18 de maio de 2012

As preces são imutáveis (Tuna Kiremitçi)

O anúncio no jornal era bem claro: “Procura-se alguém que saiba turco”. E ao responder esse anúncio a jovem Pelin, uma estudante turca, conhece Rosella Galante, uma senhora já bem idosa que durante a Segunda Grande Guerra se refugiara na capital turca, Istambul. Viúva, Rosella, já com seus 88 anos, precisava de alguém para conversar com ela em turco para ajudá-la a não perder a memória: “Se esquecer o turco, temo que tudo que vivi desapareça silenciosamente”. O escritor turco Tuna Kiremitçi apresenta em As preces são imutáveis a história desse encontro e o desenrolar dos diálogos que as duas personagens terão ao longo das páginas deste lançamento de selo Gesto Literário (Sá editora). O selo abrigará somente ficção/literatura de autores de países menos conhecidos dos leitores brasileiros, assim como Índia, Turquia, Irlanda, etc.

A entrevista de emprego abre o livro e sentimos a surpresa da moça perante a proposta de apenas ser contratada para conversar em turco. Ao aceitar o trabalho, Pelin passa a visitar a senhora todas as quintas-feiras, respondendo um todo tipo de perguntas, das mais triviais às indagações nada comuns da senhora Galante. Uma amizade intensa brota desse envolvimento, daquelas puras, de uma proximidade pulsante, que independe de idade, raça ou qualquer outro tipo de preconceito, se estabelecendo a cada conversa mesmo sendo de credos diferentes, ela cristã ortodoxa, e a sra. Rosella judia. O que chama a atenção é a relação construída pela autora para com as duas personagens. Dois dramas humanos, duas perspectivas diferentes, enquanto uma relembra momentos tristes de sua vida, a fuga de seu país dos nazistas, de seu refúgio na capital turca, entre outros fatos, a outra conta o que passa diariamente naquela metrópole européia, lutando por um lugar ao sol. Logo, percebemos junto com as personagens, apesar dos anos de diferença, que seus diálogos são semelhantes, narram dramas, amores e paixões que viveram e vivem numa ‘mesma língua’.

Com um estilo sutil e profunda, mas com uma expressão bastante melancólica, o autor consegue transmitir o vínculo construído através da língua turca, uma linguagem melodiosa que servirá como o elo capaz de unir os homens acima do tempo e das circunstâncias. Dá até vontade de aprender o turco para constatar essa melodia nas palavras. O próprio título, a frase dualar kalicidir, as preces são imutáveis, transmite a mensagem que as orações são comuns em qualquer religião, basta acreditar e orar, não importa qual seu credo.

A narrativa envolve o leitor com cada pergunta, com cada entrelaço e combinação de respostas, que gradualmente segue a um desfecho emocionante, que não anteciparei sobre o mesmo para que os leitores sintam a forma sensível que Kiremitçi deixou para o final.

Uma ótima empreitada da Sá editora em trazer esses novos nomes da literatura mundial, e o melhor, traduzindo diretamente do vernáculo oficial, como é o caso de As preces é imutáveis, traduzido por Marco Syrayama de Pinto. Tuna Kiremitçi é reconhecido em seu país como uma das grandes vozes da literatura turca, em seus livros assume os dramas de pessoas comuns, a melancolia provocada pelo envelhecimento e o impasse das relações entre homens e mulheres na sociedade turca de hoje. Seja bem-vindo ao nosso vernáculo, e esperemos mais lançamentos deste nível. Recomendo a leitura.

O AUTOR Tuna Kiremitçi publicou seus primeiros textos pela revista Varlk, quando ainda cursava o ensino secundário. Seu livro de poesia Ayabakanlar(Adoradores da lua), ganhador do Prêmio Yazar Nabi Nayir, foi publicado em 1994. Em 1997 dividiu o Prêmio Erguvan Balkan com o escritor bósnio Izzet Saraylic. Um segundo livro de poesias, Akademi (Academia), veio à luz em 1998. O primeiro romance, Git Kendini Çok Sevdirmeden (Parta antes que eu morra), de 2002, despertou grande entusiasmo e tornou-o uma estrela dos acontecimentos literários no Leste Europeu. Bu sate Bir Yalnizlik Var (Caminho da solidão) e Bazi saiirler Bazi sçarkilar (Alguns poemas, algumas canções) foram publicados em 2003. Publicou ainda Yolda Üç Kisi (Três na estrada) e As,K. Neyin Kisaltmasi?(O que é A.M.O.R.?), em 2005. Premiado pela produção de curtas, também assina colunas em revistas. Gravou um CD de ethnic rock, com o grupo Kumdan Kaleler (Castelos de areia) e um álbum solo (Denize Dogru / Olhando o mar) como compositor e solista. É casado e pai de um menino.

As preces são imutáveis de Tuna Kiremitçi
Gesto Literário, Sá editora, 2011
184 páginas
R$ 33,00

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Cadorno Teles é resenhista e colaborador de diversos sites, jornais e revistas com resenha de livros e quadrinhos.

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