19 de maio de 2012

O Enteado (Juan José Saer)

É um livrinho fino, mas difícil, e mais de uma vez pensei em abandoná-lo pelo que contém de lentidão, de descrição minuciosa e obsessiva. De alguma forma, porém, eu podia perceber (e confirmaria depois) que o recurso às descrições era proposital. Quando se punha a descrever a vegetação, o clima, as menores particularidades do dia ou da noite (o modo como o sol se deslocava no céu, por exemplo), e quando tornava a narrativa, por causa desta descrição exacerbada (mas bela e poética) algo quase insuportável, era isto mesmo que Juan José Saer buscava fazer em O Enteado: tornar irreal um mundo absolutamente real e concreto, um mundo de areia, vegetação, rio.

Prolongando esta sensação de irrealidade ao longo da primeira metade do livro, Saer consegue transmitir ao leitor com inegável exatidão (se é que se pode falar em exatidão quando se fala em irrealidade) a experiência dos dez anos que o narrador, um europeu, um civilizado, passou entre os índios Colastiné. Como talvez gostem de dizer os especialistas, o livro tem vários níveis interpretativos. Pode-se dizer, por exemplo, que é uma elegante denúncia dos equívocos da colonização, ou que é uma crítica à arrogância dos autoproclamados cultos ou civilizados. Não me detenho em nenhuma destas interpretações, nem estou particularmente interessado em descobrir que motivos animaram Saer a escrever sua história. Estou interessado, isso sim, na irrealidade de O Enteado. Porque sempre que eu fechava o livro, depois de lê-lo com vagar, como convém a esse tipo de leitura, eu olhava para o mundo ao meu redor com uma sensação de estranhamento. E, de modo igualmente inquietante, sempre que eu o abria e retomava a leitura, e avançava por quatro, cinco, seis linhas, sentia como se estivesse deixando o mundo para trás e atravessando uma porta que me levasse diretamente aos Colastiné.

Na segunda metade do livro, quando o narrador finalmente deixa aquele mundo de pesadelo para trás (não se preocupe o leitor com esta informação, pois desde o começo, na contracapa, sabe-se que o narrador não está mais lá), a leitura fica um pouco mais fluída e o texto como que enfuna as velas. “Agora vai”, diz o leitor. Mas ele logo descobre, consternado, que o mundo civilizado não é menos incerto, nem menos irreal, que o mundo dos Colastiné. Aos poucos, como que para reforçar essa constatação desalentadora, ressurgem as descrições, as minúcias, e mesmo uma certa abstração, que acabam por se impor novamente. A prosa de Saer, tão deliberadamente lenta e ensimesmada, transmite com eficiência essa impressão de irrealidade, de absurdo, de abstração. A coisa chegou a tal ponto que pensei que Saer brincava. Há um trecho em que o narrador comenta, perplexo, o sucesso inesperado de uma comédia que ele mesmo havia escrito sobre suas próprias desventuras. Ele diz: “Às vezes, de propósito, modificava o sentido dos diálogos, retorcendo-os até transformá-los em períodos ocos e absurdos, com a esperança de que o público, percebendo, finalmente desbaratasse a impostura, mas essas manobras não modificavam em nada o comportamento das multidões.” Estaria Juan José Saer falando dos seus próprios procedimentos e de sua própria obra? Provavelmente não, mas não é descabido pensar que sim, pois ele logo emenda uma passagem que ilustra o valor do seu livro, recheado de pequenos achados filosóficos: “Algo exterior a eles, a fama que nos precedia ou a lenda que havia dado origem à comédia, havia determinado de antemão que nossa representação deveria ter um sentido, e a multidão, maquinal, encontrava-o de imediato, extasiando-se com ele.” Há ou não há aí algo muito verdadeiro a respeito do modo como pensamos?

 A despeito destes achados filosóficos (que pontuam, como oásis benfazejos, o grande deserto das descrições), comecei a me sentir cansado. Sentia falta dos fatos, dos prosaicos e reconfortantes fatos, tão indispensáveis numa narrativa. Saer, a partir de certo ponto, passara a fornecer explicações demais, ideias demais, pensamentos demais. O ato que se segue ao ato, a substância mesma de uma história, ausentou-se da narrativa, dando lugar à especulação filosófica. Senti-me ligeiramente defraudado, como alguém que compra um ingresso para uma comédia e se depara com um drama, ou vice-versa. Comprei narração e recebi ensaio. Se tivesse comprado ensaio, não teria me queixado. Terminei o livro com um sentimento contraditório: tinha lido uma obra de inquestionável valor literário, mas estava insatisfeito. Felicitava-me por ter lido, mas me perguntava se poderia reler. A despeito disso, eu tinha uma certeza: as imagens do livro permaneceriam por muito tempo na minha memória de leitor. Como o narrador, amarguei dez anos entre os índios Colastiné; como o narrador, padeci o pungente e insatisfatório convívio com a civilização. Estive dentro da narrativa – e não voltei indiferente. Esta é ou não é uma das maiores proezas da boa literatura?

Sobre o autor: Luiz Cavalcante é advogado, mas gosta mesmo é de literatura. Mantém um blog chamado DE CUJO NOME (www.decujonome.blogspot.com), onde arrisca crônicas, resenhas, microcontos ou qualquer outra coisa que lhe der na telha.

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