A ideia inicial para a coluna deste mês era dar uma resposta um tanto quanto provocativa à coluna da Taize, que falou em defesa das pessoas que não leem, ou não tem esse hábito frequente. O problema é que, desde a última quinta-feira, alguns fatos alagaram, literalmente, minha vida e me fizeram postergar a defesa aos evangelizadores da leitura.
Para não deixar o leitor boiando, vamos aos fatos. No último dia 19 fui ver As aventuras de Tintim nos cinemas. A versão 3D não tem muitos atributos que justifiquem tal tecnologia, mas os óculos servem para mergulhar na trama muito bem montada pela dupla Steven Spilberg e Peter Jackson.
A fidelidade do filme às histórias desenhadas por Hergé é incrível. Os personagens como Tintim, Haddock e Dupond e Dupont me fizeram lembrar de tantas leituras das aventuras do intrépido jornalista. Apenas Milu ganha um ar mais infantil, mas que não compromete a trama.
Assim, com os óculos de mergulho no rosto, eu submergi na trama de tal maneira que me senti a bordo do navio do capitão Haddock enquanto este enfrentava sua revolta tripulação. Depois participei de suas alucinações e lembranças que fizeram brotar água em pleno deserto do Marrocos e que contaram a luta travada entre o navio do cavaleiro Hadoque contra o navio pirata de Hackham, o terrível.
Na saída do cinema eu devolvi os óculos, mas continuei respirando o ar marítimo do alto mar. Eu e minha tripulação entramos a bordo do nosso barco movido a quatro rodas e seguimos rumo ao nosso destino, uma leve garoa caía sobre São Paulo, o que deixava o alfalto molhado com aspecto de um mar noturno.
Navegamos por esquinas, vielas e ondulações até chegar a nossa segura embarcação. E enquanto eu amarrava firmemente o barco do lado de fora do navio, ouvi a irreverente comissária gritar em minha direção: “Raios! Uma tragédia aconteceu a bordo capitão, o navio está debaixo d’água”.
Caminhei até a popa do navio, incrédulo de tais palavras, e observei que a água vertia do teto das minhas acomodações. Crente da minha alucinação devido a sobriedade, retornei a estibordo até encontrar uma garrafa de tequila, e dois goles depois eu estava de volta à popa atônito observando a água escorrer do teto, luminárias e paredes para o chão das minhas acomodações. Não hesitei em bradar em alto e bom som:
Com mil milhões de macacos! Peguem todos os rodos, baldes, bacias e panos e vamos acabar com esses piratas gotejantes. Ao ataque, homens!
Infelizmente, minha tripulação era formada por mulheres que me olharam com reprovação como se eu estivesse em cima de um criado-mudo, segurando uma vassoura em uma das mãos e com uma panela na cabeça – fato absurdo, eu apenas trajava minhas vestes de capitão. Isso que dá não seguir os conselhos de outros companheiros náuticos ao dizer para nunca colocar uma mulher a bordo, nem mesmo uma amante.
Independente da tripulação, enfrentamos os piratas gotejantes com intrépida valentia. Depois de avanços, recuos, explosões e alguns confrontos de espadas entre um gole e outro de rum e tequila, o que sobrou foi o sangue amarelo de alguns piratas que vertiam enquanto estes ainda davam seus últimos suspiros. Após tal árdua luta, dormimos exaustos na proa.
Ao acordar, para meu espanto, minhas alucinações motivadas por Tintim e Hadocck já haviam desaparecido, apesar das manchas no teto e paredes do meu quarto que ainda indicavam a chuva que caíra dentro de casa. No final, o problema foi motivado por um entupimento na calha que causou a inundação, fato já resolvido. Mas deixo o alerta aos navegantes: cuidado ao assistir As Aventuras de Tintim, pois tamanha fidelidade pode transpor literalmente a tela dos cinemas.














hahaah muito bom, palazo. conseguiu tirar algo legal do incidente ^^
Obrigado Anica, foi muito divertido escrever a coluna deste mês.
Adorei, adorei o seu devaneio Palazo!
To ainda no aguardo da tua ~resposta~ mwahahaha
curti a aventuuuuura xD
A resposta virá em breve, por ora bora cantar Sérgio Reis guria.
“E nessa casa tem goteira, pinga ni mim”