Italo Calvino (1923-1985) pertenceu a uma geração de escritores, cineastas e artistas italianos que passaram por um processo de criação vertiginoso, com mudanças tão drásticas de seus pressupostos, que, sem que se possa ver nisso uma incoerência, tomaram para si a tarefa de buscar por um novo modelo de imaginação aceitável durante tudo aquilo que o século XX viu e sofreu. Essa jornada começa para Calvino com sua filiação à famosa escola do Neorrealismo Italiano (em A trilha dos ninhos de aranha, de 1947), lutando contra o fascismo e sua herança e passando à fabulação e ao resgate de histórias populares (O cavaleiro inexistente, O visconde partido ao meio, Fábulas italianas, entre outros livros dos anos 1950), chegando à experimentação extrema de escrita a partir de estruturas, regras e restrições auto-impostas, herdadas da OuLiPo de Raymond Queneau e Georges Perec, em que aparecem suas obras-primas (Cidades invisíveis, de 1972).
Tal capacidade de articulação só encontra paralelos no cinema de Federico Fellini (1920-1993), indo dos primeiros trabalhos sob a tutela de Roberto Rossellini para terminar na loucura de A Voz da Lua, sem esquecer o resgate de histórias da Roma antiga em Satyricon ou da alegoria fantasmagórica da Segunda Guerra Mundial em La Nave Va. Mas é na criação de um estranho gênero – uma espécie de meta-ficção-científica – que o melhor dos dois artistas se encontra: o cineasta com o extraordinário 8 ½ e o escritor com esse volume que reúne Todas as cosmicômicas, em 35 histórias.
Seguindo a linha de sua fase mais madura a qual pertencem livros como O Castelo dos Destinos Cruzados e Se um viajante numa noite de inverno, Calvino trabalha a partir de um “contrato” com seus textos, uma premissa da qual eles devem surgir. Se naqueles compôs seus livros com ajuda de baralhos de tarô ou com capítulos iniciais de livros nunca terminados, neste conjunto de contos dedica-se a recuperar uma série de teorias científicas, muitas delas desacreditadas. Problemas como a origem da Lua, a curvatura do espaço ou a extinção dos dinossauros ganham matizes próprios ao serem narrados por esse personagem de nome impronunciável, Qfwfq, o último sobrevivente de uma raça humana de tempos imemoriais, que presenciou tudo, desde o surgimento do universo (e mesmo antes!).
Mas se o cenário é cósmico, astronômico, as narrativas são “cômicas”, naquele sentido antigo, o mesmo que Dante confere a sua viagem do Inferno ao Paraíso: a comédia como aquilo que é da ordem do humano e não dos deuses ou dos astros.
Assim, quando lemos as histórias do afastamento da Lua ou do surgimento da atmosfera (e com isso o aparecimento das cores), estamos lendo de fato narrativas sobre o amor e a perda (“A distância da Lua” e “Sem cores”). O desespero da solidão e do esquecimento é medido em distâncias incomensuráveis, impossíveis de serem percorridas por nós, humanos, e, no entanto, todos somos capazes de senti-la, como acontece em “Um sinal do espaço”, em que se conta os esforços de alguém para mandar uma mensagem como prova de sua existência enquanto sua galáxia se afasta das outras, isolando-se no espaço. E a esperança incorruptível de que uma mensagem seja lida e a memória de uma vida persista é recompensada, ironicamente, 100 milhões de anos-luz e oito contos depois, quando Qfwfq vê, com seu telescópio, um sinal brilhando de um quasar afastado que diz “Eu te vi”. Quando busca em suas agendas o que estava fazendo no dia que a mensagem foi enviada (há 100 milhões de anos), percebe que algum segredo desagradável foi descoberto.
A vaidade humana atravessa todas as distâncias e todos os tempos, algo que também aparece em “A memória do mundo”, um dos meus preferidos, em que o funcionário de uma empresa dedicada a registrar tudo que se passa e o que se passou no planeta Terra e nas vidas humanas que o habitaram, encontra nesse mecanismo a forma mais perfeita de vingança: o esquecimento total.
Calvino sempre foi um mestre da criação de grandes telas fabulosas por meio das palavras. Na já mencionada “A distância da Lua”, a proximidade do nosso astro permitia que os habitantes terrestres subissem nela com uma escada e que os peixes, capturados entre duas gravidades, voassem como se fossem enxames cruzando os céus.
Em “A espiral”, a forma da concha do molusco é a base para uma história de amor, sobre a natureza da vida e da arte. E ainda, num dos contos mais experimentais do conjunto, intitulado “T=0”, Calvino se detém numa única imagem – a de um arqueiro pronto para atirar uma flecha na direção de um falcão –, momento em que o tempo é abolido, para sempre congelado nesse instante tenso. Enquanto descreve cada um dos pontos da imagem paralisada (dos músculos do arqueiro às penas do pássaro, passando pelos tipos de flechas encontradas na aljava), o texto apresenta as diversas possibilidades acerca da natureza do tempo, imaginando quais seriam as consequências posteriores daquela cena em cada uma delas. É, inclusive, um conto sobre a própria natureza da escrita: esse tempo congelado, que é limitado pela linha e pela página, e que, contudo, é capaz sempre de oferecer uma nova possibilidade daquilo que acontecerá a seguir (e não só ao personagem do texto, como também ao leitor).
A falência das supostas “leis do universo” proclamadas por diversas teorias científicas ao longo da história, em Calvino, parecem exibir que a verdadeira persistência se encontra nos pequenos hábitos humanos – o amor, a vaidade, o temor, o desejo pela permanência, pela comunicação – e a única libertação vem da liberação do tempo enquanto força daquilo que está para além do meramente possível.
Título: Todas as cosmicômicas
Autor: Italo Calvino
Tradução: Ivo Barroso e Roberta Barni
368 páginas
Preço: 52,50 reais
Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras















Cara, linda a tua resenha. Sou abertamente fã de (e obcecado por) Calvino e fiquei com uma pergunta martelando na cabeça: Por que, mesmo após um sem-número de pessoas dizer que as Cosmicômicas de Calvino são lindas, eu ainda não as li?
Li outros dele, quase todos citados por você. O cara era um gênio.
Fico muito agradecido com sua leitura, Arthur. Você é um cara que sempre tá acompanhando o Meia e também é um leitor voraz, se não me falha a memória dos censos.
Recomento muito o livro, não deixe de lê-lo. Se quiser, pegue um conto aleatoriamente e leia-o, e o resto certamente virá (-risos-)
Abraço!
Já faz um tempo que não atualizo meu cendo literário, Tiago. Ano passado, trabalhando e estudando, mal atualizei a lista de livros (bons) lidos no meu blog mesmo. Ainda bem que o Skoob está aqui para salvar nossas vidas (e memórias).
Acho que tenho um probleminha com Calvino em pedaços. Adorei os romances/novelas que li (ainda que seja um Se um viajante numa noite de inverno ou um Cidades invisíveis, deliciosamente fragmentados, mas com um fio condutor — o leitor e Marco Polo, respectivamente — que não nos deixa chamá-los de coletâneas de contos), mas reconheço que tive um probleminha com os textos menores — em tamanho, não qualidade. Li alguns capítulos de Por que ler os clássicos, mas decidi-me que só retornaria ao livro após ter lido todos os clássicos citados (ou, ao menos, o principal de cada capítulo, não os incidentalmente citados); talvez tenha terminado o Seis propostas para o próximo milênio, mas, como a leitura se estendeu por anos, teria que ler tudo de uma vez para ver se realmente li o texto integralmente; de contos mesmo comecei Os amores difíceis, mas, de alguma forma, ele não me pegou (gostei dos contos que li, mas fiquei decepcionado comigo mesmo por não ter lido os demais contos).
As Cosmicômicas parece-me uma leitura de fôlego, até pela grossura do livro. Pela tua resenha, o fio condutor parece estar mais claro, além de ser forte ao ponto de unir mais de um livro nesse volume [já tinham me falado, mas fui pesquisar na Wikipedia: Una qualche confusione può essere ingenerata dal fatto che altre tre raccolte di racconti di Calvino Ti con zero (Einaudi, 1967), La memoria del mondo e altre storie cosmicomiche, (Club degli Editori, 1968) e Cosmicomiche vecchie e nuove (Garzanti, 1984) fanno parte della serie di racconti pseudoscientifici e fantastici "cosmicomici" e i racconti che le compongono sono spesso indicati nella loro globalità come Cosmicomiche (e sono stati raccolti in volume con il titolo di Tutte le cosmicomiche)]
Certamente vou atrás. Não prometo será o próximo que lerei, afinal acabei de pegar emprestado O vinconde partido ao meio, mas sim que tentarei ler esse ano ainda. Abraço!
Tá, um erro logo no começo do comentário é fogo.
censo*