18 de maio de 2012

Bombs Away – The Story of a Bomber Team (John Steinbeck)

É dito que foi com o livro Luta Incerta, publicado em 1936, que Steinbeck despertou críticas ferrenhas em relação a seu posicionamento político, justamente pela posição de esquerda que assume e o tom de simpatia pela revolução e pelo socialismo, com o qual a obra toda está permeada. A polêmica gerada pelo livro soa estranha quando posta diante da polêmica causada por outro de seus livros: Bombs Away – The story of a bomber team (sem tradução no Brasil, é algo como ‘Soltar Bombas! – A história de um time de bombardeio), publicado em 1942, por conta da enorme diferença de posicionamento político-ideológico que o autor apresenta.

Se na obra de 36 encontramos um Steinbeck embalado pelos questionamentos que pululavam por todo o país, que se agitava com a ressaca da crise de 29 e refletia sobre a situação que estava posta; em 1942 a preocupação era outra: o célebre (e controverso) esforço de guerra. Steinbeck percebeu que não podia simplesmente ignorar a Segunda Guerra Mundial, e resolveu tomar parte nele da forma que achou mais adequada: quase contraditoriamente, ele assume uma posição conservadora que praticamente em nada questiona da guerra em si, e que enxerga a refrega como uma batalha dura, mas “necessária”, em nome de um bem maior: livrar o mundo da ameaça do nazismo. Falando assim, pouco se pode questionar da opinião de Steinbeck, mas a passividade dele diante de outros aspectos do processo é que estarrece.

O livro Bombs Away é tido como um dos menores e mais infelizes livros do autor, porque toma a guerra como um acontecimento inevitável, a qual tem de se aceitar como algo dado. Steinbeck se vale de um estilo pouco (ou nada) crítico, e portanto raso, que preza pelas informações elogiosas ao sistema de recrutamento e treinamento dos soldados que viriam a integrar os times de bombardeiros a bordo das famosas “fortalezas voadoras”, os B-17 e B-24. Ele explora cada uma das funções que integram um time de bombardeio, desde o piloto até o navegador, do responsável pelo rádio até o artilheiro e o engenheiro mecânico, construindo, inclusive, mini-histórias com personagens fictícios para expor melhor os detalhes dos programas de treinamento e do cotidiano do quartel.

Não à toa o livro é tratado como propaganda: trata-se de uma espécie de documento para tornar público o funcionamento dos programas de recrutamento e treinamento, e reconhecer os “valorosos” serviços que eles estavam prestando ao alistarem soldados e fazê-los integrar as forças armadas norte-americanas. O detalhe é o silêncio diante dos motivos e das consequências humanas da guerra, não é feito questionamento algum sobre a rígida disciplina, nem sobre os massacres que aviões de bombardeio causam, ou sobre o horror da guerra, sobre as implicações filosóficas, morais, éticas, políticas, etc. de tais manobras ou ações. Esse silêncio é preenchido com louvores ao treinamento duro e que “enrijece o caráter” dos jovens soldados.

Apesar de todas as críticas que se devam dirigir ao livro, há algumas ressalvas que devem ser feitas também. É curioso (e às vezes decepcionante) ver Steinbeck falando de algo de forma tão diferente do que estamos acostumando. Se em As Vinhas da Ira, por exemplo, vemos um Steinbeck questionador, explorando a dramaticidade do momento e desnudando as facetas mais desumanas do rescaldo da crise de 29; em Bombs Away quase não o reconhecemos. Ele perdeu toda a pujança crítica, assumiu valores que aparentemente são contraditórios aos que defendia até pouco tempo atrás.

Marcas típicas de suas obras são possíveis de ser observadas no livro, tais como a elevação da coletividade ou do grupo perante o individual e a crença de Steinbeck no que vou chamar aqui de “sentimento americano”.

Na década de 30, Steinbeck desenvolveu vários textos (presentes muitas vezes em cartas que ele escrevia) que versavam sobre o que ele chamou de “falange”, a coletividade, o grupo de sujeitos aproximados pela condição de vida e, consequentemente, de posicionamento político. Quem sabe isso não se aproximasse ao sentido de “classe” no sentido marxista do termo… algo que ainda deve ser explorado, na minha opinião. Em Bombs Away, conquanto a posição ideológica seja diametralmente oposta ao do filósofo alemão e de seus herdeiros, não se pode deixar de notar que o grupo exerce papel importante perante o sujeito individualizado. Quem sabe não fosse uma “falange”, apesar dos pesares?

Mesmo durante a crise e o espiral de visões pessimistas e apocalípticos em torno dela, Steinbeck partilhou de um “sentimento americano”, embora bastante diferente daquele demasiadamente ufanista com o qual estamos acostumados. Os ensaios de não-ficção A América e os Americanos são indícios disso, e a cobrança feita pelo autor em relação ao governo no que tange aos direitos do povo americano exprimem um senso crítico apurado, mas não completamente desvencilhado de um orgulho patriótico latente. Ainda que se distinga em uma porção de sentidos nesse patriotismo, Steinbeck tinha a América em alta conta. Boa parte do élan que o fez escrever Bombs Away deve ter vindo daí.

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Sobre Lucas Deschain

Lucas Kölln adotou Deschain depois de ler A Torre Negra, aliás, ler é algo que ele gosta muito. Além disso cursa História e adora o silêncio contemplativo das bibliotecas. Se surpreende (negativa e positivamente) com a humanidade todos os dias, gostaria de não precisar dormir e é dono de um perfeccionismo que beira a insanidade. Eclético com tendências a livros com Fantasia e fluxo de consciência.

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  1. [...] que ele defendera ao longo de toda a década de 1930 (e que espero ter conseguido esclarecer na resenha que publiquei aqui no Meia há algum [...]

  2. [...] e experiências pelos quais passavam. O resultado desse “esforço de guerra” foram duas obras: Bombs Away (Soltar Bombas!, sem tradução), propaganda para o “esforço de guerra” e Once there was a war [...]

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