22 de fevereiro de 2012

Aventuras de Menino (Mitsuru Adachi)

Não sou leitor costumaz de mangás, para falar a verdade, até pouco tempo atrás, eu tinha um pouco de preconceito com o formato e as especificidades dele. Tinha lido alguma coisa de Dragon Ball e Dr. Slump na minha adolescência (ou infância, não lembro ao certo), mas nada além disso. Como diria Heródoto, ledo engano de minha parte, pois lendo Aventuras de Menino, do japonês Mitsuru Adachi, pude ver como o mangá guarda surpresas e como lida com a humanidade com uma sensibilidade toda especial.

O mangá em questão possui sete capítulos com histórias distintas, independentes umas das outras. Apesar das várias distinções que as marcam, elas tem em comum o fato de lidarem com a passagem da infância à vida adulta, um processo complexo o suficiente para já ter gerado boas histórias, inclusive por ter um grau de universalidade dificilmente alcançável por outras questões, já que todos passaram ou passarão por ele algum dia.

O que torna tudo isso mais interessante é que os personagens são adultos quando narram suas histórias, por isso o tom de nostalgia que percorre todas elas. Há algo de belo e profundamente aconchegante em cada pequeno detalhe que transparece nas falas e nos traços. Mitsuru Adachi consegue criar um universo de significação pleno de sentido e de beleza ao tratar das aventuras cotidianas das crianças.

Contrapondo-se ao universo infantil encontra-se o mundo adulto, muito mais árido e distante, marcado pela modernidade desumanizadora. Essa característica se manifesta ora sob as vestes de bucolismo, localizando no ambiente campestre do Japão um reino de felicidade; ora por meio de brincadeiras imaginativas, que transcendem o aspecto cinzento da cidade para transformá-lo em um mundo onírico e aventuroso, seja num navio pirata, no período jurássico ou no espaço.

A sensibilidade com que o autor lida com essa mudança nos surpreende, pois ele nos atinge exatamente no cerne de nossa própria humanidade, lembrando-nos do quanto somos obrigados a mudar quando passamos à vida adulta. Um jovem que vive subsumido nas rotinas exaustivas de trabalho, em ‘Do outro lado da porta’, encontra alento ao retornar ao quarto em que passara sua infância, local onde se passavam suas aventuras imaginárias.

Todas as histórias, apesar de lidarem com a infância, se referem de forma pujante ao mundo adulto, pois é a partir das agruras desse que florescem as lembranças e situações da infância. É assim que em ‘Perdidos na estrada’ um grupo de amigos se reúne novamente e volta ao lugar onde passaram a infância para se darem conta de que nunca mais tinham mantido contato entre si; ou que em ‘Caderno de desenho’, um caderno de desenhos serve como dispositivo de lembrança, fazendo o protagonista lembrar-se de como os sonhos que embalaram sua infância foram deixados de lado há muito tempo.

O famoso e titânico ambiente metropolitano japonês, com sua profusão de luzes, letreiros, propagandas, telas, placas, sinais, prédios, concreto e tecnologias sofisticadas serve como contraponto à simplicidade da infância, tornando-se o ponto nodal a partir do qual os personagens das histórias se lembram com tanto carinho do tempo em que contavam a idade com os dedos das mãos. O traço preciso de Mitsuru Adachi, que opta na maioria das vezes pelo simples sem se tornar simplista, reconstrói tanto o inócuo ambiente moderno quanto o fabuloso ambiente da infância, dimensionando a profundidade das mudanças.

Apesar da série de resistências que o mangá enfrenta perante os leitores (entre os quais me incluía, minha mea culpa está no primeiro parágrafo desse texto), Aventuras de Menino se revela uma leitura agradabilíssima, intimista e emblemática ao retratar a situação de muita gente. Ele é prolífico, inclusive, para desvendar mais sentidos e expressões do que Marshall Berman explora em Tudo que é sólido se desmancha no ar, ou seja, de como a modernidade vem toldando as experiências das pessoas e fazendo-as construir paraísos perdidos, seja em projetos de sociedade, seja em utopias literárias, seja nas aventuras de suas próprias infâncias.

Aventuras de Menino
Tradução de Adriana Kazue Sada
216 páginas
Preço Sugerido: R$ 15,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da L&PM Editores


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Sobre Lucas Deschain

Lucas Kölln adotou Deschain depois de ler A Torre Negra, aliás, ler é algo que ele gosta muito. Além disso cursa História e adora o silêncio contemplativo das bibliotecas. Se surpreende (negativa e positivamente) com a humanidade todos os dias, gostaria de não precisar dormir e é dono de um perfeccionismo que beira a insanidade. Eclético com tendências a livros com Fantasia e fluxo de consciência.

Comentários

  1. Thales diz:

    Recomendo a resenha que o Maximum Cosmo fez sobre a obra e os artigos relacionados ao autor, ajuda a dar uma panorama bem interessante dos temas que ele costuma tocar: http://www.interney.net/blogs/maximumcosmo/2012/01/12/mitsuru_adachi_parte_iv_avmenino/

    E mangá é muito mais que Dragon Ball e similares, esse pertencem a gênero de aventuras juvenis dedicadas a garotos (o chamado shonen). Existem praticamente mangás sobre qualquer assunto, gênero e idade. Desde destinados a crianças até mulheres nas faixas dos 30, passando por executivos e jogadores de mah-jong profissionais.

    É uma pena que o mercado brasileiro ainda não amplia o espectro de publicação, mas se alguém se interessar o mercado norte-americano e francês possuem uma variedade muito maior de títulos.

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