No ano de 1943, John Steinbeck atuou como correspondente de guerra do jornal The New Herald Tribune, vivendo com as tropas estadunidenses na Europa e presenciando a série de movimentos, investidas e contra-investidas dos soldados no intenso teatro de operações que era o velho continente. O “esforço de guerra” já havia mobilizado o autor, que escrevera em 1942 o bizarro Bombs Away, obra de propaganda que parecia ir contra uma série de princípios que ele defendera ao longo de toda a década de 1930 (e que espero ter conseguido esclarecer na resenha que publiquei aqui no Meia há algum tempo).
Usando de artigos curtos, que se assemelham mais a anotações em um diário do que propriamente textos que exploram a fundo determinadas temáticas ou eventos, Steinbeck consegue atingir pontos bem mais altos em Once There Was a War (cuja tradução talvez fosse “Havia uma vez uma guerra” ou “Era uma vez uma guerra”), coletânea dos artigos produzidos no calor da refrega, em 1943, cuja publicação em conjunto data de 1958. Alguns dos textos são fragmentos de diário, contando inclusive com local e data, e outros possuem títulos que versam sobre detalhes aparentemente banais do cotidiano da guerra, mas que alcançam expressividade na prosa do autor.
Ao contrário de Bombs Away, o livro de 1958 não pretendeu ser propaganda, nem usa do tom afetado e exacerbadamente patriótico. Steinbeck prezou pelo estilo que adotou na abordagem de suas obras da década de 30, com a diferença de que, apesar do flerte com ambos os lados da fronteira, Steinbeck produzia ali mais jornalismo do que literatura. São textos informativos nos quais a verve literária entra como bônus.
São três os cenários em que Steinbeck esteve: a Inglaterra, a África e a Itália. Nesse tempo conviveu tanto com outros correspondentes de guerra (inclusive com o famoso Robert Capa, com quem viajaria para a União Soviética em 1947) quanto com oficiais, censores e soldados comuns. O apreço e a simpatia de Steinbeck pelos últimos, tidos por ele como heróis anônimos e simples em seus mais diversos aspectos, podem ser notados em cada um dos textos.
Apesar de não conhecer os escritos de outros correspondentes de guerra nem de ter lido tantos livros a respeito da Segunda Guerra Mundial, arrisco-me a dizer que Steinbeck consegue manter certa singularidade ao buscar explorar o ordinário do cotidiano, aquilo que se constitui como o banal, mas que é, ao mesmo tempo, a espinha dorsal do vivido: as pequenas experiências que ocorrem às sombras dos “grandes eventos”. Uma das características que haviam consagrado o escritor com o Pullitzer aparecem nos textos de Once There Was a War sob diversas formas.
O patriotismo de Steinbeck repousa sobre sua formação, já que os pais e os avós cultivavam essa tradição a seu modo, seja pelo slogan “terra de oportunidades”, que trouxe os avós irlandeses para a América, seja pelo desbravamento e consolidação do Oeste, levado a cabo tanto pelos pais quanto pelos avós. Esse patriotismo, entretanto, convivia ora pacificamente ora de forma conflituosa com sua solidariedade com os despossuídos, fossem eles soldados rasos enviados em uma difícil missão-blefe na costa do Mediterrâneo, fossem eles uma família de pequenos proprietários que perderam suas terras para os bancos.
Na introdução da edição da Penguin Books, Mark Bowden sugere que talvez fosse melhor que Steinbeck tivesse tomado distância da guerra, não preocupando-se tanto com ela, ou pelo menos não da forma como procurou transparecer em suas obras do período. Essa talvez seja uma afirmativa por demais ousada (embora, sob certos aspectos, pareça cabível), mas o fato é que não se podia exigir que um escritor tão engajado como Steinbeck pudesse simplesmente ignorar o conflito ou tratá-lo como algo menor ou marginal: era um momento de tensão, um evento cujo potencial certamente arrastaria a vida de milhões de pessoas para um lado ou outro conforme o resultado da batalha. Concordo com Bowden em relação à infelicidade de certos posicionamentos de Steinbeck em relação a uma porção de coisas, contudo, basta procurar entendê-lo e tecer-lhe as criticas necessárias e cabíveis.
Você não encontrará grandes reviravoltas ou descrições primorosas sobre famosas batalhas em Once There Was a War como provavelmente achará em outros livros escritos sobre o período (e em especial nos filmes sobre o conflito). Por outro lado, o livro abunda em lampejos de brilhantismo no que tange a exploração do cotidiano, como as agruras da alimentação dos quartéis, os divertimentos dos soldados na espera da ação, o medo perante a incerteza do porvir, as conversas antes de dormir, as relações entre soldados comuns e entre eles e os correspondentes de guerra, as diferenças culturais enfrentadas pelos soldados norte-americanos na Inglaterra, na África e na Itália, enfim, sobre o caráter mais subjetivo da guerra.














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