18 de maio de 2012

Tarântula (Thierry Jonquet)

“Mas Tarântula porque ele era como a aranha, lenta e secreta, cruel e feroz, ávida e imponderável em seus desígnios, escondido em algum lugar naquele covil onde o mantinha sequestrado há meses, uma teia de luxo, uma armadilha dourada, de que você era carcereiro e detento.”

Um pai desesperado pelo enlouquecimento da filha. Uma adolescente presa num instituto psiquiátrico com grave caso de automutilação. Uma mulher de beleza extrema, joguete dos caprichos de um homem poderoso. Um fugitivo da polícia, que planeja a escapada perfeita. Um homem torturado por seu sequestrador, de uma maneira quase absurda.

O francês Thierry Jonquet usa estas premissas para contar sua história. Tarântula é o nome que Vincent dá a seu captor, um nome feminino e cruel, a aranha saciada que guarda alimento para mais tarde.

Este livro, que inspirou o filme de Almodóvar “A Pele que Habito”, elevou a um novo patamar o que eu chamo de horror. As histórias acima se misturam pouco a pouco, com vários pontos de vista, mas sem uma separação clara entre eles, de forma a manter a atenção do leitor e a tensão do momento.

Uma técnica narrativa bem utilizada por Jonquet é usar a segunda pessoa para descrever suas mais cruas cenas. Chamar o torturado de “você”  faz com que toda a crueldade das cenas de tortura sejam transferidas para o leitor, como se este sofresse as mazelas na pele de Vincent. É o tipo de detalhe que desconcerta e intensifica o horror da cena, já por si horrenda.

Entremeios, vemos num parágrafo o ponto de vista de Lafargue, famoso cirurgião plástico que lida com sua impotência em relação à doença da filha torturando uma Ève; noutro Vincent, um homem cuja identidade é aos poucos quebrada pelo tratamento ambíguo de seu amo. Ou Alex, um homem simplório, tornado fugitivo depois de um roubo de banco mal-sucedido.

A história é incomumente tensa, e a crueldade dos atos de Lafargue e Tarântula é de dar nós no estômago. A escrita de Thierry tem forte caráter visual, e algumas cenas me chocaram de tal maneira que tive de deixar a história um pouquinho de lado para recuperar o fôlego. Mas a violência, a crueldade e o tabu são ímãs poderosos da curiosidade humana, e assim que me recuperei do choque inicial, não consegui largar o livro até terminá-lo.

Mas não espere ver toda a crueza das palavras de Thierry Jonquet nas telonas. Segundo uma entrevista na Newsweek, Almodóvar se inspira em “Tarântula”, mas não segue sua história à risca. De toda forma, se você gosta de um bom thriller de horror, não deixe passar a oportunidade de ler “Tarântula”. Horror e frios na espinha estão garantidos.

Tarântula
Título Original: Mygale
Autor:     Thierry Jonquet
Tradutor: André Telles
160 Páginas
Editora Record
Preço Sugerido: R$ 29,90

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Sobre Kika

Kika é um amálgama de personagens, todos viciados em aprender mais sobre o mundo. Tende a viciar rapidamente em livros, amigos, idiomas, músicas ou apenas no brilho da luz numa calçada molhada. Tem um interesse especial por romances históricos, grandes guerreiros e literatura francesa.

Comentários

  1. Rita diz:

    Olá Kika!
    Apesar dos “poderosos ímãs da curiosidade humana”, não tenho curto muito este tipo de leitura pois acredito que este tipo de tensão pode mesmo abalar emocional e energeticamente o leitor que se aventura neste universo. Particularmente, prefiro leitura que eleva o estado de espírito à textos de horror que nos tiram o sono!
    Todavia, não resisti em postar que sua resenha foi a melhor que li sobre este livro, tanto pela abordagem , quanto pela clareza (o que garante – aos mais desavisados – uma boa prévia do filme!).
    Abç,

  2. Kika diz:

    Esta é a beleza do mundo literário, RIta. Há espaço para todos os tipos de leitores! Muito obrigada pelo elogio!

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