Abrir arquivos é sempre uma operação difícil. Sua função parece ser a de guardar algo de um modo tamanhamente exaustivo e organizado que iniba toda a tentativa de sua recuperação. Arquivar é, na maioria das vezes, a própria esperança da perda, sem que ninguém possa reclamar qualquer tipo de imprudência documental. E quando finalmente são abertos, o processo de catalogação volta, num processo continuo de arquivar arquivos (vide o que está acontecendo com a chamada Comissão para Justiça aqui no Brasil). É esse o problema que o escritor guatemalteco Rodrigo Rey Rosa (1958-) descreve em El Material Humano, livro de 2009.
Escrito na forma de diário, este livro descreve as visitas de Rosa aos arquivos recém descobertos de uma sede de polícia, boa parte dos quais estava literalmente enterrada (e depois todo o complexo corre o perigo de ser engolida pela terra devido a uma série de terremotos – a natureza também faz sua parte no processo de destruição e esquecimento!). Não demora muito, suas visitas são barradas, mas Rosas continua perseguindo o personagem que funda os arquivos e os dirige praticamente durante todo o seu tempo de funcionamento: Benedicto Tun. Encontra o filho dele, que começa a contar-lhe as histórias de Benedicto, um criminalista que teve seu pedido de aposentadoria negado, após ser obrigado a fazer um necrológio de um homem que ainda não estava morto. Enquanto isso, Rosa vai sofrendo ameaças sutis (telefonemas de funerárias oferecendo serviço, por exemplo), que o colocam num sistema de paranóia, que perpassam inclusive os sonhos que tem com sua filha, Pia. Também lembra o seqüestro da mãe, o qual, para seu próprio desgosto, descobre ter sido arquitetado por um grupo de esquerda menor.
O livro vai oferecendo várias informações tiradas dos arquivos e dos volumes da História dos Trabalhos da Polícia Nacional, com suas várias dezenas de tomos. Muitos desses dados parecem exibir a própria loucura que fundamentava os critérios de prisão dos condenados. Isso fica muito claro quando o livro oferece a lista de todas as fichas criminais encontradas lá, com o nome do preso, a data e o motivo. O desvario explícito de uns é, não uma exceção, mas a exibição da injustiça que percorre toda o sistema policial do período. Por exemplo: “Ramírez M. Eusebia. Nascido em 1925 em Escuintla. Fichada em 1942 por exercer o amor livre” ou vários que são presos por praticar “ciências ocultas”. Esse e outros casos convivem com os de estupro, de crime político, de prostituição, insubordinação aos pais, etc. Tudo debaixo de um mesmo processo que busca de perpetuar como puro poder, pura ordem.
A Guatemala, como todo o país latino-americano teve sua cota de pauladas dentro da política do Big Stick norte-americano. Mas ela possui suas peculiaridades: primeiro, sua proximidade tanto com o sul do México (território zapatista) como com Cuba, fizeram dela um lugar ainda mais disputado; segundo, após uma primeira fase de golpes militares, sugiram uma série de organizações paramilitares (Mano Branca, Ejercito Secreto Anticomunista, etc) que começaram a praticar torturas e assassinatos independentemente e, da mesma forma, apareceram grupos de resistência, dos quais uma parcela também procurava nacos de poder. Some-se a isso a entrada do narcotráfico e um governo que trabalha a base de corrupção e você tem algum vislumbre da história recente da Guatemala. Mesmo com a chegada da democracia, essa estrutura ainda não está nem perto de ser quebrada.
Rosa mostra isso na descrição de sua angustia frente às atividades mais comuns: mesmo o diretor da escola de sua filha é um ex-policial corrupto ligado a entidades assassinas. Ou o colega escritor que agora trabalha para o governo. Ou o diretor de recuperação dos arquivos, ele mesmo um dos que participaram ativamente das práticas de terror de estado. No livro de Rosas, assim como na Guatemala, não há espaço de manobra.














[...] mais recentes, valeria lembrar Rodrigo Rey Rosa, que já resenhei aqui, os mexicanos Álvaro Enrique e Juan Villoro, o colombiano Antonio Ugar, os chilenos Gonzalo [...]