Ao menos três vezes na semana, não era raro o casal Whitflower, ou Brimwitz, encontrar sua filha, ou filho, a vomitar o almoço recém ingerido. Cada uma das crianças ia ao médico pelo menos uma vez ao mês para exames. Nunca ninguém diagnosticou nada; receitavam qualquer coisa que acreditassem ser inofensiva para disfarçar a incapacidade de descobrir o que havia de errado com aquelas crianças. No começo os dois sentiam muita dor de cabeça por causa dos comprimidos. Com o passar do tempo, nem percebiam mais. Para fingir o efeito do remédio, com medo de serem pegos na mentira, diminuíam a freqüência do seu jogo em algumas épocas. Fingiam surtos em outras. Começaram com um comprimido por dia. Com o passar do tempo, eram de 4 a 6.</p>
<p style="text-align: justify">Por que eles não diziam a verdade? Provavelmente ninguém acreditaria, já que só eles conseguiam enxergar os sapos voadores (e outras coisas mais). Em pouco tempo eles descobriram isso. Ninguém mais via as coisas que eles viam. Depois de umas poucas tentativas fracassadas, resolveram que seria mais fácil manter o segredo. Desistiram das explicações ignoradas e aceitaram guardar aquilo só para eles. Contar sapos voadores era divertido demais para deixar um pouco de vômito atrapalhar.</p>
<p style="text-align: justify">E não apenas contavam sapos voadores. Só eles viam também os gatos flamejantes, tanto os azuis quanto os verdes. Apareciam no alto de algumas das pequenas colinas que rodeavam a cidade. Apareciam no instante exato em que a tarde dava lugar à noite. Eles sempre apareciam, um em cada colina, de pêlos arrepiados em chamas. Labaredas azuis (ou verdes) que brilhavam como fantasmas na penumbra. Eles miavam bem alto, arreganhavam os dentes, os encaravam de modo amedrontador por alguns instantes, e depois sumiam. E então, só no outro dia os veriam novamente. Eles gostavam da sensação, do susto provocado quando os gatos apareciam, e, principalmente, dos breves momentos de puro terror que experimentavam. E gostavam depois de comentar um com o outro.</p>
<p style="text-align: justify">Havia ainda uma terceira coisa. A favorita. A única que só acontecia nos fins-de-semana. Aos sábados e domingos, eles viam os pássaros invisíveis, o que pode parecer um paradoxo, mas na verdade fazia sentido.</p>
<p style="text-align: justify">&#8220;É como um pássaro, tem a forma de um pássaro, mas não é feito de nada.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify">&#8220;Tem que ser feito de alguma coisa&#8221;, o menino se remoia.</p>
<p style="text-align: justify">&#8220;Eu acho que é a alma de um pássaro&#8221;, dizia a menina, apertando os olhos contra o sol.</p>
<p style="text-align: justify">&#8220;Mas tem que ter alguma coisa para colocar a alma dentro, se não ela, ela&#8230;&#8221;, aqui o menino parou e pensou em qual seria sua próxima palavra, &#8220;espalha&#8221;, continuou, abrindo os braços no ar para enfatizar.</p>
<p style="text-align: justify">&#8220;Hummm”, ela fez, coçando o queixo e franzindo a testa.</p>
<p style="text-align: justify">Os pássaros não podiam ser vistos. Mas podiam ser ouvidos, e o seu canto era quente e doce. E se você prestasse atenção em seu som e tentasse segui-los, por puro instinto e intuição, em algum momento um deles passaria na posição correta entre você e o sol, e a luz iria incidir no ângulo preciso em sua penugem invisível, e você veria um grande e belo pássaro de luz.</p>
<p style="text-align: justify">Caso tivesse sorte e conseguisse passar a mão por algum deles (sim, podiam ser atravessados), ou até fazer com que um deles passasse por você, nos dias quentes era como uma brisa gelada de final de primavera, nos dias frios, era como um abraço quente de mãe.</p>
<p style="text-align: justify">Horas passavam admirando e brincando com esses estranhos e deslumbrantes seres fantásticos que apenas eles viam.</p>
<p style="text-align: justify">Tinham certeza de que eram reais. Nunca duvidaram disso. Aquele mundo existia e era só para eles. Todas as outras pessoas o desconheciam e continuavam a viver em seus mundos normais, sem jamais descobrir essas maravilhas. Primeiro eles não souberam o que fazer com isso. Com o passar do tempo, era só o que lhes interessava.</p>
<p style="text-align: justify">No outro mundo os gatos não pegavam fogo, os sapos não voavam, e era impossível de se avistar os pássaros invisíveis. Não havia nada que se comparasse em beleza e vida àquilo que eles experimentavam. E continuaram suas vidas fechadas nas miragens. Tudo o mais era uma tarefa enfadonha. O menino já não se importava com o resto do mundo. Amigos, pais, escola, nada era real. Não tão real quanto o mosaico alucinógeno dos sapos voadores, ou o deslumbre terrível dos gatos em chama, ou o canto intangível dos pássaros de luz. O menino tornou-se obcecado. Mais que visões, ele acreditava que aqueles seres estranhos guardavam algum tipo de verdade maior sobre o mundo, as pessoas e sobre si mesmo. Era só o que ele fazia: os estudava, os admirava, tinha longos debates com a menina, e, mais tarde, consigo mesmo. Os enjôos tornaram-se mais freqüentes. Seus pais aumentaram a dosagem das pílulas. O menino continuava esquivando-se das refeições para contar os sapos voadores. Ninguém mais o via nos fins-de-semana: estava caçando pássaros invisíveis.</p>
<p style="text-align: justify">Ele nem percebeu a primeira vez que a menina bocejou.</p>
<p style="text-align: justify">&#8220;Eu, honestamente, não sei se devemos manter a regra da asa de morcego&#8221;, resmungou o menino sentado na grama. &#8220;Ele voa do mesmo jeito.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify">Deitada ao seu lado, a menina abriu a boca largamente e a tampou com a mão.</p>
<p style="text-align: justify">Os dias passaram.</p>
<p style="text-align: justify">&#8220;A gente tem que ver os gatos de novo?&#8221;, ela indagou. &#8220;A gente podia tomar sorvete, tá calor.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify">&#8220;Eu acredito sinceramente que os miados não são apenas miados&#8221;, ele retrucou sem nem ter dado atenção à pergunta. &#8220;Eles estão querendo dizer alguma coisa.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify">Mais dias se passaram. A menina não brincava mais com ele.</p>
<p style="text-align: justify">Por muito tempo ele não ligou. Continuava mais interessado em seus animais proféticos. Até aquela fatídica tarde de outono. Dispensou o almoço e foi deitar-se no gramado. Passaram-se horas e nenhum sapo apareceu. Foi atrás dos pássaros invisíveis no bosque, mas eles não estavam lá. À noite, nenhum gato flamejante subiu nas colinas. Voltou no dia seguinte, e nada. E no outro dia, e mais nada. E assim, ele nunca mais viu nenhum deles. Com o tempo, entristeceu. Depois, adoeceu.</p>
<p style="text-align: justify">Passava os dias em casa sem vontade de fazer nada. Ignorava a escola, os amigos, os pais. Sentia-se deprimido. Não via mais graça em nada, não ria, não falava. A alegria dos pais pela interrupção dos enjôos constantes foi logo substituída pela preocupação com a febre que o assolava. Nesse ínterim, o menino descobriu do que realmente sentia falta: da menina. Sentia falta de suas conversas, de suas piadas, sentia falta de quando ela segurava sua mão toda vez que viam um gato, flamejante ou não. O menino passava dias inteiros em sua cama, sem forças para fazer qualquer coisa que não fosse ficar deitado, perguntando-se para onde foram os pássaros de luz, por que a menina não o visitava mais.</p>
<p style="text-align: justify">Os comprimidos deixaram de ser brancos e tornaram-se azuis, vermelhos, verdes&#8230; Um pequeno arco-íris em seu criado-mudo. Lembravam pequenas balas, mas eram amargas, e lhe faziam mal. Agora ficava enjoado o tempo todo, tinha diarréias e parecia um pequeno esqueleto de oito anos de idade. Não conseguia comer nem dormir. Seus olhos deram lugar a duas cavidades profundas e escuras. Sua mãe chorava constantemente. Seus dedos se tornaram tão frágeis quanto gravetos. Seu pai não entrava mais no quarto. Pensavam em interná-lo, mas não tinham coragem. O menino, quando acordado, miava o tempo inteiro.</p>
<p style="text-align: justify">A menina soube. Curiosa com a ausência do menino na escola, resolveu investigar. Foi correndo à sua casa. Quando o viu na cama, não conteve o susto. Custava a acreditar que aquele corpo quase cadavérico era o mesmo que corria com ela pelos bosques e praças, o mesmo que, quando abraçava, parecia ser uma extensão do seu. Com os pés juntos, a passos curtos, aproximou-se da cama, mirando o amigo com os olhos esbugalhados e úmidos.</p>
<p style="text-align: justify">&#8220;Sua mãe disse que você não pode ir mais para a escola.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify">O garoto não respondeu, continuava encarando o teto e nem parecia perceber a presença da menina.</p>
<p style="text-align: justify">&#8220;Eu queria falar com você mas não te achei.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify">Silêncio.</p>
<p style="text-align: justify">&#8220;Eu vi um cachorro amarelo ontem, tinha cabeça de duende e falava que nem peixe.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify">O menino suspirou e disse finalmente: &#8220;eu não vejo mais nada”.<br />
&#8220;Eu posso te mostrar.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify">&#8220;Eu não quero ver o cachorro amarelo.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify">A menina parou, e continuou: &#8220;ele é bem feio na verdade, e fede.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify">O menino riu, e ela riu também, e logo os dois riam juntos. Uma risada infantil e sem razão, da que se ri apenas por rir.</p>
<p style="text-align: justify">Não demorou muito para que o menino melhorasse. Aos poucos foi ganhando cor e sustância. Aos poucos recuperou o brilho dos olhos. A menina o visitava todos os dias. Conversavam e brincavam de adivinhação. Depois que o médico deu sua permissão, ela passou a levar sorvete para ele. Aqueles foram os dias mais felizes de suas vidas.</p>
<p style="text-align: justify">Não demorou muito para que o menino morresse.</p>
<p style="text-align: justify">A menina nunca mais viu os sapos voadores, ou os gatos flamejantes, ou os pássaros invisíveis, mas, durante o resto de sua vida, foi seguida pelo cachorro amarelo, que tinha cabeça de duende, falava que nem peixe, e fedia.</p>
<p style="text-align: justify">
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		<title>A Velha do Carvalho (2º lugar &#8211; I Concurso de Contos Meia Palavra)</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Apr 2009 12:12:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Colaborador Meia Palavra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Meia Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[A Velha do Carvalho]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Fórum Meia Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[I Concurso de Contos Meia Palavra]]></category>

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		<description><![CDATA[Neste 1º de Abril, quarta-feira, apresentamos um dos 2º colocados no I Concurso de Contos Meia Palavra. Ao todo três contos ficaram empatados com o mesmo número de votos. Os usuários do Fórum Meia Palavra votaram em seu conto favorito, sem saberem os autores, e o anonimato foi mantido até o final da votação. A [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify"><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2009/03/meiatwitter.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-624" style="border: 0pt none;margin: 5px" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/2009/03/meiatwitter.jpg" alt="meiatwitter" width="100" height="100" /></a>Neste 1º de Abril, quarta-feira, apresentamos um dos 2º colocados no I Concurso de Contos Meia Palavra. Ao todo três contos ficaram empatados com o mesmo número de votos. Os usuários do <a href="http://www.meiapalavra.com.br">Fórum Meia Palavra</a> votaram em seu conto favorito, sem saberem os autores, e o anonimato foi mantido até o final da votação.</p>
<p style="text-align: justify">A seguir o segundo lugar, <em>A Velha do Carvalho</em> escrito pelo <a href="http://www.meiapalavra.com.br/member.php?action=profile&amp;uid=648">Vail</a>.</p>
<p style="text-align: justify">
<p style="text-align: justify"><span id="more-697"></span></p>
<p style="text-align: justify">Amanda estava lavando louça. Ela morava numa pequena fazenda e tinha doze anos. A casa de madeira em que morava era bastante grande. A madeira fora retirada dali mesmo, do Bosque dos Carvalhos, o que dava um cheiro todo especial à casa.</p>
<p style="text-align: justify">O pai quase nunca saía da pequena, mas próspera, fazenda. Entretanto neste dia em especial teve mesmo de sair. A época da colheita se aproximava e ele tinha coisas a resolver na cidade.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda não lembrava da mãe. O pai não gostava de falar dela, ficava bravo. Bateu muito nela na ultima vez que perguntou pela mãe: “- Não quero você falando dela nunca mais, ouviu?”</p>
<p style="text-align: justify">A imagem das lágrimas escorrendo pelo rosto quente e vermelho, como um pimentão, do pai enquanto ele girava sua cinta no ar ainda era viva em sua lembrança. Também era viva a lembrança da dor que lhe ardeu em finas marcas vermelhas na pele das costas durante vários dias.</p>
<p style="text-align: justify">O pouco que Amanda soube da mãe ouviu por detrás das portas ou atrás dos muros. Como naquele dia antes de ela completar dez anos, numa ocasião em que Tia Clara, irmã mais velha de seu pai, os visitava:</p>
<p style="text-align: justify">- &#8230;ela já está para fazer anos de novo, Ben, vai fazer dez. Como florescem rápido nossos filhos, não é? Se for verdade a história que contam por ai Benjamim, já deve ser hora de resguardar Amanda. Mande-a para viver comigo.</p>
<p style="text-align: justify">- Não acredito que tenha verdade nestas histórias de maldição, Amanda está fora disso.</p>
<p style="text-align: justify">- Você quer esperar até que aconteça também a Amanda o que houve com a mãe dela? Ouvi falar que ela encontrou a Voz antes da idade de Amanda. Dizem que isso aconteceu com toda a família dela. Isso é verdade?</p>
<p style="text-align: justify">- Você sabe que é invenção da família de Eleanor, aquele bando de simplórios supersticiosos. Não me aborreça e não fale disso novamente. Se alguém do Bispo a ouve falar o nome de Eleanor ou no que ela se tornou, será punida. Você sabe qual é o castigo que os contadores de histórias receberam, não sabe?</p>
<p style="text-align: justify">Eleanor, assim conheceu o nome da sua mãe. Foi a primeira vez que ouvira e também a última. Nunca soube nada dela nem tampouco encontrou nenhum parente do lado materno para perguntar algo.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda freqüentava a escola de ofícios de manhã, onde aprendia a tecer, esta seria sua profissão para o resto da vida. Ela não sentia entusiasmo nisso.</p>
<p style="text-align: justify">Lavou a louça e começou a fazer comida para que houvesse algo quente para o pai quando chegasse.</p>
<p style="text-align: justify">Ela pôs a cabeça na janela quando ouviu uma voz chamando de fora e viu que uma senhora, bem idosa e maltrapilha que chamava. Lembrou-se de que seu pai a proibira de abrir a porta para estranhos e de falar com algum quando estivesse sozinha. Ela pensou que a velhinha era inofensiva e parecia ter fome e sede. Não haveria mal algum em ajudá-la. Separou um pouco de comida e um pouco do leite que sobrara do café da manhã.</p>
<p style="text-align: justify">Quando estendeu o embrulho à velhinha sentiu um calafrio desagradável ao ver na sua boca os restos enegrecidos dos dentes e outros tantos espaços vazio.</p>
<p style="text-align: justify">Mas ainda assim o sorriso da mulher era caloroso e sincero.</p>
<p style="text-align: justify">- Obrigado criança &#8211; disse a anciã- que o grande Deus de sua casa abençoe a bondade que me fazes e que nunca venha a precisar de favor igual.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda apenas sorriu e voltou para dentro da casa alegre, mas rapidamente.</p>
<p style="text-align: justify">Não contaria ao pai o que fizera, não por ser algo ruim, sabia que não era, mas por que ele com certeza brigaria por ela ter falado com a senhora estranha na ausência dele.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda ia para a escola caminhando pelo Bosque dos Carvalhos. Ela saía logo de manhã e gostava de observar como, conforme o sol ia subindo no céu, as sombras das árvores, diminuíam no chão. Gostava de ver como a luz do sol desenhava cortinas bordadas das mais finas e leves quando vazava pelas folhas das árvores e irradiava na tênue neblina. Um dia Amanda encontrou a senhora a quem dera comida sentada ao pé de um carvalho enorme no bosque. Nos primeiros dias não falou com a mulher, a observava de longe.</p>
<p style="text-align: justify">A velha usava um vestido que parecia mais um enorme trapo de várias cores, seu cabelo era tão branco que parecia jamais ter tido outra cor. Sua pele era tão enrugada que parecia terra seca trincada pelo sol.</p>
<p style="text-align: justify">Ela não tinha muitas coisas. Tudo que tinha cabia numa pequena carroça que seu burrinho que pastava ao longe puxava talvez sem grande esforço. Havia também um gato preto de olhos dourados e um pequeno baú.</p>
<p style="text-align: justify">Às vezes a velha cozinhava num pequeno caldeirão enegrecido pela fuligem numa fogueira que ficava num circulo de pedras, noutras ocasiões ficava parada, aninhada numa das grossas raízes do carvalho olhando fixamente o nada.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda habituara-se a naquelas semanas sempre observar por algum tempo a anciã moradora do Bosque dos Carvalhos. Num dia, porém, surpreendera-se quando, ao espreitar, não encontrou a onde costumava estar.</p>
<p style="text-align: justify">Com todas as coisas dela ali, a velha apenas deveria ter ido dar uma volta. E apesar de saber que ela não tardaria Amanda resolveu olhar de perto o refugio montado aos pés do carvalho.</p>
<p style="text-align: justify">O pequeno caldeirão cozinhava um ensopado de legumes e carne de coelho. Da fresta da tampa subia uma fumaça suave com cheiro de ervas, alecrim e manjericão. Amanda cheirou o vapor e imaginou como era possível cozinhar algo tão bom em tão precárias condições. Ela pegou um pouco de manjericão que estava numa mesinha improvisada perto do fogo e colocou um pouco no caldeirão.</p>
<p style="text-align: justify">A maneira como a colcha de retalhos que a mulher usava para dormir estava estendida no chão era curiosa. Sobre uma grossa camada de folhas secas e entre duas fortes e grossas raízes e com a enorme árvore na cabeceira a cama da velha parecia um leito digno dos mais nobres.</p>
<p style="text-align: justify">Nas duas ramificações da raiz que passava ao largo da cama improvisada, a velha equilibrou pequenos objetos, que Amanda observou cuidadosamente, tomando o máximo cuidado para deixá-los na posição em que os encontrou.</p>
<p style="text-align: justify">Havia um pequeno e ornamentado baú e viu que dentro havia vários embrulhos. Achou que eram caixinhas, mas não eram. Pegou um deles, abriu e viu que tinha uma capa de couro e folhas de papel. Havia figuras em algumas das folhas e nas outras coisas que pareciam números, mas não eram.</p>
<p style="text-align: justify">- Parece que gostaste do meu livro &#8211; disse a velha que apareceu como por encanto ao lado de Amanda.</p>
<p style="text-align: justify">- Desculpe, por favor&#8230; Eu não ia pegar nada das suas coisas, juro! &#8211; disse gaguejando e assustada.</p>
<p style="text-align: justify">- Oh, não tem nada, menina.</p>
<p style="text-align: justify">- Me perdoe, eu sei que não devia estar aqui nem xeretando suas coisas.</p>
<p style="text-align: justify">- E ontem? E antes de ontem? E durante a semana passada inteira? Também não deverias estar aqui nestes dias? &#8211; disse a senhora rindo &#8211; Venho te observando a observar-me e tenho aguardado com ansiedade a ocasião em que viria falar comigo.</p>
<p style="text-align: justify">- É que meu pai não gosta que fale com estranhos.</p>
<p style="text-align: justify">- Há muito tempo me observas e me acompanhas de longe. Lembro-me igualmente da ocasião em que me destes, com gesto de grande generosidade em tempos tão difíceis, aquele prato de comida e o leite. Como podes considerar-se ainda uma estranha a mim ou eu uma estranha a você? Tomará do guisado de coelho que ajudou a temperar?</p>
<p style="text-align: justify">- Não obrigado. Tenho pressa em voltar para casa, meu pai me espera.</p>
<p style="text-align: justify">- Como disse, vejo que gostaste do meu livro &#8211; disse a velha estendendo-lhe um prato fumegante &#8211; Sabes ler?</p>
<p style="text-align: justify">- O que é isso?</p>
<p style="text-align: justify">- Vejo que não sabes e isso é um livro, criança. Um bem antigo, mas que nunca canso de ler por que sempre tem histórias novas que eu mesma faço.</p>
<p style="text-align: justify">- E pra que serve?</p>
<p style="text-align: justify">A velha pensou alguns instantes e riu, mostrando seus dentes ausentes e outros tantos podres:</p>
<p style="text-align: justify">- Me pegaste agora. É algo tão simples, mas tão difícil de explicar. Deve ser porque me é tão natural.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda olhou a velha de uma maneira que não precisou falar a pergunta.</p>
<p style="text-align: justify">- Sentes o cheiro do ar que respira? Decerto que não. Mas já sentiste, quando o ar lhe era novidade sentiras seu sabor. Assim acontece-me agora, como falar de maneira simples de algo que me é tão comum como respirar? Disse a velha oferecendo um prato.</p>
<p style="text-align: justify">A aparência da mulher alertara a prudência de Amanda a não comer daquele guisado, mas o cheiro era bom e doce e ela viu que não precisava recusar.</p>
<p style="text-align: justify">- Mas o que são essas coisas esquisitas? Que tipo de números são estes? Nunca os vi.</p>
<p style="text-align: justify">- Isto são letras. É diferente dos números que lhe ensinam na escola. Tenho pena de vocês crianças que não aprendem mais a ler palavras.</p>
<p style="text-align: justify">- Como podem ser estas coisas palavras?</p>
<p style="text-align: justify">- Sim palavras, juntas formam frases e quando houver mais ainda, pensamentos.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda não conseguia entender, aquilo era impossível. Na escola de ofícios lhe ensinavam os números e sua profissão de tecelã. Disseram que isso era tudo que havia de importante. Como poderia haver sons e palavras ali naquelas folhas, além, é claro, dos sons dos números?</p>
<p style="text-align: justify">Amanda virou o livro em várias posições, mas não conseguiu uma forma de decifrá-lo. A velha achou graça e disse.</p>
<p style="text-align: justify">- Querida, ler é uns dos maiores dons que podes conseguir em sua existência. Podes ter várias vidas no espaço de tempo de sua vida, eu, por exemplo, sou muito, mas muito mais velha do que o muito que já aparento, pois já vi, vivi e acompanhei muitas vidas diferentes da minha própria. E foram muitas.</p>
<p style="text-align: justify">A mulher colocou mais algumas ervas no caldeirão e vendo o interesse da menina, continuou:</p>
<p style="text-align: justify">- Poderás também, criança, viajar para lugares distantes e fantásticos mesmo estando aqui, no Bosque dos Carvalhos. Podes ainda amar louca e apaixonadamente e provar do beijo e provar dos abraços mesmo ainda pura e casta como és; virgem.</p>
<p style="text-align: justify">Ficaram em silêncio a menina e a velha durante muito tempo. A velha cozinhava. Depois de mais tempo ainda Amanda perguntou.</p>
<p style="text-align: justify">- Senhora, como aprendo isso a que chama de “ler”?</p>
<p style="text-align: justify">- Terás coragem?</p>
<p style="text-align: justify">- Sim.</p>
<p style="text-align: justify">- Então proponho algo, se me quiseres ouvir- disse olhando-a de soslaio, obliquamente como uma velha gata dissimulada, para a menina que mantinha o livro aberto na mão.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda ainda estava tentando compreender o que a mulher dissera. Como seria possível conter tudo aquilo naquele livro? Seria ela era uma bruxa ou simplesmente uma louca?</p>
<p style="text-align: justify">-Te ensino a ler &#8211; continuou a velha- que implica te ensinar a escrever necessariamente, se tu trouxeres para mim comida, pois já não tenho forças ou saúde, como podes ver, para conseguir sozinha tudo do que preciso.</p>
<p style="text-align: justify">A velha tirou a tampa do pequeno caldeirão de onde subiu uma coluna rodopiante de vapor, pegou uma colher e provou, com muito barulho, como uma criança tomando sopa.</p>
<p style="text-align: justify">- Ler, é isso te ofereço &#8211; falava a velha rápido enquanto andava de um lado para o outro _ Darei não só a visão desta terra que vegeta com força, mas também a de outras em que o frio cobre de branco toda a terra e a mata e o mar com a neve branca e macia como a clara do ovo que você bate até espumar.</p>
<p style="text-align: justify">Enquanto falava olhava com o canto dos olhos para ver a reação da criança. A fitava nos olhos bem fundo, e soube que podia continuar a tentá-la.</p>
<p style="text-align: justify">Pegou mais algumas folhas, picou-as com os dedos calejados e jogou na panela a erva. Provou do aroma que este emprestara a comida. Seus olhos se fixaram num ponto vago e seguiram a coluna de vapor que subia pela copa do carvalho para depois escorrer para cima por entre as folhas e galhos. Depois, pelas brechas da ramagem, a velha, com seus olhos opacos, contemplou o céu angustiosamente azul e continuou a falar.</p>
<p style="text-align: justify">- Esse mundo e muitos outros mais. As estrelas e o sol, verás não só o momento em que nascem, mas presenciará suas mortes.</p>
<p style="text-align: justify">- Desculpe, Senhora, não entendo o que oferece. Algo assim não existe, se existisse decerto já saberia ou teria ouvido falar, pois já tenho idade para saber das coisas. Ou ainda qualquer outra pessoa das que conheço saberia.</p>
<p style="text-align: justify">- Dê esse livro, vou mostrar do que falo e entenderás o que digo- e a velha começou a fazer aquilo que ela chamava de “ler” para Amanda.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda, que ainda se sentia insegura ali, na mata com aquela mulher velha e feia, parecendo uma bruxa; que olhava ao redor explorando os objetos exóticos e estranhos da velha; que achava que a mulher louca agora falava sozinha; foi aos poucos perdendo a noção das coisas ao redor.</p>
<p style="text-align: justify">Não havia mais nada, o vento nos carvalhos do Bosque dos Carvalhos cessou, também os ruídos dos animais e o crepitar do fogo, tudo cessou quando a velha falou numa voz que parecia não ser dela. De repente nem a velha estava ali, nem Amanda. Apenas a voz permanecia.</p>
<p style="text-align: justify">A voz que desenhava imagens e lugares e sons e bichos e pessoas na mente de Amanda. A voz que falava sobre heróis e dragões, sobre amor e espadas, sobre lágrimas e sede, sobre vida e morte.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda passou a visitar o refugio todos os dias. Ela levava muita coisa que seu pai produzia na pequena fazenda, na maioria das vezes legumes e verduras e ovos. Os levava de manhã, e na volta da escola sentava numa das raízes da árvore enquanto a velha os preparava para depois pacientemente, lhe ensinar a ler e escrever. Uma letra por vez, um som por vez.</p>
<p style="text-align: justify">Um dia Amanda percebeu que chamava a velha apenas assim, de velha.</p>
<p style="text-align: justify">- Qual é o seu nome, senhora?</p>
<p style="text-align: justify">- Meu nome? Faz tempo que não o digo a ninguém. Se houvesse perguntado como me chamam ou como me chamo, diria: “Me chamam de velha simplesmente, pois já sou velha há muito tempo, mas há aqueles que me chamam de Voz”. Mas como perguntou pelo meu nome digo que descobri infelizmente que o esqueci há muito tempo. Por tanto tempo que passei a escondê-lo, e escondi tão bem, que também o acabei perdendo.</p>
<p style="text-align: justify">- A chamam de Voz?</p>
<p style="text-align: justify">- Sim, tem algo a ver com ser uma contadora de histórias.</p>
<p style="text-align: justify">- Você conheceu a minha mãe? Eleanor?</p>
<p style="text-align: justify">- Eleanor? Ah sim. Conheci realmente, e neste mesmo Bosque dos Carvalhos a ensinei a ler, como fiz contigo. Mas depois, nunca mais a vi.</p>
<p style="text-align: justify">- Então não sabe o que houve com ela?</p>
<p style="text-align: justify">- Ela como você, aprendeu a ler, mas se tornou como eu. Ser uma contadora de histórias é uma benção que se recebe, mas pode ser uma maldição quando não há ninguém para ouvir o que temos para contar. Mas não foi isso que ocorreu_ continuou a mulher. _ Um dia, depois que já lhe havia ensinado tudo que sabia, ela apareceu aqui, neste mesmo carvalho e me pediu para ir embora imediatamente, fugir, pois viriam atrás de mim. É só o que sei.</p>
<p style="text-align: justify">Os dias foram se seguindo, Amanda era inteligente e aprendia rápido. O pai não notava sua ausência naquelas tardes, a fazenda estava em época de colheita do milho e da tosa das ovelhas preparando-as para o verão.</p>
<p style="text-align: justify">De letra em letra em poucas semanas Amanda construiu palavras e delas frases curtas e gaguejadas. Ela usava para escrever os blocos de contas matemáticas que usava nas aulas de oficio, a coisa mais parecida com um caderno que pôde conseguir.</p>
<p style="text-align: justify">Depois de algum tempo a velha emprestou-lhe livros para que levasse para casa, mas com a condição de não mostra-los a ninguém.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda levou um livro para casa, depois outro e mais outros, sempre mantendo o maior cuidado para que o pai não os visse. Lia durante as madrugadas, no celeiro à luz de uma lamparina, no sótão só quando a vontade era muita e o pai não estava perto.</p>
<p style="text-align: justify">Certo dia a velha estava quieta, sentada na raiz do carvalho, rabiscando no chão com uma varinha quando disse:</p>
<p style="text-align: justify">- Não há mais nada a te ensinar. Já lês bastante bem, quase tão bem quanto eu. Em breve não precisarás mais de mim.</p>
<p style="text-align: justify">- A senhora é bondosa comigo, e malvada consigo dizendo essas coisas.</p>
<p style="text-align: justify">- Mas é verdade. De qualquer forma, o clima aqui já não me é tão propicio. As pessoas do vilarejo estão desconfiadas de minha presença e de minhas motivações e deixaram de ser amistosas.</p>
<p style="text-align: justify">- Você quer dizer que vai embora?</p>
<p style="text-align: justify">- Sim, amanhã. Novamente para algum lugar em que não me conheçam. Mas tenho um presente para você antes de ir. Aqui tem um livro especial.</p>
<p style="text-align: justify">- Obrigado- disse Amanda &#8211; mas tem algo errado, as paginas dele estão em branco.</p>
<p style="text-align: justify">- É porque elas têm de ser assim, brancas. Você já leu todos os livros que tenho comigo. Não há mais nada aqui para você ler. Terás o poder, e o prazer, de escrever seus próprios livros.</p>
<p style="text-align: justify">- Volte um dia para que eu leia em voz alta para você.</p>
<p style="text-align: justify">- Não há como prometer. Mas, criança tenha cuidado &#8211; continuou a velha. &#8211; Você sabe o que aconteceu aos livros e escritores e todos os contadores de histórias não sabe?</p>
<p style="text-align: justify">- Sim, agora sei. Ouvi meu pai conversando outro dia. Os livros foram queimados e seus escritores executados por ordem da Igreja, assim como os contadores de histórias. Diziam que escrever é um vicio que não cessa, e se é escritor nunca se poderá ser outra coisa. Mas só não sei o porquê aconteceu e nem papai pareceu saber.</p>
<p style="text-align: justify">- Já faz muito tempo e todos esqueceram o que provocou essa desgraça. Ninguém mais sabe, mas ainda sobrou a perseguição e o silêncio. Só tome cuidado. Criança&#8230; vou sentir sua falta.</p>
<p style="text-align: justify">- Eu também sentirei a sua, minha velha senhora &#8211; disse não podendo evitar que descessem lagrimas e virou para o bosque para que a velha não a olhasse no rosto.</p>
<p style="text-align: justify">Nesse dia Amanda chegou mais tarde do que de costume em casa. Seu pai estava esperando bastante preocupado. Ela se desculpou, subiu para o quarto onde tirou o livro de dentro da blusa e o guardou embaixo do colchão. Em seguida correu ao galinheiro para pegar ovos para a ceia.</p>
<p style="text-align: justify">Quando voltou, ainda na porta da cozinha, com a cesta de ovos nos braços levou tamanho susto que a deixou cair e quebraram todos os ovos no chão. O pai estava parado no meio da cozinha, o livro aberto em cima da mesa enquanto ele o olhava à distância, aparentemente sem coragem de chegar perto.</p>
<p style="text-align: justify">- Amanda. O que é isso?</p>
<p style="text-align: justify">- Pai eu..</p>
<p style="text-align: justify">- Ingrata! &#8211; gritou o pai sem esperar resposta desferindo um tapa no rosto da filha &#8211; Você puxou a família da sua mãe, aqueles malditos. Como pude ser tão idiota?</p>
<p style="text-align: justify">- Pai..</p>
<p style="text-align: justify">- Deixei que acontecesse com você exatamente o que aconteceu com sua mãe- o homem chorava compulsivamente, andava em círculos. A menina mantinha a cabeça baixa.</p>
<p style="text-align: justify">- Você pode imaginar como foi difícil para mim, Amanda? Pode? Tive que entregar sua mãe à Inquisição dos livros para garantir que nos deixassem em paz, a mim e a você. E agora isso!!</p>
<p style="text-align: justify">- O que pai? O que você fez?- Amanda esqueceu do medo e segurou o pai pela manga da camisa- O que você fez à minha mãe?- disse entre os dentes pausadamente.</p>
<p style="text-align: justify">- Não me olhe assim&#8230; Não me olhe assim&#8230; &#8211; empurrando a filha para longe. &#8211; A haviam descoberto. Se eu não tivesse feito isso nossa casa teria sido incendiada com a gente dentro. Oh Deus! Agora vou ter que entregar você também!</p>
<p style="text-align: justify">- Pai você não precisa fazer isso, não precisa- disse a menina, chorando.</p>
<p style="text-align: justify">- Onde foi que você encontrou a Voz? Como ela é?- chacoalhou a menina pelos braços, mas vendo que ela não iria dizer jogou-a ao chão_ Suba para seu quarto e fique lá até que te mande descer. A menina pegou o livro da mesa e correu.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda da janela do quarto pode ver a chegada do bispo. Viu também os grupos de caça saindo e à noite pode ver o brilho das tochas se movimentando no Bosque dos Carvalhos. Seu coração se encheu de tristeza e, logo depois, de coragem: Iria avisar a velha!</p>
<p style="text-align: justify">No caminho precisou se esconder dos caçadores e dos cães de caça. Chegou perto da clareira do refugio no momento em que os caçadores prenderam a velha.</p>
<p style="text-align: justify">A frágil velha estava com uma corda amarrada às mãos. Ela, cansada, caia no chão e era arrastada pelo possante cavalo, então recebia vários golpes de chutes e porretes. Os cães a mordiam e não paravam de mordê-la em seus calcanhares nem quando, com dificuldade, levantava. A arrastaram para o Bispo e Amanda viu, de longe ainda, quando os caçadores fizeram à velha se ajoelhar aos pés do homem da Igreja.</p>
<p style="text-align: justify">O Bispo disse alguma coisa a velha, que não lhe respondeu, ele então cuspiu nela e ordenou aos caçadores que a levassem.</p>
<p style="text-align: justify">Os caçadores gritavam e urravam como se estivessem fazendo algo glorioso. Empurraram então algo asqueroso na boca da velha com o porrete e passaram uma corda ao redor do pescoço dela.</p>
<p style="text-align: justify">Os caçadores jogaram a corda por cima de um galho e puxavam. O Bispo, tão perto da velha que os pés dela o chutavam involuntariamente na agonia, gritava:</p>
<p style="text-align: justify">- Poderoso Deus dos homens, reconheça a alma impura desta contadora de histórias por estes ratos mortos putrefatos que ela leva na boca. Não a deixe pisar em teus reinos e expulse-a das portas do paraíso direto ao fogo do inferno quando sentir o cheiro.</p>
<p style="text-align: justify">Depois do clamor o Bispo pediu aos caçadores que a cobrissem a velha com óleo, mesmo enquanto ainda se movia, e a incendiassem com as tochas.</p>
<p style="text-align: justify">- Guarde um pouco do óleo &#8211; disse o Bispo. Cansei daquela família amaldiçoada da fazenda. Hoje daremos um fim nesta história de perdição de uma vez por todas.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda saiu dali, engatinhando de costas, deixando um rastro de lágrimas.</p>
<p style="text-align: justify">Decidiu ir embora e não voltar nunca mais. A seu pai não restava esperanças. Não havia tempo de avisá-lo, mas mesmo que tentasse provavelmente ele a entregaria para tentar aplacar o Bispo.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda voltou ao refugio, os pertences da velha ainda estavam todos lá. O gato preto de olhos dourados saiu miando de uma moita quando a viu. Ela pegou o baú e as pequenas coisas e arrumou-os na pequena carroça. Passou o arreio no burrico e saiu do Bosque dos Carvalhos o mais rápido que pôde para qualquer lugar.</p>
<p style="text-align: justify">Ao longe se via um clarão enorme rompendo a madrugada vindo do lugar onde seria a casa onde morava.</p>
<p style="text-align: justify">- Vão me procurar durante algum tempo quando não me acharem no quarto, se é que procuraram antes de atear fogo na casa.</p>
<p style="text-align: justify">Amanda estava longe quando amanheceu. Fazia frio e o gato preto de olhos dourados dormia enrolado ao lado dela enquanto o burrico já puxava sem pressa.</p>
<p style="text-align: justify">Estava à procura de um lugar onde ninguém a conhecesse e onde os agora seus livros seriam bem-vindos.</p>
<p style="text-align: justify">Tirou o livro em branco de dentro da blusa e pensou:</p>
<p style="text-align: justify">&#8220;_Preciso ir para o mais longe que puder e viver escondendo meu nome, mas juro por Deus que não vou esquecê-lo.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify">
<p style="text-align: justify"><a href="http://www.meiapalavra.com.br/showthread.php?tid=2629">DISCUTA ESSE ARTIGO NO FÓRUM MEIA PALAVRA</a></p>
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