Existe uma lenda chinesa que conta a história de um macaco nascido de uma rocha, e que ao destacar-se de seu bando recebeu o título de Rei Macaco. Na busca por aprimorar seus poderes ele treinou com um grande patriarca budistaoísta, dominou os segredos das artes marciais adquirindo poderes extraordinários como imunidade contra água, fogo e objetos cortantes. Também adquiriu o poder de se transformar em 72 formas diferentes e transformar os próprios pelos em duplicatas de si mesmo, além de uma técnica que o permitia viajar sobre as nuvens.
Porém ao desafiar Tze-Yo-Tzuh, o Rei Macaco é preso por cinco séculos até que se oferece para acompanhar o monge Xuanzang, numa jornada até a Índia para recuperar Sutras Budistas1 em troca da liberdade. Ambos são acompanhados do porco Zhu Baije e o homem-peixe Sha Wujing que buscam o perdão pelos seus crimes.
A lenda chinesa do Rei Macaco é uma das três narrativas que contam a história da HQ de Gene Luen Yang. Além da lenda também encontramos a história do jovem imigrante chinês Jin Wang que procura de se encaixar na escola onde estuda, e do popular Danny que enfrenta problemas com a visita importuna e constrangedora do seu primo Chin-kee.
No começo do livro as três narrativas parecem totalmente independentes uma da outra. As histórias são contadas em pequenos trechos, intercalando-se entre si. A independência das narrativas fica caracterizada por alguns elementos únicos de cada uma delas.
A história Rei Macaco é espelhada na lenda chinesa, focando-se na busca do personagem pelos poderes ligados as artes marciais. Já a narrativa em torno de Jin Wang tem um caráter mais triste, focando-se na exclusão do chinês dos demais colegas de escola, por outro lado a terceira história conta como o popular Danny fica abalado pela presença do seu primo Chin-kee que reúne os piores estereótipos chineses e que apresenta um ar mais cômico.
Porém as diferenças ganham proximidade no decorrer da leitura, uma vez que os três personagens se aproximam pelo aspecto de que todos querem ser aceitos nos ambientes em que convivem. O Rei Macaco deseja ser reconhecido pelos deuses, Jin Wang pelos seus colegas e Danny pela não identificação com seu primo Chin-kee, o que o faz mudar de escola após cada visita.
Todas as três histórias são sempre acompanhadas das belas e limpas ilustrações do autor. Que em alguns momentos lembram o mangá, mas que no contexto geral da obra ajudam a ter uma leitura deliciosa e propícia para ser feita em uma única sentada.
Além dos traços de Gene Luen Yang, vale destacar um aspecto curioso em volta da lenda chinesa. No livro, diferentemente da lenda original, existem muitos elementos cristãos em volta da jornada do Rei Macaco ao lado do monge. Dentre estes, a pesquisadora Stella Montalvão destaca em seu artigo2 alguns trechos da fala de Tze-Yo-Tzuh similares ao Salmo 139 da Bíblia e que remetem a um máximo Criador. Além disso, há um dos quadros no final do livro que mostram os três magos (macaco, porco e homem-peixe) entregando presentes a um menino recém nascido, remetendo ao nascimento de Jesus.
A mistura da lenda chinesa com ideais cristãos é um dos encontros promovidos pela narrativa de Gene Luen Yang. O mesmo acontece com as três histórias que compõem o livro O chinês americano, publicado pela Companhia das Letras. As três narrativas vão se aproximando com o passar das páginas ao mostrar aspectos similares entre os protagonistas. Isso acontece de tal forma que elas acabam sendo mescladas em uma só história, gerando um encontro surpreendente aos olhos atentos de qualquer leitor.
O chinês americano
Autor: Gene Luen Yang
Tradução: Beth Vieira
240 páginas
Preço sugerido: R$ 52,50
Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras
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- No budismo, o termo “sutra” se refere de forma geral às escrituras canônicas que são tratadas como registros dos ensinamentos orais de Buda Gautama. [↩]
- Identidade e Imigração: Uma leitura do Chinês Americano de Gene Yang [↩]















[...] Rafael Coutinho. Eles também resenharam os seguinte livros: Liberdade (Jonathan Franzen), O chinês americano (Gene Luen Yang), O campo e a cidade (Raymond Williams), Tóquio proibida (Jake Adelstein), À [...]