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	<title>Meia Palavra &#187; Entrevista</title>
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	<description>O prazer de uma palavra e meia em Meia Palavra.</description>
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		<title>10 perguntas e Meia para Daniel Waters</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Aug 2009 17:45:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Anica</dc:creator>
				<category><![CDATA[10 perguntas e meia]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Daniel Waters]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Estrangeira]]></category>
		<category><![CDATA[Zumbis]]></category>

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		<description><![CDATA[Daniel Waters é autor dos livros Generation Dead e Kiss of Life, uma série sobre zumbis que (infelizmente) ainda não tem tradução no Brasil.  Apesar de não divulgar por aí informações básicas como local e data de nascimento, o escritor é bastante aberto ao contato com os  leitores, mantendo um blog constantemente atualizado com informações [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/wp-content/uploads/2009/08/generationdead.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-2843" style="border: 0pt none; margin: 5px;" title="generationdead" src="http://blog.meiapalavra.com.br/wp-content/uploads/2009/08/generationdead.jpg" alt="" width="200" height="300" /></a>Daniel Waters é autor dos livros <em><a title="generation dead" href="http://blog.meiapalavra.com.br/2009/06/28/zumbis-na-literatura/" target="_blank">Generation Dead</a></em> e <em>Kiss of Life</em>, uma série sobre zumbis que (infelizmente) ainda não tem tradução no Brasil.  Apesar de não divulgar por aí informações básicas como local e data de nascimento, o escritor é bastante aberto ao contato com os  leitores, mantendo um <a title="daniel waters" href="http://watersdan.blogspot.com/" target="_blank">blog</a> constantemente atualizado com informações sobre o processo de escrita de seus livros.  Então, torcendo para que <em>Generation Dead</em> chegue logo em português por aqui, é com muito orgulho que trazemos para vocês nosso primeiro 10 perguntas e Meia internacional. Por questão até de clareza publicaremos a tradução da entrevista junto com o original. A tradução é de Gabriel O. Brum (o <a title="tilion" href="http://blog.meiapalavra.com.br/author/tilion/" target="_blank">Tilion</a>).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>1. Livros e filmes de zumbi normalmente passam uma ideia de crítica à nossa sociedade. Quando você escreveu Generation Dead, você estava pensando em algo mais do que uma história de horror?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Sim, com certeza. Ou pelo menos em tipos diferentes de histórias de horror.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2. Qual é sua opinião sobre essa febre de livros de vampiros para adolescentes? Teve algum que você já leu e gostou?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Acho que a febre pelos vampiros é ótima, especialmente porque ela levou de maneira bem natural a uma febre por zumbis.</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade não li nenhum dos livros de vampiros para adolescentes mais recentes.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-1331"></span><strong>3. Quais são seus filmes de zumbi favoritos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">The Stepford Wives [no Brasil, Mulheres Perfeitas/As Possuídas] e Invasion of the Body Snatchers [Vampiros de Alma] (gosto mais do original). Se preferir o gênero mais tradicional, com Romero não tem erro, mas meu favorito sempre foi Return of the Living Dead [A Volta dos Mortos-Vivos].</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>4. Que outros livros você recomendaria para alguém que já leu Generation Dead e Kiss of Life?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Hm. Acho que depende se os leitores gostaram deles ou não!</p>
<p style="text-align: justify;">Acredito bastante na variação entre gêneros. Se os últimos vinte livros que você leu foram sobre vampiros, zumbis e elfos, dê um tempo e leia algum tipo de ficção realista. Ou mesmo não-ficção. Misture os gêneros.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>5. Qual foi o último livro que fez com que você ficasse com medo?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma biografia sobre o meu quadrinista favorito, Wally Wood. Acho que se chamava Against the Grain. A obra me fez perceber como muitos dos meus ídolos criativos cometeram suicídio.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>6. Como você acha que a Internet pode ajudar os autores a divulgarem seus livros?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Para mim, a melhor coisa que a Internet pode fazer por um autor é ajudá-lo a entrar em contato com seus leitores. Isso cria uma experiência mais abrangente e interativa para os leitores e ajuda autores velhos e solitários como eu a sentir que podem estar fazendo alguma diferença nas vidas das pessoas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>7. Qual sua opinião sobre o download de livros?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Acho ótimo. É claro que ainda nenhum dos meus livros está disponível para download!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>8. Que dicas você daria para um autor que está começando a escrever?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">1. Escreva todo dia. 2. Leia todo dia.</p>
<p style="text-align: justify;">Se você quiser escrever profissionalmente, eu acrescentaria 3. aprender como receber um golpe.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>9. É dificil assustar as pessoas hoje em dia? Será que quando há um pé na realidade as pessoas procurem mais os livros que misturam realidade e ficção do que os totalmente fictícios?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O mundo é um lugar assustador e é difícil competir com a realidade. Mas se você consegue fazer com que as pessoas se importem com seus personagens e as situações pelas quais eles passam, você sempre pode assustá-las.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>10. O que é mais dificil fazer: moldar personagens para espelhar a sociedade ou um nicho que vai se criticar ou pegar atributos de pessoas reais e transformá-los em algo fantástico?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Não sei o que é mais difícil, pois nunca tentei moldar meus personagens com base em pessoas reais. Sei que sempre incorporo a vida real (ou pelo menos a minha percepção distorcida da vida real) nas minhas obras, mas provavelmente sou mais como um corvo que cata objetos brilhantes aqui e ali do que o tipo de fera que engole as coisas inteiras.</p>
<p style="text-align: justify;">Entendi corretamente a sua pergunta?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>1/2. Se hoje fosse o Z day&#8230;</strong></p>
<p style="text-align: justify;">&#8230; eu tentaria me tornar menos saboroso.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/wp-content/uploads/2009/08/kissoflife.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-1333" style="border: 0pt none; margin: 5px;" title="kissoflife" src="http://blog.meiapalavra.com.br/wp-content/uploads/2009/08/kissoflife.jpg" alt="kissoflife" width="259" height="388" /></a></strong><em>No original</em>:</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>1. Zombie books and movies are usually seen as a critical take on our society. Were you thinking about something that was more than just a horror story when you wrote Generation Dead?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Yes, absolutely. Or different kinds of horror stories, anyhow&#8211;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2. What do you think about this craze of vampire books for teenagers? Is there any that you have read and liked?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">I think the vampire craze is great, especially as it led quite nature to a zombie craze.</p>
<p style="text-align: justify;">I actually haven&#8217;t read any of the more recent teen vampire books.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>3. What are your favorite zombie movies?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">The Stepford Wives and Invasion of the Body Snatchers (I&#8217;m most fond of the original). For more traditional faire you can&#8217;t go wrong with Romero, but my favorite was always Return of the Living Dead.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>4. What other books would you recommend to someone who has already read Generation Dead and Kiss of Life?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Hm. I guess it depends if they liked them or not!</p>
<p style="text-align: justify;">I&#8217;m a big believer in cross-genre pollination. If you the last twenty books you&#8217;ve read have been about vampires, zombies, and elves, take a break with some realistic fiction. Or nonfiction, even. Mix it up.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>5. What was the last book that frightened you?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A biography about my favorite comic book artist, Wally Wood. I think it was called Against the Grain. It made me realize how many of my creative idols committed suicide.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>6. How do you think the Internet can help authors in advertizing their books? </strong></p>
<p style="text-align: justify;">The best thing, to me, that the Internet can do for an author is help he or she get in touch with their readership. Doing so provides a more well-rounded, interactive experience for the readers, and helps lonely old authors like myself feel like they might be making a difference in people&#8217;s lives.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>7. What do you think about downloading books? </strong></p>
<p style="text-align: justify;">I think it is great. Of course, none of my work is available for download at this time!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>8. What advices would you give to an author who is getting into writing?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">1. Write every day 2. Read every day</p>
<p style="text-align: justify;">If you want to write professionally, I would add 3. learn how to take a punch.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>9. Is it hard to scare people nowadays? Is it possible that when there is a foot in reality people look more for books which blend reality and fiction than the ones that have a completely fictional backdrop? </strong></p>
<p style="text-align: justify;">The world is a scary place, and it is difficult competing with reality. But if you can make people care about your characters and their situations, you can always scare them.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>10. What is more difficult to do, to shape characters in order for them to reflect society or a specific niche that you intend to make a criticism about, or to get attributes from real life people and change them into something fantastic?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">I don&#8217;t know which is harder, because I&#8217;ve never tried to model my characters off of real people. I&#8217;m sure that I&#8217;m incorporating real life (or my warped perception of real life, anyway) into my writing all the time, but I&#8217;m probably more like a crow that picks up shiny objects here and there rather than the type of beast that swallows things whole.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>1/2. If today was the Z-Day&#8230;</strong></p>
<p style="text-align: justify;">I would try and become less tasty.</p>
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		<title>10 perguntas e Meia para Carlos Reichenbach</title>
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		<pubDate>Mon, 04 May 2009 12:40:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pips</dc:creator>
				<category><![CDATA[10 perguntas e meia]]></category>
		<category><![CDATA[Meia Palavra]]></category>
		<category><![CDATA[Carlos Reichanbach]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>

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		<description><![CDATA[
Carlos Reichenbach, o Carlão, nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no dia 14 de Junho de 1945. Cursou a Escola de Cinema de São Luiz, onde foi aluno de Luis Sérgio Person. Considerado um dos mais importantes realizadores paulistas, Reichenbach teve sua obra reconhecida internacionalmente em 1985 no Festival de Rotterdam, Holanda, onde [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-medium wp-image-876 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 5px; margin-bottom: 5px;" title="carlosreichenbach300dpi" src="http://blog.meiapalavra.com.br/wp-content/uploads/2009/05/carlosreichenbach300dpi-300x299.jpg" alt="carlosreichenbach300dpi" width="300" height="299" /></p>
<p style="text-align: justify;">Carlos Reichenbach, o Carlão, nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no dia 14 de Junho de 1945. Cursou a Escola de Cinema de São Luiz, onde foi aluno de Luis Sérgio Person. Considerado um dos mais importantes realizadores paulistas, Reichenbach teve sua obra reconhecida internacionalmente em 1985 no Festival de Rotterdam, Holanda, onde participou com seus filmes por cinco anos consecutivos. Foi por duas vezes premiado pela Cinemateca Real de Bruxelas, recebeu com ALMA CORSÁRIA, o prêmio dos 30 anos do Festival do Novo Cinema de Pesaro. Em 2001, após ter sobrevivido a três infartos do miocárdio e ganhar três pontes de safena e uma mamária, foi o primeiro cineasta a receber o Troféu Eduardo Abelim, no 29° Festival de Gramado. Recebeu também o troféu Barroco, pela obra, na 3ª Mostra de Cinema Brasileiro de Tirandentes, Minas Gerais, e o troféu especial do Guarnicê de Cine-Vídeo, em São Luiz do Maranhão.Tem exercido, esporadicamente, a função de crítico e ensaísta em diversas publicações, assinou durante dois três duas prestigiadas colunas semanais de cinema em sites específicos, participado de inúmeros cursos e palestras sobre o filme brasileiro no Brasil e exterior, lecionou cursos de roteiro cinematográfico em diversos lugares, fez parte da diretoria e conselho de diversos órgãos de classe cinematográfica e foi, durante quatro anos, titular da cadeira de direção cinematográfica e &#8220;expressão em cinema e vídeo&#8221;, do curso de cinema e vídeo da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo. Reichenbach mantém um blog sobre cinema e assuntos em geral, o <a href="http://olhoslivres.zip.net">Olhos Livres</a>, e promove a Sessão do Comodoro no Cinesesc.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-875"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>1. Por que filmes? Por que a sétima arte?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">RESPOSTA – O polonês Jerzy Skolimowski costuma afirmar que o cinema é “o conglomerado de todas as artes”. É pintura, dramaturgia, literatura e música. É de todas as artes a que mais rapidamente nos coloca em contato com outras culturas. Apesar de uma sólida formação literária (sou neto, sobrinho e filho de editores) e – acredito &#8211; uma razoável formação musical (paguei meus estudos de cinema – nos anos 60 &#8211; como tecladista eventual), escolhi o cinema como meio de expressão pela sua abrangência e para sublimar minha total incompetência para o desenho e o traço. Acabei exercendo também as funções de operador de câmera e diretor de fotografia em mais de 30 longas metragens para satisfazer meu fascínio pelas artes plásticas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>2. Cinefilia é um tipo de estudo para entender e realizar cinema?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">RESPOSTA – Inicialmente, a cinefilia não é uma ciência, mas a prática que é fruto da paixão pela linguagem do cinema. O verdadeiro cinéfilo é antes de tudo um garimpeiro. Sua meta é a prospecção isenta de preconceitos. A ciência surge quando o cinéfilo consegue detectar as pepitas autênticas, antes que elas sejam “oficializadas”. Nem todo cineasta é cinéfilo e poucos cinéfilos<br />
se tornam cineastas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>3. O que é preciso para ser um diretor? Qual o diferencial? Você pode citar quais diretores ainda mexem com você depois de tantos anos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">RESPOSTA – O ideal seria que todo diretor soubesse dominar plenamente a gramática (ou a sintaxe) do cinema; que conhecesse (ou tivesse exercido em algum momento) profundamente todas as funções técnicas e artísticas de seu métier. Mas, na prática, sabemos que não é isso que acontece. Sinceramente, não levo a sério diretores que não tenham estudado com alguma profundidade história da arte, ciência política, literatura, filosofia, música erudita; que nunca tenham se interessado pelo teatro, pelas artes plásticas ou desenvolvido algum talento musical. Grandes diretores devem amar os atores como Joseph L. Mankiewicz e Elia Kazan, o teatro épico como Welles e Kurosawa, a filosofia como Carl Th. Dreyer, a ópera como Visconti e Bertolucci, o jazz como Clint Eastwood, o homem comum como Eisenstein e Pasolini, os grandes espaços como Anthony Mann, a aventura como Samuel Fuller e Howard Hawks, a poesia como Cocteau e Jean Renoir, a lenda como Mizoguchi, a música clássica como Jean Luc Godard ou o homem brasileiro como Humberto Mauro e Nelson Pereira dos Santos. De todos os grandes, o que mexe comigo – até hoje – é Fritz Lang; parafraseando Goard a respeito de Nicholas Ray (o poeta ecológico), Fritz Lang é o cinema.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>4. Acredita que existe uma elite dominando o cinema brasileiro? Se existe: qual o impacto que ela causa na qualidade do que é produzido?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">RESPOSTA – Não acho que exista uma elite (o que poderia pressupor qualidade), mas uma “filosofia” (fundamentada na política do borderô). Ora, essa é a política mais furada que existe. Pode-se falar – hoje &#8211; em cinema comercial, mas não existe mais o filme popular; pelo menos, não no sentido que existia até a década de 80, quando o cinema era acessível ao público C e D (que sempre foi fiel ao cinema brasileiro). Até o começo dos anos 80 o ingresso custava uma passagem de ônibus. O público C e D lotava as salas para ver os nossos “filmes de gênero”: a chanchada, o filme de cangaço, o policial urbano (colhido das manchetes dos jornais baratos), o musical caipira, as comédias eróticas, etc. Com o advento dos cinemas de shopping e o custo exorbitante do ingresso, esse público sumiu. Cinema comercial hoje nada tem de popular; se não é a “carta marcada” do best seller (que dá certo no mundo todo) e sucata ou contrafação da teve aberta. O resto é produção subvencionada (necessária, claro!) que é arremessada nas salas de cinema sem nenhum critério.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>5. O que estamos vendo é mesmo um bloqueio criativo de Hollywood ou os remakes são mesmo só uma fase de saudosismo?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">RESPOSTA – Existe uma crise mundial na produção de filmes, de certa forma causada pelas transformações tecnológicas. No Japão, a revolução digital (tanto na questão da captação, da finalização, quanto – e, sobretudo &#8211; na exibição) provocou a falência dos grandes estúdios como a Daiei ou a Toho.  O cinema americano sentiu o golpe à sua maneira e até agora não conseguiu resolver qual o sistema de exibição vai adotar no futuro (em parte por não querer adotar o sistema ideal inventado pelos japoneses). Isso está se refletindo dramaticamente na qualidade dos filmes, que hoje são apenas uma parte do “evento cinematográfico”. Para dar certo, o filme precisa gerar outros produtos. O “remake” é efeito deste “fenômeno”.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-large wp-image-878 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 5px; margin-bottom: 5px;" title="carlosreichenbachboadef1" src="http://blog.meiapalavra.com.br/wp-content/uploads/2009/05/carlosreichenbachboadef1-1024x689.jpg" alt="carlosreichenbachboadef1" width="553" height="372" /></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>6. Um Certo Capitão Rodrigo, filme com de 1971, protagonista Francisco Di Franco, o gato da época, foi visto pelas gurias escondido dos pais e incentivado por professores, para que tivéssemos uma idéia melhor do cinema brasileiro, visto que fora o estilo já citado, havia o pastelão e os regionalistas. Hoje você consegue ver com distanciamento daquele tempo e os trabalhos que foram feitos, imagino. Quais as tendências e os interesses dos cineastas da época? Por trás existia uma critica ao falso moralismo da ditadura?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">RESPOSTA – Inconscientemente, talvez. Havia – na época – uma censura muito rígida. De certa maneira, os filmes eróticos buscavam transgredir as rédeas da censura vigente. Era praxe, no início dos anos 70, se proibir todo filme que não explicitava sua posição política. Bastava mostrar seca e miséria, que a censura caia em cima. Filmes como ORGIA, OU O HOMEM QUE DEU CRIA, de João Silvério Trevisan (que eu fotografei) e REPÚBLICA DA TRAIÇÃO, de Carlos Ebert, foram vetados, porque não foram entendidos pelos censores. Na época, para que um filme brasileiro pudesse ser exibido nos cinemas (ou ser exportado), era necessário receber o “Certificado de Filme Brasileiro”; ora, quem emitia o tal certificado era justamente a Censura Federal! Um absurdo! Houve tanta reclamação que o governo mandou arrefecer a rigidez da censura. Foi nesta época que começaram a surgir as comédias de teor picante, inspiradas no sucesso de alguns filmes italianos (como MULHERES PERIGOSAS, ALTA INFIDELIDADE e O SUPERMACHO); assim surgiram sucessos estrondosos do cinema nacional como A VIÚVA VIRGEM, de Pedro Rovai e OS PAQUERAS, de Reginaldo Farias. Na esteira do sucesso deste dois filmes veio uma enxurrada de contrafações que nem a censura e nem o governo conseguiram segurar. O resto é história.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>7. Em Falsa Loura, Alma Corsária e Filme Demência você invoca entidades para agir num mundo &#8220;real&#8221;, como musas citando alguma passagem da literatura. Você pensa nisso desde a concepção do roteiro? Como é o processo para invocar uma entidade (ou musa) numa cena chave?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">RESPOSTA – Às vezes, essas “entidades” surgem no processo de escritura do roteiro, como forma de apresentar a minha “carta de intenções”. Em ALMA CORSÁRIA, a morte é mostrada como uma benção para o poeta tísico; uma mulher linda, vestida de negro, à beira do rio (numa assumida influência de Mizogushi. A presença do rio, como elemento que une e separa os personagens – como em ALMA CORSÁRIA e DOIS CÓRREGOS &#8211; é presença constante em Renoir e nos filmes mais poéticos de Mizogushi. Isso esteve sempre presente nos roteiros. Já em FALSA LOURA (as citações de Sócrates pela boca da “deusa oblíqua”) ou a súmula do discurso “irracionalista” de Oswald Spengler, pela boca do personagem fascistóide de Selton Mello (em GAROTAS DO ABC) surgiram alguns dias antes das filmagens, motivados pela necessidade que senti de subverter o andamento que estava se configurando. Em uma das melhores seqüências de LILIAN M, RELATÓRIO CONFIDENCIAL, de 1974, surpreendi um dos atores principais, um dia antes da filmagem, entregando duas páginas de diálogo para ele decorar; tratava-se de um famoso discurso de Rui Barbosa , em Haia, que o personagem repete deitado na esteira de uma sauna para homens. Em resumo, se em algum momento da filmagem me soar a impressão que a realização da obra está se prefigurando burocrática – ou mesmo careta – eu arrumo um jeito de colocá-la fora dos eixos. Como bem disse o poeta e editor anarquista Roberto das Neves, “é essencial cultivar sempre um mínimo de má reputação”.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>8. Seus filmes espelham todos os seus fetiches: cinema (em Garotas do ABC há homenagem a Sganzerla e Fritz Lang), livros, vestais, etc. Você faz cinema para entender seu tempo e a si mesmo?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">RESPOSTA – Sempre. O saudoso cine-poeta Sergio Bernardes Filho dizia que fazia filmes (que – infelizmente &#8211; muito poucos viram) para não enlouquecer. Eu concordo com número e grau. São vozes que ficam na sua cabeça, imagens que vem, somem e voltam a toda hora, tesões inesperados, sentimentos sublimados&#8230;. O filme só tem sentido quando é fruto de um dilaceramento, quando amplia minha forma de enxergar o mundo, os outros e a mim mesmo. “SYRIANA”, “GUERRA SEM CORTES”, “O ACOMPANHANTE”, “BOA DIA, NOITE”, “OS ANJOS EXTERMINADORES”, “A CIDADE DOS SONHOS”, “FINE DEAD GIRLS”, “ARRIVEDERCI, AMORE CIAO”, ‘SERRAS DA DESORDEM”, “CRIME DELICADO”, e o vídeo “ISTO É MEU E MORRERÁ COMIGO”, de Fabio Carvalho, são obras que me ajudaram a compreender a década que estamos vivendo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>9. Você gostaria de adaptar algum livro favorito para o cinema? Por quê?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">RESPOSTA – Nunca pensei em adaptar livro nenhum para cinema porque o filme – para mim – começa no papel. Minha formação é literária e minha primeira ambição foi escrever. Acho, no entanto, acho que vários livros mereciam ser filmados. (não pó mim, especificamente). Se tivesse dinheiro eu iria produzir filmes. Seria fantástico ver Nelson Pereira dos Santos filmando Rosário Fusco (“O Dia do Juízo”) ou Walter Lima Junior adaptando Dyonélio Machado (“Passos Perdidos”). Eu produziria – com muito prazer &#8211; outros diretores (como Beto Brant, André Klotzel ou Hermano Penna) refilmando obras essenciais da dramaturgia paulistana de Abílio Pereira de Almeida, como “Paiol Velho” (sobre a decadência do café) e “Santa Marta Fabril” (sobre o boom da indústria têxtil); eles seriam capazes de “traduzir” cinematograficamente a importância e a excelência dramatúrgica destes textos. No entanto, eu estaria sendo hipócrita se não revelasse que, assim como Glauber Rocha, Jorge Bodanski e tantos outros, pensei seriamente em filmar um dia o nosso maior épico contemporâneo: KUARUP, de Antônio Callado. Mas o filme de Ruy Guerra serviu para atestar o velho e batido truísmo de que “grandes livros não costumam render grandes filmes”. As exceções de Nelson Pereira dos Santos (VIDAS SECAS e MEMÓRIAS DO CÁRCERE), Roberto Santos (AUGUSTO MATRAGA) e Leon Hirzmann (SÃO BERNARDO) parecem confirmar a regra. Aliás, não deixa de ser curioso que Graciliano Ramos tenha sido o escritor mais bem “compreendido” pelo cinema brasileiro.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>10. O que podemos esperar do seu próximo projeto (Um Anjo Desarticulado)?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">RESPOSTA – Não tenho a mínima idéia. Este tem sido o mais árduo roteiro que já escrevi. Foram oito anos de intensa prospecção no âmbito do pensamento teológico. Esbocei um rascunho do futuro longa no curta metragem EQUILÍBRIO E GRAÇA (2002). Há quatro meses atrás, por indicação do meu cardiologista (que é um erudito), mergulhei na leitura de Plotino e achei que tudo que havia escrito antes tinha pouca relevância.  O livro de Gabriela Bal, “Silêncio e Contemplação”, tem sido uma benção e uma danação; por um lado, me abre generosamente a percepção para a “ciência” do silêncio; por outro, me obriga outras tantas leituras que só confirmam a dimensão da minha ignorância. UM ANJO DESARTICULADO fala justamente das nossas limitações em compreender o outro. Narra a história de um criador (um escultor e artista plástico) que há sete anos perdeu a inspiração, que vai ao interior de São Paulo para a missa de sétimo dia de seu melhor amigo. Como de hábito, o personagem chega atrasado. Do amigo falecido herda a incumbência de encontrar seu antigo professor no seminário; um teólogo que é dado como misteriosamente desaparecido. Em resumo, o filme narra a peregrinação de um artista que perdeu a inspiração em busca de um teólogo que perdeu a fé. Se puder, farei o filme com os dois atores de FILME DEMÊNCIA (Ênio Gonçalves e Emílio di Biasi), Aconteceu uma coisa curiosa na escritura deste roteiro. O enredo inicial nunca previu a presença de uma personagem feminina relevante e por vários anos nunca me dei por satisfeito com a seqüência chave do desfecho. Com a leitura de Plotino e a interferência de uma inesperada personagem feminina, o desfecho – de espantoso teor poético e erótico &#8211; se resolveu como por milagre. Ainda não dei o roteiro como fechado, mas estou chegando lá. De qualquer maneira, não acho que será um filme para grandes platéias.  Conforme o resultado, após a filmagem e a montagem, espero que UM ANJO DESARTICULADO se aproxime da música de câmara para sensibilidades afinadas ou um oratório de Penderecki.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Meia: &#8220;Palavras e imagens&#8230;&#8221;</strong><br />
RESPOSTA &#8211; &#8220;Palavras e imagens = música; cinema.”</p>
<p style="text-align: justify;">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br />
<em>Meia Palavra agradece Carlos Reichenbach pela imensa atenção que deu para nós e nossa Equipe deseja sorte em seu próximo projeto.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>*Fotos fornecidas pelo entrevistado<br />
** Biografia retirado do site oficial: http://www.olhoslivres.com</em></p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>10 perguntas e meia para Antônio Xerxenesky</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 13:26:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pips</dc:creator>
				<category><![CDATA[10 perguntas e meia]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Antônio Xerxenesky]]></category>
		<category><![CDATA[Areia nos Dentes]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[
Antônio Xerxenesky é um porto-alegrense nascido no fim de 1984. Publicou o livro de contos Entre (Fumproate/Ed. Movimento) e outras narrativas curtas em antologias e revistas. Seu conto O desvio (publicado em Ficção de Polpa, vol. 1) foi adaptado para a tevê por Fernando Mantelli em 2007. Areia nos Dentes é seu primeiro romance.
01. Como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-841 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 5px; margin-bottom: 5px;" title="Portrait of Tony - Areia nos Dentes" src="http://blog.meiapalavra.com.br/wp-content/uploads/2009/04/antonio-xerxenesky-2-foto-de-andre-hilgert.jpg" alt="Portrait of Tony - Areia nos Dentes" width="374" height="253" /></p>
<p style="text-align: justify;">Antônio Xerxenesky é um porto-alegrense nascido no fim de 1984. Publicou o livro de contos <em>Entre </em>(Fumproate/Ed. Movimento) e outras narrativas curtas em antologias e revistas. Seu conto <em>O desvio</em> (publicado em Ficção de Polpa, vol. 1) foi adaptado para a tevê por Fernando Mantelli em 2007. <a href="http://blog.meiapalavra.com.br/2008/08/26/areia-nos-dentes-%E2%80%93-antonio-xerxenesky/">Areia nos Dentes</a> é seu primeiro romance.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-840"></span><strong>01. Como surgiu a idéia para Areia nos Dentes? Além de se inspirar em faroeste (chega até a citar Sérgio Leone), de onde surgiu a idéia de somar o velho Oeste Mexicano com Zumbis?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Em primeiro lugar, foi uma maneira de unir dois gêneros fundamentais na minha formação de cinéfilo, o western e o horror. Mas não é uma ideia, digamos, original. Ela surgiu de um videogame. Dá para acreditar? Bom, para quem me conhece dá, pois só um radical defensor dos videogames como forma de expressão artística. Teve um jogo que muito me marcou: Alone in the Dark 3. Faroeste com zumbis. Realmente não existe originalidade nesse mundo!<br />
Mas, claro, isso é só a superfície. Usei essa premissa sensacionalista como um veículo para que eu pudesse expressar algumas inquietações paralelas, no caso, o drama da &#8220;necessidade de matar o pai&#8221;. Ao colocar um conflito freudiano no meio de um faroeste spaghetti acabo brincando com as fronteiras em alta e baixa cultura, que sempre foi um dos meus projetos como escritor.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>02. Você gostaria de ver seu livro adaptado para as telas? Se, sim, quem seria o diretor?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Pois, não sei se o livro renderia uma boa adaptação para o cinema. Há muita metalinguagem e artifícios literários que funcionam apenas na narrativa literária. Se alguém fosse adaptar para o cinema, gostaria que o diretor fizesse uma adaptação muito infiel, mais calcada nas imagens do que no texto. De brasileiros, acho que apenas o Mojica faria um trabalho interessante. De estrangeiros, poxa, são tantos. O Danny Boyle e o Alex de la Iglesia fariam trabalhos incríveis, pois estão acostumados a trabalhar com o cinema de gênero &#8211; hibridizando e pervertendo os gêneros.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>03. Quais seus filmes de Zumbis favoritos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Dos clássicos, acho que a obra fundadora &#8220;A Noite dos Mortos-Vivos&#8221; do George Romero é imbatível. Gosto muito também do &#8220;Fome Animal&#8221;, do Peter Jackson, &#8220;Zombie&#8221; do Fulci, e, dos que desrespeitam as regras clássicas dos zumbis, sou fã de &#8220;Extermínio&#8221; do Danny Boyle.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>04. O que significa ser editor para você?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Uma oportunidade de publicar e ajudar muitos novos escritores legais que não receberiam uma edição decente se não fossem editoras independentes como a Não Editora.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>05. Qual o critério de uma editora independente para a seleção das obras que publica?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">A Não Editora não possui regras fixas ou um eixo temático definido. Gostamos de publicar coisas muito diferentes, de um romance de fortes tons realistas a um livro de contos fantásticos. Tornamos nossa falta de homogeneidade estilística e temática um símbolo da nova geração literária, que abarca escritores produzindo obras muito, muito diversas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>06. O que chama a atenção pra algo novo ser considerado bom, ou pelo menos, publicável?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Novamente, não há algo especial que nos salte aos olhos. Eu, pessoalmente, gosto de sentir que o escritor, além de escritor, é um grande leitor. Isso se sente na prosa, em cada linha escrita.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>07. Quais dicas você daria a um escritor iniciante? Escrever, no Brasil, vale a pena?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Vale a pena em que sentido? Financeiro? De jeito nenhum. Pelo glamour? Mais fácil tentar o Big Brother. Quem escreve deve escrever porque sente vontade, pulsão criativa, sei lá. A única dica possível para um escritor iniciante é que leia, leia muito, e não só os clássicos e obras que todos já aceitam como boas. Ler literatura contemporânea, do Brasil, do Japão, seja lá da onde for. E não só literatura: filosofia, sociologia, física. Que leia. Todo material intelectual é útil para escrita, tudo ajuda a formar o escritor. Claro, experiência de vida também é importante, mas essa é outra história.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>08. Quais livros da contemporaneidade, que geralmente são ignorados, poderiam se tornar clássicos no futuro (visando o cenário dos últimos quinze anos)?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Eu não me interesso muito pelos livros de hoje que certamente se tornarão clássicos. Há livros do Saramago e do García Márquez que com certeza serão canonizados, e esses dois escritores não me dizem quase nada. Mas, por outro lado, não consigo pensar em nenhum autor ignorado que eu seja fã. Meus favoritos todos receberam um bom reconhecimento da crítica: Roberto Bolaño, Enrique Vila-Matas, J.M. Coetzee, Thomas Pynchon, David Foster Wallace&#8230; Talvez não virem leituras obrigatórias do colégio, mas são bem lidos e possuem ampla fortuna crítica, ainda que fora do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>09. Qual o último livro que te tirou o sono? Por que? E qual o último livro que te deu sono?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Diário de um Ano Ruim, do J.M. Coetzee. Sempre foi moda dizer que o relevante da literatura é a forma, que interessa apenas a estética, e eu muitas vezes concordei em silêncio com isso. O choque de ler esse romance-ensaio do Coetzee é que é um livro com muito o que dizer. Me tirou o sono e me fez rever algumas posições.<br />
Já livro que me deu sono&#8230; Ih, é até vergonhoso confessar, mas não consegui ler &#8220;Os anéis de saturno&#8221; do Sebald. Chatice sem limites.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>10.O que você pensa sobre o download gratuito de livros (como o Neil Gaiman costuma fazer com os dele vez ou outra)? Que relação você vê entre internet e as editoras independentes?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Poxa vida, esse assunto é complicado. Não tenho ilusões de que o livro-papel continuará existindo e vendendo por muitas décadas. Mas, por enquanto, se tratando de editoras publicando livros online, a questão ainda é complicada no sentido de que quase ninguém no país tem leitor de e-books, e muitos detestam ler na tela do computador. As grandes editoras daqui tampouco estão publicando online, ou seja, você não vai ler o livro novo do Bernardo Carvalho no seu iPhone. A impressão que dá, por enquanto, é que textos que saem apenas na internet não possuem muito mérito artístico, como se a seleção, por não ter dinheiro envolvido, fosse mais relaxada. E talvez até seja, já que é muito mais fácil publicar um livro online do que no papel. Não sei, ainda não tenho muitas opiniões definitivas sobre o tema. Acho que é o futuro, mas um futuro ainda distante da nossa realidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Meia</strong>: &#8220;Se eu fosse Clint Eastwood, atiraria&#8230;&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Em todos os “inimigos do literário”. Todos aqueles que, como diria Vila-Matas, são pessoas &#8220;achatadas pela realidade&#8221;. Incapazes de se comover com ficções, com narrativas, preocupados com um mundo prático e utilitário. Nossa, seria um fuzilamento.</p>
<p style="text-align: justify;">***<br />
<em>Meia Palavra agradece Antônio pela imensa atenção que deu para nós.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Os créditos da foto são para André Hilgert.</em></p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>10 Perguntas e Meia para Cristovão Tezza</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Dec 2008 17:35:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pips</dc:creator>
				<category><![CDATA[10 perguntas e meia]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Cristovão Tezza]]></category>
		<category><![CDATA[Dez Perguntas e Meia]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[O Filho Eterno]]></category>
		<category><![CDATA[Prêmio Jabuti]]></category>

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		<description><![CDATA[
Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, em 1952. Em junho de 1959, morreu seu pai; dois anos depois, a família se mudou para Curitiba, Paraná. Sua tese de doutorado (USP), Entre a prosa e a poesia &#8211; Bakhtin e o formalismo russo, foi publicada em 2002 (Rocco). Também na área acadêmica, Cristovão Tezza escreveu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/wp-content/uploads/2008/12/web16.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-312" style="border: 0pt none; margin: 5px;" title="web16" src="http://blog.meiapalavra.com.br/wp-content/uploads/2008/12/web16.jpg" alt="" width="510" height="475" /></a></p>
<p>Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, em 1952. Em junho de 1959, morreu seu pai; dois anos depois, a família se mudou para Curitiba, Paraná. Sua tese de doutorado (USP), Entre a prosa e a poesia &#8211; Bakhtin e o formalismo russo, foi publicada em 2002 (Rocco). Também na área acadêmica, Cristovão Tezza escreveu dois livros didáticos em parceria com o lingüista Carlos Alberto Faraco (Prática de Texto e Oficina de Texto, editora Vozes), e nos últimos anos tem publicado eventualmente resenhas e textos críticos no jornal Folha de S.Paulo. Seu livro de 2007, &#8220;O Filho Eterno&#8221; (Record), ganhou os principais prêmios de literatura na língua portuguesa, incluindo o Prêmio Jabuti de 2008.</p>
<p><span id="more-310"></span></p>
<p><strong>1. Como é vencer o Prêmio Jabuti, o APCA, o Portugal-Telecom, o Prêmio Bravo, o Prêmio São Paulo de Literatura? Esperava esse reconhecimento?</strong></p>
<p>Não, sinceramente não esperava ganhar todos esses prêmios. Sabia que o livro teria algum impacto, pela força do tema e por uma certa expectativa depois de “O fotógrafo”, de 2004, que já havia levado dois prêmios, mas nunca uma resposta dessa dimensão.</p>
<p><strong>2. Qual dos livros escritos por você é o seu preferido? Por quê?</strong></p>
<p>Essa é uma pergunta muito difícil que sempre me fazem. Tenho alguns momentos que foram importantes para mim. Gosto especialmente de “Trapo” (1988), “A suavidade do vento” (1991), “Breve espaço entre cor e sombra” (1998) e “O fotógrafo” (2004). E, é claro, de “O filho eterno”. Mas nenhum é favorito.</p>
<p><strong>3. Qual seu livro favorito ou autor?</strong></p>
<p>No Brasil, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, do Machado. São três brasileiros favoritos: Machado, Graciliano, Drummond. No mundo, dos atuais, J.M.Coetzee e Ian McEwan.</p>
<p><strong>4. O que você está lendo nos últimos tempos?</strong></p>
<p>Muita coisa, que não consigo terminar por força de leituras profissionais, por assim dizer. Estou lendo uma biografia de Schopenhauer e “A sociedade dos indivíduos”, de Norbert Elias.</p>
<p><strong>5. Além da literatura, existe outra arte que você acompanha? Cinema, teatro, dança&#8230;.</strong></p>
<p>Vejo muito cinema, quase que um filme por dia, mas na televisão, por comodidade e por falta de tempo. Gosto de teatro, uma arte que fez parte substancial na minha formação de escritor, mas tenho visto pouquíssimo. Não sou exatamente um ser musical, mas gosto de jazz e blues.</p>
<p style="text-align: center;"><a href="http://blog.meiapalavra.com.br/wp-content/uploads/2008/12/web19.jpg"><img class="size-full wp-image-311 aligncenter" style="border: 0pt none; margin-top: 5px; margin-bottom: 5px;" title="web19" src="http://blog.meiapalavra.com.br/wp-content/uploads/2008/12/web19.jpg" alt="" width="510" height="340" /></a></p>
<p><strong>6. O que acha das adaptações de livros para outras mídias (TV, Cinema, Teatro)?</strong></p>
<p>Uma coisa muito legal, desde que não se crie muita expectativa. Uma adaptação é sempre uma mudança radical de linguagem, com seqüelas importantes. A célebre frase “o livro é melhor” é de certa forma inevitável – é melhor como literatura, mas cinema é outra coisa. Tive um livro (“Trapo”) adaptado para o teatro, e gostei muito do resultado.</p>
<p><strong>7. No cenário brasileiro quem você apostaria como uma nova promessa de escritor?</strong></p>
<p>Muito difícil dizer. A atividade crítica nunca deve ser profética. Acho que há uma nova geração muito importante amadurecendo. Gosto muito, para dar um exemplo imediato, de “A chave da casa”, da Tatiana Levy Salem, que acaba de ganhar o Prêmio São Paulo de autor estreante.</p>
<p><strong>8. Hoje em dia é mais fácil publicar livros, mas também é mais difícil conquistar leitores devido a grande demanda. O que acha disso?</strong></p>
<p>Para quem vem de longe, como eu, é bom lembrar que sempre foi muito difícil conquistar leitores, com ou sem demanda. O leitor é um cisne raríssimo que só quer ser alimentado com iguarias. Sim, hoje é muito fácil publicar livros. Dou um exemplo comparativo: escrevi “Trapo” em 1982 e só consegui publicá-lo em 1988. Foram seis anos de recusas e esperas. Hoje ele sairia em 60 dias. Mas também com relação aos leitores a situação está melhor: hoje o Brasil tem proporcionalmente muito mais leitores do que tinha há 20 anos. Ainda são poucos, é verdade, mas a base aumentou.</p>
<p><strong>9. Como é ser reconhecido por seu talento num país onde a literatura não é uma opção entre os jovens (é vista mais como obrigações para entrar numa faculdade)?</strong></p>
<p>Não penso muito nisso. Meu projeto de escritor não nasceu exatamente de uma ansiedade por resposta, ou eu já teria parado anos atrás. Escrever é uma aventura ética em que metemos a cara por conta própria. Quando há uma resposta boa, como agora, ótimo. Faz bem para auto-estima. Mas é preciso ter gás para passar os períodos de silêncio, que são duros.</p>
<p><strong>10. Qual o ponto inicial para se escrever um livro? Você tem algum tipo de inspiração ou as idéias simplesmente surgem? Conte-nos o processo.</strong></p>
<p>Começo por uma imagem (a mãe numa maca sendo levada para o parto; um jovem morando no sótão de um bordel; alguém descendo uma velha escada para atender alguém que bate à porta), que amadurece num arcabouço narrativo (que nunca permanece o mesmo durante a escrita, mas sem ele não consigo começar) e completa-se por uma linguagem (a primeira frase que define a alma do livro; por exemplo “a solidão é a forma discreta do ressentimento”, de “O fotógrafo”, ou “Eu tinha tudo para dar certo, exceto a família”, em “Juliano Pavollini”). O resto é trabalho duro, meses a fio.</p>
<p><strong>Meia: &#8220;ser escritor no Brasil&#8230;&#8221;</strong></p>
<p>Ser escritor no Brasil não é substancialmente diferente de ser escritor em qualquer lugar do mundo. Escrever é uma viagem solitária e intransferível.</p>
<p><strong>***</strong></p>
<p><em>Meia Palavra agradece Cristovão pela imensa atenção que deu para nós e toda a Equipe parabeniza suas conquistas nesses último ano!</em></p>
<p><em>*Fotos e Biografia retirados do site oficial: http://www.cristovaotezza.com.br</em></p>
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