18 de maio de 2012

Dez Mil Guitarras (Catherine Clément)

“Desde que havia nascido, Sebastião estava destinado à morte. O príncipe tão esperado levava nele os germes de um desastre. Para sua vinda ao mundo, a mãe havia parido de luto fechado. O recém-nascido tinha uma cabeça grande demais, olhos globulosos, um ombro mais alto, um dedo do pé informe. Educado por velhos, fraco do membro, mamando o sonho no seio da sua mãe Igreja… Sebastião morreria no Marrocos. Era evidente.”

D. Sebastião é uma das figuras mais emblemáticas de Portugal. A lenda criada após o seu desaparecimento na batalha de Alcácer Quibir (Marrocos) conta que o Rei retornará em uma manhã de nevoeiro, montado em um cavalo branco, espada em riste, pronto para salvar o reino perdido e levar Portugal a ser um Império global. Regresso contado por ilustres portugueses, como padre Antônio Vieira e Fernando Pessoa.

A história do rei português chamado de “O Desejado” chamou a atenção de Catherine Clément em uma visita ao país. Com um cuidado histórico impressionante, ela conta a história desta fantástica figura e de uma Europa do século XVI em completa mutação no livro Dez mil guitarras, lançado pela Companhia das Letras.

A história em si divide-se em três partes. A primeira conta a trajetória do Rei Sebastião até a batalha no Marrocos em que o mesmo desaparecera. A segunda trata do Imperador Rodolfo II da Áustria, conhecido como O Alquimista, e a última parte fala de Cristina, a jovem e bárbara rainha da Suécia.

Apesar da divisão focar em três personagens diferentes, ela mantém sua linearidade. A curiosidade é que a mesma é mantida por um elemento fora da narrativa, um objeto que é transmutado em narrador em alguns momentos da obra: um rinoceronte, ou bada, como é chamado durante a história.

O personagem, ou objeto, transita na mão dos protagonistas de cada parte do livro. Primeiramente como rinoceronte nas mãos de D. Sebastião. Depois, por saber da morte de seu rei e por provocar a morte de algumas pessoas, o bada é morto e sua alma passa para o que sobrou dele, o chifre do rinoceronte transformado em copo com poderes mágicos e que vai parar na sala de maravilhas do Imperador Rodolfo. Por último, após a morte do Imperador, o chifre vai para as mãos de Cristina.

O curioso aqui é que o objeto, enquanto rinoceronte ou chifre, ganha voz de narrador e relata alguns fatos do seu convívio com as três figuras históricas. A confiança e força religiosa de Sebastião, o lado científico de Rodolfo e as descobertas sexuais de Cristina em sua paixão com o filósofo Descartes.

Além do narrador em primeira pessoa, também temos o narrador em terceira pessoa. A princípio eu acreditei que toda a história seria contada pelo animal, mas logo é possível perceber que há uma segunda voz que relata os fatos que transcorrem longe do contato do chifre e que são importantes ao livro. A variação de narradores quebra o ritmo da história e por algumas vezes também o ritmo da leitura, mas nada que estrague a obra.

Além da variação de narradores existem alguns pontos curiosos na obra de Catherine Clément que merecem ser ressaltados. O primeiro deles é o cuidado histórico ao retratar uma Europa em transição através da decadência de figuras como D. Sebastião e Filipe da Espanha. Toda a alquimia presente na sala das maravilhas do imperador Rodolfo, e a luta religiosa entre luteranos e católicos representada na falsa coroação da rainha Cristina. A decadência também é expressa através da arte ao retratar Luis de Camões esfomeado e miserável pedindo apoio – ou esmola -  a D. Sebastião e ao cansaço filosófico de Descartes no contato com a estranha rainha Cristina.

Outro ponto interessante na obra está ligado diretamente a D. Sebastião. O rei português sofre com problemas no membro e da pressão por ter um herdeiro. Ao mesmo tempo encomenda da Ásia um rinoceronte, símbolo da virilidade animal. O contra-ponto é curioso pela pressão que este sofre por se casar e ter um filho antes da guerra – fato que não ocorre. Alguns historiadores defendem a tese de que Sebastião fora abusado sexualmente na infância e outros que poderia ser homossexual, daí os problemas no membro e a busca pelo bada.

Apesar da morte – ou desaparecimento – do rei português após a batalha de Alcácer Quibir, Catherine Clément usa da licença poética para criar um novo desfecho para o querido D. Sebastião. A história segue os capítulos seguintes de Rodolfo e Cristina e conta a história de um homem que perdera o nariz e usa uma máscara no lugar da face. Falta-lhe um braço, mas o membro funciona perfeitamente, tanto que este casa-se com Yasmín e tem vários filhos com ela em território marroquino.

Enquanto em Portugal, Sebastião ressuscita quatro vezes e é morto outras quatro por ordens de reis, no Marrocos o homem sem face que outrora fora fervorosamente católico, agora cultiva um sincretismo religioso curando pessoas através da Bíblia e do Alcorão – algo similar ao que acontece na Bahia com o candomblé e o catolicismo. Não deixa de ser curioso que logo após a ida para o Marrocos e o encontro da religião Islá com a Católica, que a virilidade de D. Sebastião deixasse de ser um problema.

Devido ao cuidado do retrato histórico do rei português e da Europa transitória do século XVI, a obra de Catherine Clément poderia ser chamada de romance histórico. Mas o narrador-objeto e o desfecho quase que poético de D. Sebastião fazem-me retirar qualquer rótulo da obra da autora, ou talvez classificá-la como uma obra póstuma a uma das figuras mais emblemáticas de Portugal. Talvez seja meu sangue português falando mais alto, mas creio que o rei D. Sebastião ganhou um desfecho digno de sua figura e que enfim possa descansar em paz sem precisar retornar para salvar Portugal de mais uma crise.

Dez mil guitarras
Autora: Catherine Clément
Tradução: Eduardo Brandão
352 páginas
Preço sugerido: R$ 35,50

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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Sobre Palazo

Não sou jornalista, muito menos escritor. Não guardo segredos, simplesmente por que estes não me pertencem. Prefiro dialogar ao vento para espalhar tudo aquilo que chega até mim. Leio com meus ouvidos e falo através dos meus olhos. Tenho a alma de um vagabundo responsável. Sou um contador de histórias.

Comentários

  1. Mandy diz:

    Nossa, isso me ajudou demais. Ótimo.

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