23 de fevereiro de 2012

Assim falou Zaratustra (Friedrich Nietzsche)

Não devemos hesitar ao descrever a posição que Assim falou Zaratustra ocupava para Friedrich Nietzsche, não só no interior de sua própria obra, mas na história da cultura: é, simplesmente, o de livro máximo, jamais escrito. “Com ele fiz à humanidade o maior presente que até agora lhe foi feito”, dirá em Ecce Homo (1888), seu balanço de vida, feito diante da morte e mergulhado na loucura. E é difícil não se ver desnorteado com esse livro, absolutamente inclassificável na história da filosofia. Ao mesmo tempo, a auto-ironia de Nietzsche é tão absoluta e livre aqui, que ele é capaz de escrever seu primeiro e único evangelho – só aceitável porque também quer ser o último texto desse gênero.

Um leitor algo desavisado por ver em Zaratustra uma espécie de paradoxo na obra de um autor que levou às últimas consequências seu desprezo por aquilo que é da ordem da submissão, cuja invenção e alastramento por todo o Ocidente atribui ao cristianismo. Afinal, o que faz Nietzsche escrevendo pequenas parábolas, impregnadas de figuras alegóricas, cheias de profecias – elementos tão característicos da retórica bíblica? Para além da ironia (e não existiu um filósofo que soube melhor elevá-la à condição de atributo do pensamento), a verdade é que esse suporte textual moralista é a base da nossa vida ocidental e seu autor sabe disso – e quer deixar esse fato exposto. Não há uma linguagem que não seja cristã, que ela não tenha capturado ou forjado, assim como não há homem que não seja apenas ovelhas em Nietzsche. A aceitação de que nós devemos dirigir os nossos esforços para que a fraqueza auto-imposta aos homens em busca de uma vida que é mera sobrevivência – uma vida de rebanho – seja extinta, não na autodestruição, mas na passagem para outra coisa: eis o legado do Zaratustra de Nietzsche.

Já numa das primeiras passagens do livro, a que mostra a chegada de Zaratustra de volta de seu exílio diante de uma platéia esperando um malabarista, ele dirá: “Grande, no homem, é ser ele uma ponte e não um objetivo: o que pode ser amado, no homem, é ser ele uma passagem e um declínio”. Como escreve Kafka, algumas décadas depois: “Há salvação, mas não para nós”. Ao contrário das leituras fáceis e de fundo fascista que se apropriam da obra de Nietzsche, o super-homem não é o “mestre da raça”, mas simplesmente alguém que ama tanto a vida que é capaz de desejá-la para além da mediocridade de si, de sua geração e de seu tempo. E capaz de amá-la tanto que que pode desejar vivê-la de novo – na perspectiva de um “eterno retorno”, de que ela se repita, sem ver nisso a passagem pela penitência, mas uma satisfação sem peso na consciência – aliás, sem “consciência”, essa criação baseada numa dívida inexistente. Esses dois grandes temas de Nietzsche – o super-homem e o eterno retorno – estão no centro de muitos dos pequenos textos que compõem esse “romance filosófico”.

Aliás, a relevância de se pensar o “homem” enquanto construção de um rebanho e não uma entidade dotada de uma “essência” (alma, razão, fala, etc.), se torna cada vez maior com as expectativas que surgem na manipulação dessa “natureza”, dos genes, para transformar esse ser humano em outra coisa. O filósofo alemão Peter Sloterdijk (1947-) entreviu brilhantemente, num livro intitulado Regras para o parque humano, o potencial de Zaratustra para esse debate,  em especial do capítulo “Da virtude dadivosa”, que fala, entre outras coisas,  sobre o apequenamento constante do homem, de sua “natureza”, para que ele se encaixe em suas casinhas, que também vão diminuindo, até que se transformem em cocheiras. A outra coisa da genética é igualmente a possibilidade de abertura para a implementação de rebanhos. A outra coisa pode ser a mesma, mais domesticada ainda.

Da mesma forma que o horizonte do homem deve ser outra coisa, e não é à toa que este livro, assim como várias outras obras suas, seja de uma alta experimentação da linguagem, derivadas de uma dupla tarefa: a denunciar sua natureza metafórica, isto é, não há uma “verdade última” que não seja uma farsa e um dispositivo de dominação; e, ao mesmo tempo, a de quebrar essa forma de falar, pensar e agir herdeira de uma raça escravizada.

Assim, não é estranho que Nietzsche recupere o fundador do Zoroastrismo, inventor do monoteísmo e do dualismo entre o bem e o mal, não apenas para mostrar o erro fundamental de sua criação, mas para mostrar que ele é o primeiro a notar o dano que cometeu e que buscou remediar. É como se ele vislumbrasse, no momento inicial da formação da nossa civilização domesticada, a possibilidade mesmo de uma outra humanidade, ou seja, um além-humano.

Zaratustra pode causar distensões entre seus leitores, principalmente com aqueles que se iniciam na obra de Nietzsche. Da mesma forma que alguém pode considerar esse seu livro mais acessível, e que tem a vantagem de ser uma espécie de suma de todo o seu pensamento, a densidade das pequenas narrativas e das visões de Zaratustra, muitas vezes paradoxais e que soam rudes aos nossos ouvidos (para nós, amantes da “democracia”, é difícil ouvir falar que os homens não devem ser iguais), ao mesmo tempo em que são sonoras, torna este um livro para ser lido aos poucos, com dedicação.

Em um dos capítulos mais intempestivos do livro, “Do ler e escrever”, lemos uma pequena declaração daquilo que Nietzsche espera dos livros e de seus leitores:

De tudo escrito, amo apenas o que se escreve com o próprio sangue. Escreve com sangue: e verás que sangue é espírito.

Não é coisa fácil compreender o sangue alheio: odeio os que leem por passatempo.

Quem conhece o leitor nada mais faz pelo leitor. Mais um século de leitores – e até o espírito federá.

Que todo mundo possa apreender a ler, a longo prazo isso estraga não só a escrita, mas também o pensamento.

Outrora o espírito era Deus, depois se tornou o homem, agora está se tornando a plebe.

Quem escreve com sangue e em máximas não quer ser lido, quer ser aprendido de cor.

O que Nietzsche espera do leitor? Nada! “Apreender a ler” é apenas uma extensão da instrumentalização. É da vontade, de cor (coração), que deriva a força e o saber. Não do “entendimento” como “instrução”, enquanto pedagogia de rebanho. E nesse sentido é que podemos entender seu subtítulo: “Um livro para todos e para ninguém”.

(Peço desculpas, mas sobre esse assunto, remeto ao texto da minha última coluna, “Instrução literária”, que originalmente era um rascunho desta mesma resenha).

Por último, e não menos importante, não podemos deixar (de novo!), de saudar o empreendimento de Paulo César de Souza em traduzir todo o Nietzsche para o português, em edições muito bem cuidadas, e com notas valiosas (o que vale igualmente para a obra de Freud que ele também está coordenando).

Título: Assim falou Zaratustra

Autor: Friedrich Nietzsche

Tradução: Paulo César de Souza

360 páginas

Preço: 42 reais

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras


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Sobre Tiago Pinheiro

Tiago Pinheiro é jornalista, academicista, panfletista, piadista de funeral, jogador de GO e entusiasta do cinema soviético revolucionário.

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