Um fenômeno típico da internet, o blog nasceu como um diário virtual. Logo vieram as produções artísticas, os textos e quadrinhos criativos e começou-se a cogitar (pela milionésima quadragésima vez) o fim da existência dos livros de papel. Notes, neste contexto, estaria contra a corrente.
Boulet é um quadrinista francês, famoso por lá mesmo antes de lançar seu blog, em 2005. Seu público alvo então eram as crianças. O blog era um cano de escape, um espaço para falar de seu dia a dia, ainda que muitas vezes fantasiado.
Notes nasceu desse blog. É uma coletânea de posts entre 2004 e 2005, todos com novo trabalho de cores, e letras, com alguns posts levemente modificados para atender às exigências do formato em papel.
A crer em sua palavra como personagem, Boulet resistiu muito à ideia de transformar sua diversão em trabalho. Um de seus argumentos era que, pela falta de regras, o blog é um tanto quanto caótico. E depois, quem iria comprar um livro cujo conteúdo estivesse todo disponível de graça na internet?
A solução alcançada foi ao mesmo tempo simples e brilhante. O autor alinhavou as histórias aparentemente desconexas de seus posts com um recurso de metalinguagem. Em desenhos em preto e branco, ele representa uma conversa, durante a qual monta o livro que estamos lendo.
Cada post é justificado e escolhido, fazendo com que o leitor se sinta parte do processo, enquanto conecta histórias da juventude do autor, com relatos de viagem para convenções de quadrinhos em Seul. A vida de colocatário num pequeno apartamento em Paris a um vexame na faculdade de Artes; momentos de vergolha alheia a momentos de auto-reflexão.
E Boulet personagem é um nerd moderado, daqueles que gosta de internet, mas se bate para consertar um computador, conhece de tudo um pouquinho e adora games. Conserta o computador dos pais, se emociona ao encontrar um velho console de video game no sótão da casa dos pais, é viciado em café… Me identifiquei de pronto.
Mais interessante, a coletânea ainda mostra o amadurecimento do traço do autor, na diferença entre os posts e a história em preto e branco. O humor ácido e inteligente, aliados ao tom de diário deste livro o tornam uma leitura daquelas que não dá vontade de largar até a última página. A contra-capa conta com quadro pessoas escrevendo num muro comentários típicos de seu blog.
Ainda não há tradução para o português desta epopéia nerd, infelizmente, mas para aqueles que leem em francês ou inglês, Boulet continua sendo uma opção na internet, ou nas lojas virtuais. Vale a pena.














[...] e ver uma sessão de quadrinhos como as de Paris é algo de babar. Nesta categoria eu destacaria o Notes, do Boulet, Cadavre Exquis, de Pénélope Bagieu e Naguère les Étoiles de Hervé Bourhis, e [...]