18 de maio de 2012

O duplo (Fiódor Dostoiévski)

Segundo romance de Fiódor Dostoiévski, O duplo (Dvoinik, tradução de Paulo Bezerra, Editora 34) é anterior aos títulos que geralmente são considerados suas obras-primas. E, biograficamente, escrito antes da prisão política, de sua sentença à morte, o seu adiamento de última hora e seus anos em um campo de trabalho siberiano. Publicado em 1846, quando trilhava na literatura, O duplo é um caso bastante representativo daqueles livros que, adiante seu tempo, acabam sendo consagrados para a posteridade. Em efeito, se no momento de sua publicação críticos e leitores trataram o trabalho de Dostoiévski como uma mera versão de um tema literário tradicional, nomeando-o como tragédia grotesca, atualmente a genialidade acerca do escritor russo torna o texto impressionante, da forma que os temas da duplicidade e do desdobramento da personalidade são perpetrados. Mesmo incompreendido à época, devido ao humor moderno, ao trato radical com a linguagem, à novidade do tema e ao experimentalismo formal proposto, o autor sempre teve plena convicção sobre sua importância, a ponto de escrever no diário de um escritor, vinte anos mais tarde: “nunca dei uma contribuição mais séria para a literatura do que essa”.

A narrativa trata do estranho caso que aconteceu com o Sr. Golyádkin em São Petersburgo. Yakov Pietróvitch Golyádkin é um conselheiro estatal, um funcionário mistura de escrivão e copista, pertencente a uma classe baixa na escala burocrática de seu país, sem chance nenhuma de ascensão. É o modelo de funcionário alienado pela máquina burocrática que encontramos em O nariz, de Gogol, em Bartleby, de Melville, e no Joseph K, de Kafka. O primeiro esboço do principal personagem-tipo dostoievskiano quando amadurecido, o indivíduo psicologicamente dividido que se desdobraria no Raskólnikov de Crime e castigo, no Míchkin de O idiota, em Ivan Karamázov e em vários outros.

Golyádkin é um sujeito desajeitado que vive no maior isolamento, com o pouco que ganha mal dá para se manter, mas ainda possui um criado. Atormentado pela angústia de não ter convívio social, procura preenchê-la a qualquer custo, entretanto, sofre com humilhações repetidas. Até encontrar numa noite, após ser expulso da casa de seu chefe, um homem que é a sua cara, uma semelhança incrível. Enquanto fisicamente são iguais, seu caráter é totalmente o oposto, já que o falso Golyádkin é uma pessoa alegre, segura de si e sempre rodeado de amigos. A partir daí o duplo entra na vida do Sr. Golyádkin como se sempre tivesse estado nela. O eu do Sr. Golyádkin se vê submetido a uma dura tortura psicológica, que Dostoiévski transmite com maestria com os monólogos interiores do personagem ao tentar explicar o que ocorre com ele durante toda a narrativa.

Desse ponto, Dostoiévski, sob um ponto de vista bastante surreal, questiona se o duplo de Golyádkin é real ou é uma criação de sua mente, brindando os leitores com uma constante perseguição através das claustrofóbicas e labirínticas ruas da cidade de São Petersburgo e das desventuras e pesares da mente do Sr. Golyádkin. Seu personagem vive uma crise de autoconsciência, onde a intriga e a tensão unem o processo narrativo neste relato inquietante, deixando ao leitor a pergunta: qual dos dois é realmente autêntico e quem possui a máscara. Dostoiévski ainda dá à narrativa um sentido crítico, para não dizer ácido, quando desde o início da história alude ao protagonista o topônimo de “nosso herói”.

Surpreende o poder de atração que exerce sobre o leitor este tipo de anti-herói, protagonistas de numerosos romances dos séculos XIX e princípios do XX. Quem sabe seja uma característica inevitável daquele momento, ou ainda um tipo de representação urbana e moderna da angústia universal do ser humano, algo que muitos escritores, como Melville, Kafka e outros trataram, e que chega ainda nos dias de hoje sem perder a atualidade.

Título: O duplo

Autor: Fiódor Dostoiévski

Tradução de Paulo Bezerra

Ilustrações de Alfred Kubininas

R$39,00

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Sobre Cadorno Teles

Cadorno Teles é resenhista e colaborador de diversos sites, jornais e revistas com resenha de livros e quadrinhos.

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