“Desde que havia nascido, Sebastião estava destinado à morte. O príncipe tão esperado levava nele os germes de um desastre. Para sua vinda ao mundo, a mãe havia parido de luto fechado. O recém-nascido tinha uma cabeça grande demais, olhos globulosos, um ombro mais alto, um dedo do pé informe. Educado por velhos, fraco do membro, mamando o sonho no seio da sua mãe Igreja… Sebastião morreria no Marrocos. Era evidente.”
D. Sebastião é uma das figuras mais emblemáticas de Portugal. A lenda criada após o seu desaparecimento na batalha de Alcácer Quibir (Marrocos) conta que o Rei retornará em uma manhã de nevoeiro, montado em um cavalo branco, espada em riste, pronto para salvar o reino perdido e levar Portugal a ser um Império global. Regresso contado por ilustres portugueses, como padre Antônio Vieira e Fernando Pessoa.
A história do rei português chamado de “O Desejado” chamou a atenção de Catherine Clément em uma visita ao país. Com um cuidado histórico impressionante, ela conta a história desta fantástica figura e de uma Europa do século XVI em completa mutação no livro Dez mil guitarras, lançado pela Companhia das Letras.
A história em si divide-se em três partes. A primeira conta a trajetória do Rei Sebastião até a batalha no Marrocos em que o mesmo desaparecera. A segunda trata do Imperador Rodolfo II da Áustria, conhecido como O Alquimista, e a última parte fala de Cristina, a jovem e bárbara rainha da Suécia.
Apesar da divisão focar em três personagens diferentes, ela mantém sua linearidade. A curiosidade é que a mesma é mantida por um elemento fora da narrativa, um objeto que é transmutado em narrador em alguns momentos da obra: um rinoceronte, ou bada, como é chamado durante a história.
O personagem, ou objeto, transita na mão dos protagonistas de cada parte do livro. Primeiramente como rinoceronte nas mãos de D. Sebastião. Depois, por saber da morte de seu rei e por provocar a morte de algumas pessoas, o bada é morto e sua alma passa para o que sobrou dele, o chifre do rinoceronte transformado em copo com poderes mágicos e que vai parar na sala de maravilhas do Imperador Rodolfo. Por último, após a morte do Imperador, o chifre vai para as mãos de Cristina.
O curioso aqui é que o objeto, enquanto rinoceronte ou chifre, ganha voz de narrador e relata alguns fatos do seu convívio com as três figuras históricas. A confiança e força religiosa de Sebastião, o lado científico de Rodolfo e as descobertas sexuais de Cristina em sua paixão com o filósofo Descartes.
Além do narrador em primeira pessoa, também temos o narrador em terceira pessoa. A princípio eu acreditei que toda a história seria contada pelo animal, mas logo é possível perceber que há uma segunda voz que relata os fatos que transcorrem longe do contato do chifre e que são importantes ao livro. A variação de narradores quebra o ritmo da história e por algumas vezes também o ritmo da leitura, mas nada que estrague a obra.
Além da variação de narradores existem alguns pontos curiosos na obra de Catherine Clément que merecem ser ressaltados. O primeiro deles é o cuidado histórico ao retratar uma Europa em transição através da decadência de figuras como D. Sebastião e Filipe da Espanha. Toda a alquimia presente na sala das maravilhas do imperador Rodolfo, e a luta religiosa entre luteranos e católicos representada na falsa coroação da rainha Cristina. A decadência também é expressa através da arte ao retratar Luis de Camões esfomeado e miserável pedindo apoio – ou esmola - a D. Sebastião e ao cansaço filosófico de Descartes no contato com a estranha rainha Cristina.
Outro ponto interessante na obra está ligado diretamente a D. Sebastião. O rei português sofre com problemas no membro e da pressão por ter um herdeiro. Ao mesmo tempo encomenda da Ásia um rinoceronte, símbolo da virilidade animal. O contra-ponto é curioso pela pressão que este sofre por se casar e ter um filho antes da guerra – fato que não ocorre. Alguns historiadores defendem a tese de que Sebastião fora abusado sexualmente na infância e outros que poderia ser homossexual, daí os problemas no membro e a busca pelo bada.
Apesar da morte – ou desaparecimento – do rei português após a batalha de Alcácer Quibir, Catherine Clément usa da licença poética para criar um novo desfecho para o querido D. Sebastião. A história segue os capítulos seguintes de Rodolfo e Cristina e conta a história de um homem que perdera o nariz e usa uma máscara no lugar da face. Falta-lhe um braço, mas o membro funciona perfeitamente, tanto que este casa-se com Yasmín e tem vários filhos com ela em território marroquino.
Enquanto em Portugal, Sebastião ressuscita quatro vezes e é morto outras quatro por ordens de reis, no Marrocos o homem sem face que outrora fora fervorosamente católico, agora cultiva um sincretismo religioso curando pessoas através da Bíblia e do Alcorão – algo similar ao que acontece na Bahia com o candomblé e o catolicismo. Não deixa de ser curioso que logo após a ida para o Marrocos e o encontro da religião Islá com a Católica, que a virilidade de D. Sebastião deixasse de ser um problema.
Devido ao cuidado do retrato histórico do rei português e da Europa transitória do século XVI, a obra de Catherine Clément poderia ser chamada de romance histórico. Mas o narrador-objeto e o desfecho quase que poético de D. Sebastião fazem-me retirar qualquer rótulo da obra da autora, ou talvez classificá-la como uma obra póstuma a uma das figuras mais emblemáticas de Portugal. Talvez seja meu sangue português falando mais alto, mas creio que o rei D. Sebastião ganhou um desfecho digno de sua figura e que enfim possa descansar em paz sem precisar retornar para salvar Portugal de mais uma crise.
Dez mil guitarras
Autora: Catherine Clément
Tradução: Eduardo Brandão
352 páginas
Preço sugerido: R$ 35,50
Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras















Nossa, isso me ajudou demais. Ótimo.