18 de maio de 2012

México Insurgente (John Reed)

“Mas sei que lutar é o último recurso a que deve apelar qualquer pessoa. Só quando as coisas ficam ruins demais para suportar, não é? E se vamos matar nossos irmãos, algo de bom deve resultar disso, hein? (…) Vimos o nosso povo pobre, simples, ser roubado por 35 anos. Vimos os rurales e os soldados de Porfírio Díaz matar nossos irmãos e pais, e a justiça lhes ser negada. Vimos nossas poucas terras serem tiradas de nós, e todos nós sermos vendidos para a escravidão. Sonhávamos com nosso lar e com escolas para nos instruir e riram de nós. Tudo que queríamos era que nos deixassem viver e trabalhar e tornar nosso país grande; mas já estamos cansados e fartos de sermos enganados.”

As palavras acima foram pronunciadas por um homem chamado Ortega, porém expressam a voz do povo mexicano diante dos 35 anos da ditadura do general Porfírio Díaz. A revolução era eminente e ganhou diversos nomes: Francisco Madero, Emiliano Zapata, Pascual Orozco, Victoriano Huerta, Venustiano Carranza, Francisco Villa entre muitos outros que se dividiam entre lutar pelo povo e assumir o poder no México.

Os fatos da revolução são relatados pelo jornalista John Reed, que passou alguns meses na companhia dos exércitos revolucionários de Francisco Villa. Enviado pela revista Metropolitan, o jornalista norte-americano cobriu a revolução mexicana durante alguns meses de 1913, período suficiente para transpor para seus artigos todo seu olhar perante a revolução, e que deu origem ao livro México Insurgente publicado no Brasil pela Editora Boitempo.

Os epísódios que cercam a revolução são cheios de cárater político dos diversos movimentos que surgiram após a queda do ditador Porfírio Díaz. Como a tomada do poder por Huerta em um golpe de Estado, ou os fatos que geraram as lutas entre os exércitos de Orozco e de Villa.

Porém o olhar de Reed não se fixa somente nos fatos que geraram a revolução. O escritor aborda todos esses temas com um olhar voltado para os personagens que fazem parte da revolução, ou seja, o povo mexicano. Os quatro meses que ele passou na companhia do exército de Pancho Villa contribuíram para sua visão especial dos soldados e de todos aqueles que faziam parte da esquadra de Villa contra as tropas de Orozco.

O convívio com o povo mexicano é perceptível no sentimento de amizade que transpõe as palavras de Reed ao falar de seus companheiros. Afinal, eles enfrentaram as tropas inimigas, os desertos quentes e gelados e fugas enlouquecidas na luta contra os colorados. Dos companheiros e amigos o jornalista recebeu o nome de Meester, e assim era tratado até mesmo por Francisco Villa.

Um dos primeiros exércitos que Reed acompanhou foi a Tropa, e que de alguma forma resume todos os combatentes mexicanos em sua descrição:

Essa era a Tropa quando a vi pela primeira vez, algo em torno de cem soldados, pitorescamente esfarrapados. Alguns vestiam roupas de operário; outros, as jaquetas estilo charro dos peões, e um ou dois ostentavam calças de vaqueiros. Apenas uns poucos calçavam sapatos: a maioria deles usava sandálias rústicas de couro; e o restante estava descalço. (…) Os rifles pendiam nas selas e os homens levavam quatro ou cinco cinturões de cartuchos, cruzados sobre o peito; altos sombreros de abas largas, imensas esporas que tilintavam ao cavalgar e ponchos de cores brilhantes, amarrados atrás da sela.

O olhar humano do Meester fica evidente em muitos outros pontos de sua obra. Há dois pontos que precisam ser destacados. O primeiro é o fato do revolucionário Pancho Villa declarar abertamente não ser “educado o suficiente para ser o presidente do México”, palavras que certamente mexeram com Reed, fato este que ele dedica muitas páginas do livro para falar de Villa.

O segundo ponto é em uma conversa com alguns soldados em que o jornalista questiona um deles sobre o significado de liberdade, ao qual ele responde: “Libertad é quando eu posso fazer o que eu quero”. E quando questionado sobre esse fato vir a prejudicar outras pessoas, o soldado reitera: “O respeito pelo direito alheio é a paz”.

Em meio aos fatos que cercavam toda a luta e a revolução sempre havia espaço para a alegria e as festividades do povo mexicano. Fato esse que é relatado em inúmeras músicas escritas no meio da narrativa sobre as lutas, além das festas e danças. A alegria é um fato tão marcante que ganha três capítulos especiais na parte final do livro intitulada “Noites Mexicanas”.

Destaque especial fica para a descrição que Reed faz da peça renascentista Los Pastores, encenado pelo povo mexicano da cidade de Santa Maria Del Oro. Uma das mais belas passagens do livro.

A intimidade com que Reed descreve a revolução mexicana é ponto chave de toda sua obra. O olhar humano, e quase particular, aproxima o leitor daqueles meses de conflitos, ideais e festividades em torno do Meester e seus companheiros. Conotação esta que dá a obra de John Reed um caráter de jornalismo social e poético.

México Insurgente
Autor: John Reed
Tradução: Luiz Bernardo Pericás
335 Páginas
Preço sugerido: R$ 48,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Boitempo Editorial

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Sobre Palazo

Não sou jornalista, muito menos escritor. Não guardo segredos, simplesmente por que estes não me pertencem. Prefiro dialogar ao vento para espalhar tudo aquilo que chega até mim. Leio com meus ouvidos e falo através dos meus olhos. Tenho a alma de um vagabundo responsável. Sou um contador de histórias.

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