O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) tem uma afirmação famosa em que diz que o modelo arquitetônico da prisão moderna – composto por um pátio interior, com janelas que se abrem para as outras, sendo que de todos os pontos dentro ou fora do prédio é possível sentir-se vigiado – é o mesmo aplicado às nossas fábricas, hospitais e escolas. Em seus romances, o argentino Martín Kohan (1967-) levou a série a última dessas comparações: para ele, a instituição pedagógica é parte indelével da construção do estado-prisão, nomeadamente a ditadura militar argentina. E não é diferente em Ciências morais, de 2007: nele acompanhamos María Teresa, uma inspetora do Colégio Nacional de Buenos Aires, durante o começo da década de 1980, quando a Junta Militar já está nos seus últimos respiros, mortificada pela péssima situação econômica do país.
María Teresa é o retrato mais completo de alguém que eliminou toda sua densidade psicológica. Trata-se de uma carola (sem muita demonstração de fé, se não de hábitos), solteirona (cuja sexualidade ela tem que sufocar frente aos garotos da escola) e “sem sal”, como ela mesma define. Alguém que não tem nada a dizer, a não ser as palavras de ordem para manter o controle da escola: “corte o cabelo!”, “use meias azuis!”, “silêncio!”, “não toque nela!”, “algum problema?”, “respeito!”.
Por isso somos levados a percorrer toda a descrição de sua paranóia, como quando ela entra no banheiro masculino depois que todos foram embora em busca de indícios que provem que os meninos estão fumando dentro do colégio. Toda essa cena se passa num misto de êxtase e patetice: a sensação que temos é que María Teresa está entrando nas catacumbas de seus próprios pensamentos reprimidos e que sente um certo prazerzinho proibido ao imaginar (mal) o que os garotos fazem ali – inclusive e principalmente suas necessidade fisiológicas.
Como pano de fundo da narrativa, temos a história do irmão de María Teresa, que não nos é contada diretamente, mas por meio dos cartões-postais lacônicos que ele envia. Sabemos que ele está se preparando, junto ao exército, para participar das lutas contra os ingleses no episódio conhecido como Guerra das Malvinas. Apesar de parecer uma história paralela, na verdade ela funciona como o outro lado da lógica nacionalista adotada tão exacerbadamente no colégio. A declaração de reocupação do território argentino, tomado a força pelos ingleses em 1832, foi a tática última de salvar os restolhos do regime militar, injetando um espírito patriótico na população, o que de fato ocorreu: milhões foram as ruas para saldar a iniciativa da junta de ditadores, liderada por Leopoldo Galtieri. No entanto, o resultado final – a derrota esmagadora – foi não só a morte de mais de 600 soldados e a derrocada final dos militares.
É esse jogo entre prisão e escola, entre exército e colégio que vai dando a dinâmica do livro, pelos olhos dessa inspetora ávida por seguir e aplicar as regras e a defesa das tradições, sem que saiba exatamente o porquê disso.
Além de escritor, tendo publicado mais de dez romances (inclusive Duas Vezes Junho, o seu mais famoso, em que vê o outro poderoso mecanismo da ditadura - o futebol -, já publicado aqui no Brasil), Kohan é professor da Universidade de Buenos Aires, sendo autor de diversos livros e ensaios importantes sobre a obra de Walter Benjamin e sobre a história argentina.
Título: Ciência morais
Autor: Martín Kohan
Tradução: Eduardo Brandão
192 páginas
Preço: 37 reais
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