Uma senhora perguntou certa vez a Rubem Alves: “O senhor acredita em Deus?”
E ele respondeu: “Acreditar em qual Deus? Há tantos… Homens ferozes e vingativos têm um Deus feroz e vingativo que mantém, para sua própria alegria, uma câmara de torturas chamada Inferno para vingar-se dos seus desafetos. Há o Deus jardineiro que criou um Paraíso e mora nas árvores e nas correntes cristalinas. Há o Deus com alma de banqueiro que contabiliza débitos e créditos… Há o Deus da Cecília Meireles que se confunde com o mar… Há o Deus erótico que inspira poemas de amor carnal… Há o Deus que se vende por promessas e faz milagres… E há também o Deus criança de Alberto Caeiro e Mário Quintana. Qual deles?”
A resposta do mestre, educador e filósofo Rubem Alves pode soar com certo ar de ateísmo. Mas a pergunta da senhora sobre a crença do teólogo inspirou-o a escrever o livro “Perguntaram-me se acredito em Deus”, que mostra uma relação íntima do professor com o Criador.
No livro o protagonista, mestre Benjamin, é procurado todas as noites por famílias que querem ouvir suas estórias sobre a criação do mundo, Deus, esperança, felicidade, oração, sabedoria e outros tantos assuntos.
Cada assunto é tratado em um capítulo próprio, geralmente com a pergunta de uma das pessoas que vão até a tenda do mestre Benjamin. Porém, ele não dá uma resposta pronta, mas inventa estórias para ilustrar cada um dos assuntos de maneira encantadora e poética.
As poesias estão presentes em cada estória de Benjamin através da consulta do livro vermelho de poesias, ao qual ele sempre usa para dar mais cor as suas estórias. Cecília Meireles, Walt Whitman, William Blake, Adélia Prado, Mário Quintana e Alberto Caeiro são alguns dos citados pelo mestre.
Além dos poetas, muitos trechos da Bíblia são citados em forma de poesia. Seja por paráfrases ou de forma integral. Assim encontramos textos dos livros de Isaías, Habacuque, Salmos, Ezequiel, além de trechos de Lucas e João.
A influência bíblica é evidente. Não apenas pelas citações, mas também pela forma como o livro foi escrito. Muitos educadores dizem que uma das formas de educar é através de estórias, e citam Walt Disney e Jesus Cristo como dois dos maiores educadores exatamente pela habilidade em contar estórias.
O mestre Benjamin usa exatamente o recurso de explicar diversos assuntos através de estórias e poesia, fazendo alusão as famosas parábolas que Jesus recorria para se expressar.
Apesar da resposta inicial mostrar um certo ar discrente nas palavras de Rubem Alves, o modo como o livro é composto mostra uma relação especial do escritor com Deus. Tanto que em várias entrevistas ele se mostra maravilhado com fatos simples da vida como frutas, flores e o próprio arco-íris. Obras, segundo o filósofo, de um ser divino.
Certa vez ele falava-me da beleza de uma jabuticaba, que segundo o professor é muito mais fantástica que o universo: “Eu fico tão maravilhado com a beleza de uma jabuticaba, que eu acho que nesse momento em rezo”.
Seja pelo seu olhar de criança, pelas belas estórias contadas ou pelas referências e citações bíblicas, o livro evidencia a ligação íntima que existe do teólogo com Deus. Através de um contador de estórias que explica o mundo de um jeito simples, poético e belo.
O próprio educador já se intitulou um contador de estórias, e ao ser questionado se o professor é o próprio mestre Benjamin, Rubem Alves responde com os olhos marejados e um leve sorriso no rosto – como se o segredo do livro fosse descoberto: “Acho que sim”.
Perguntaram-me se acredito em Deus
Autor: Rubem Alves
176 páginas
Editora Planeta
Preço sugerido: R$ 34,90














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