23 de fevereiro de 2012

Sanguínea (Fabiano Calixto)

De uns tempos para cá eu tenho lido muito mais literatura brasileira do que de costume. Carol Bensimon, Antônio Xerxenesky, Daniel Galera, J. P. Cuenca são alguns dos exemplos. É notável, porém, a falta de poetas entre essas leituras – uma falta quase que imperdoável, sendo que não só gosto de poesia (colocando-me, assim, em um grupo relativamente pequeno de pessoas, como já escreveu a Szymborska), mas ultimamente tenho versos à prosa.

É claro, não faz muito tempo eu andei resenhando o Piva. Mas um só é pouco, e ele não é exatamente contemporâneo. Eu suspeitava que devesse existir algum outro poeta que valesse a pena ler. Não precisei procurar: o Tiago fez com que Sanguínea, de Fabiano Calixto, viesse parar em minhas mãos.

É preciso dizer que a única referência que eu tinha do livro e do autor eram o próprio Tiago. De resto eu sou, naturalmente, bastante desconfiado de todo e qualquer poeta. Além disso, andei folheando as primeiras páginas e vi uma dedicatória que dizia ‘So I sing a song of love para Juliana, todos os poemas’: Poemas de amor? Que droga! – pensei. Via de regra, só poetas muito bons conseguem escrever esse tipo de poema sem cometer algum tipo de atentado contra a humanidade.

Acabei, no entanto, por me enganar. Existem, no livro, uma infinidade de poemas de amor. Mas eles não são ruins como meu primeiro impulso me levou a crer. São suaves, por vezes um pouco melancólicos – outras vezes otimistas. Mas a grande questão é que mesmo os poemas de amor de Calixto não são somente poemas de amor. São instantâneos da vida, da qual o amor faz parte – tanto quanto qualquer outra coisa – a morte, política, sofrimentos, alegrias, música, literatura.

Tudo está misturado ali. Existem poemas que mencionam os Beatles e Anna Akhmátova. Outras vezes é a própria linguagem que é posta em cena, ou ainda a situação sócio-política do Brasil. A única coisa que nunca abandona os poemas presentes em Sanguínea é uma espécie de autoconsciência sobre o próprio fazer poético, sobre a visão do poeta que empresta, de seus próprios sonhos e anseios, a beleza que quer ver no mundo e imprimir nos versos.

Ainda estou começando a conhecer a literatura brasileira contemporânea. Já conheço uma boa quantidade de prosadores, mas Calixto é o primeiro poeta brasileiro da atualidade que li e que realmente parece merecer uma publicação. Não posso dizer se é ou vai ser um grande poeta – conheço pouco de sua obra e, de qualquer modo, é cedo para afirmar algo assim -, mas de qualquer maneira Sanguínea é uma excelente leitura.


Artigos Relacionados:

  1. Menino Perplexo (Israel Mendes)
  2. Poemas Famintos (Valmor Bordin)
  3. Leia-me Toda (Claudia Schroeder)
  4. Poemas Escolhidos (Emily Dickinson)
  5. Farewell (Carlos Drummond de Andrade)
Sobre Luciano R. M.

Descendente de judeus sefaradis, ashkenazis e de gentios, Luciano R. M. é médico, estudante de literatura polonesa e entusiasta do anarquismo- apesar de achá-lo utópico Não acredita em médicos que não leram Dostoievski ou Tolstói e gosta muito de literatura contemporânea e cerveja.

Faça seu Comentário

*