23 de fevereiro de 2012

O livro dos esnobes (William Makepeace Thackeray)

Consta que a palavra “esnobe” veio do inglês “snob”, cujo primeiro significado foi “fazedor de sapatos” (usado por volta do século XVIII). Passou a ser adotada como gíria na Universidade de Cambridge para comerciante local ou homem da cidade cerca de quinze anos depois, e no século XIX mudou de sentido: falava de uma pessoa de classe social “inferior”. É engraçado que atualmente, se formos usar essa palavra para falar de uma pessoa, o sentido será de alguém que se considera superior aos demais. O esnobe do livro de William Makepeace Thackeray encontra-se em uma zona cinza entre a penúltima e a última definição (mas sim, um tanto mais próximo da última).

Thackeray os descreveu detalhadamente em uma série de artigos para a revista inglesa de humor chamada Punch. A coluna semanal chamava-se “Os esnobes da Inglaterra: por um deles”, sendo publicada entre 1846 e 1847, e na época foi um sucesso (embora alguns “colegas” do escritor não aceitassem muito bem os textos). Tanto é que no ano seguinte foi lançada como livro, mais ou menos na época em que publicava também o romance Vanity Fair, talvez seu trabalho mais conhecido.

O livro fala dos tais “esnobes” ingleses sem qualquer medo, ninguém é poupado. Desde o “esnobe do campo” até mesmo o rei, todos são retratados brilhantemente por Thackeray, que tem como principal característica um senso de humor apuradíssimo que usa como uma arma para construir a crítica que faz da sociedade em que vivia. Ao pegarmos alguns detalhes da biografia do escritor, veremos que sua vida possibilitou que conhecesse os mais variados tipos de esnobes, incluindo aí, como dizia o título na revista Punch, ele mesmo.

Cada capítulo aborda um tema, embora algumas vezes ele se repita no capítulo seguinte. Mesmo que fique evidente que há em determinados momentos uma certa continuidade entre um capítulo e outro, eles podem ser lidos separadamente (voltando a lembrar que foram criados desta forma, já que cada “capítulo” equivale a uma coluna publicada no Punch). Para descrever os esnobes e tecer seus comentários sobre eles, Thackeray utiliza breves anedotas, algumas engraçadíssimas, outras que não deixam de causar estranheza por mostrarem uma realidade que não existe mais.

De qualquer modo, o que chama a atenção é como Thackeray, ao falar daquela Inglaterra do século XIX, consegue ser extremamente atual mesmo nos dias de hoje. Um capítulo que chama particularmente a atenção nesse caso é o de “Os esnobes literários”. Aqui a acidez do humor do autor está no máximo, até porque ele fala dele mesmo e de seus colegas, mas mais do que isso, da dificuldade de ter como profissão o ato de escrever.

Leitura muito gostosa, especialmente se o livro for lido com o mesmo propósito pelo qual foi criado, o humor. Prestem atenção especialmente aos desfechos de cada capítulo, de como Thackeray é capaz de fazer rir e refletir ao mesmo tempo. Como quando conta uma anedota envolvendo dificuldades que encontrou em um jantar com comida turca, conclui que “A moral dessa história, não preciso dizer, é que há muitas coisas desagradáveis na sociedade que você está fadado a engolir, e engolir com um sorriso no rosto.” É, certamente, um daqueles casos que explicam muito bem a boa fama do humor britânico.

O livro dos esnobes
William Makepeace Thackeray
Tradução: Reinaldo Guarany
332 Páginas
Preço sugerido: R$14,00

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Sobre Anica

Bacharel em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em Ensino de Línguas Estrangeiras Modernas pela UTFPR, professora de Língua Inglesa e mãe. Tem uma quedinha descarada por filmes e livros de horror, de preferência os com zumbis. Pode ser encontrada também no .:Hellfire Club:., no Ministry of Zombie Walks e no Blog do Arthur.

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