Já não é de hoje que os quadrinhos ganharam um status de independência que nos permite pensá-los segundo suas próprias regras de composição, para usar uma definição clássica de “arte”. Talvez um sinal mais recente e mais avançado desse processo se encontra no gesto de questionamento que certos títulos tenham lançado em relação a outros campos independentes do conhecimento, e mesmo em esferas inesperadas, tais como a matemática (na peculiar biografia de Bertrand Russel, utilizada como alicerce para uma história da lógica, em Logicomix) e a crítica literária (La Argentina en pedazos, de Ricardo Piglia). Asterios Polyp, de David Mazzucchelli (isso mesmo, aquele mesmo que trabalhou com Frank Miller em Demolidor: o homem sem medo e em Batman Ano Um!), também se encaixa aí, estabelecendo uma aproximação intima, mas também crítica, com a arquitetura – tanto que, após lê-lo, não temos quaisquer dúvidas de que essa relação deveria ser incrivelmente óbvia. Afinal, a estrutura geométrica traçada na página, inclusive naquele formato tradicional que dá nome a essa modalidade artística (“quadrinhos”), é erigida seguindo uma série de decisões sobre aquilo que é interno e externo, sobre os vínculos estabelecidos entre espaços separados, sobre o modo como se organiza as linhas dessa divisão e sua função para a compreensão de uma forma de viver, tão fundamentais a essa como àquela. Alias, é essa noção de “formas de viver” que está no centro desse volume, assim como está no centro desse “arquiteto de papel” (em vários sentidos) que é Asterios Polyp.
O primeiro “papel” que dá características a esse arquiteto é o fato de ser um premiado profissional que, no entanto, nunca teve uma de suas obras postas em prática. Jamais teve um de seus projetos de fato postos em pé. Tornou-se um teórico de primeira linha e um professor renomado da Universidade de Ithaca. Professor de linhas duras, por assim dizer.
E aí vem seu segundo papel.
Polyp estabelece que só há duas linhas dentro da prática arquitetônica: uma “factual”, parte dos próprios materiais para pensar a estrutura a ser construída, dando a tudo uma funcionalidade, sem adornos; a outra “ficcional”, cria uma ilusão, escondendo sua estrutura sob moldes variados, decorativos, supérfluos. Como se pode perceber, a ênfase do que seria uma “boa arquitetura” já vem nas próprias definições do personagem. Mas não é só isso: seu modo de ver o mundo é fundamentalmente dualista. Tudo se forma na luta de opostos – interno/externo, belo/feio, forte/fraco, útil/inútil –, e há sempre um lado a se escolher. Aliás, isso é mostrado brilhantemente ao longo das ilustrações, que permitem que “visualizemos” esse jeito de organizar o mundo de Asterios Polyp, principalmente em seus momentos de maior implicação para aqueles ao seu redor. Como é possível imaginar, Polyp escolhe o lado certo (pelo menos, em sua própria visão). Mas isso tem um preço.
E eis o seu terceiro papel.
Essa visão dual de mundo parece ter uma explicação psicológica que se instaura já em seu nascimento. Na verdade, Polyp teve um irmão gêmeo, que morreu pouco depois do parto. Esse fantasma, esse seu duplo, assombra-o a vida toda. Se toda a vida está estruturada em dualidades em disputa, então Polyp é aquela que venceu. E isso parece perturbá-lo, já que faz tudo para compensar esse outro, essa falta: chega a instalar câmeras de vídeo em todo o seu apartamento para que esse olho mecânico seja o olho “de alguém”. Mas aqui a conta começa a não fechar. Porque não são duas visões que temos ao longo do livro e sim três.
E esse é o quarto papel de Polyp.
Quando abrimos o volume, encontramos um Polyp no auge do desgosto, só, prestes a se afundar em dívidas. E então seu apartamento pega fogo e ele perde tudo. Foge para uma cidade pequena na qual passa a trabalhar como mecânico. Mora com uma família peculiar (o dono da oficina, sua esposa vidente e um garoto rechonchudo – além de uma espécie de agregado anarquista que tem uma banda de punk folk). Essa é a primeira linha narrativa do livro, uma visão daquilo que Asterios pode ser (ou daquilo que seu irmão poderia ser). A segunda, conta-nos a história anterior de Polyp, como teórico de sucesso, frequentador de festinhas acadêmicas, pronto para impressionar algumas mulheres. Até que conhece uma nipo-americana chamada Hana, com quem passa a dividir a vida. A terceira visão é uma espécie de questionamento “meta-artístico” sobre as possibilidades de alinhar formas de vida, tanto na arquitetura, como na narrativa que se está colocando. É um questionamento sobre o trabalho de desenhar uma vida em quadrinhos, na própria “objetividade” com que é possível descrever os estados de ânimo dos personagens. “E se a realidade fosse uma mera extensão do self?”, pergunta essa voz anônima que chamamos “o narrador”. O comodismo das transparências é, na verdade, a própria demanda que Asterios coloca como mote de sua vida. Pelo menos até perder Hana. Falha em seu trabalho de criar “formas de vida”, em fazer como que a vida de “um” somada a vida de mais “um” dê um outro número que não um “dois” conflituoso, ansioso para voltar ao “Um” imperial. Não consegue armar um modo de arranjar espaços que não seja a da divisão, nem da invasão, mas a da convivência, do viver-junto.
E aí, Polyp perde seus papéis.
E só nos resta o papel de Asterios Polyp para contar sua história.
Antes de terminar, na limitação do meu espaço, é preciso reforçar como toda a parte imagética desse trabalho é muito bem feita. Os enormes espaços em branco, as cores que apesar de sempre serem duas (ou três, já que devemos contar esse invisível branco), vão mudando significativamente, dependendo das narrativas: azul e vermelho para o “velho” Asterios; roxo e amarelo para o Asterios modificado, que abandona a visão do mundo baseado no conflito. O desenho é dinâmico e sabe se fazer presente nos momentos chaves, principalmente para ilustrar a relação entre Polyp e Hana (a melhor personagem do livro, diga-se de passagem!).
Uma das graphic-novels mais caprichadas dos últimos anos! Não à toa recebeu o Eisner e o Harvey em 2010.
Título: Asterios Polyp
Autor David Mazzucchelli
Tradução: Deniel Pellizzari
334 páginas
Preço: 63 reais
Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras















[...] Franz Kafka) A Divina Comédia de Dante (Seymour Chwast) Turma da Mônica Jovem (Mauricio de Sousa) Asterios Polyp (David Mazzucchelli) Retalhos (Craig [...]