18 de maio de 2012

Três Sombras (Cyril Pedrosa)

Antes de ler este livro emprestei-o a um primo que achou o livro bonito e interessante. Disse, porém, para que não demorasse na leitura. As minhas palavras devem ter soado mandatórias ao jovem rapaz que devorou o livro em menos de 2 horas. Ele voltou com o livro em mãos e ao ser perguntado sobre a história respondeu: “O livro é legal, mas eu não entendi nada”.

As palavras dele ressoaram estranhas na minha cabeça, que me fizeram pegar a obra alguns dias depois. E assim que a última página foi virada eu percebi o porquê das dizeres do jovem rapaz. O livro de Cyril Pedrosa, publicado pela Quadrinhos na Cia., não foi feito para ser devorado, mas para ser apreciado a cada página. Isso acontece por que a essência não está nas falas dos personagens, mas nas ilustrações.

A história começa com o surgimento de três sombras. A imagem, aparentemente passageira, se repete através dos dias e desperta o medo no jovem Joachim e seus pais, Louis e Lise. A mãe vai procurar conselhos com uma velha e sábia senhora no vilarejo próximo de sua casa. O pai decide fugir com o filho e assim escapar das figuras que insistem em povoar a paisagem.

A fuga de Louis e Joachim cria alguns elementos tão marcantes que prendem a atenção do leitor de maneira única. Amizade, integridade, carinho são muito evidentes durante toda a trama. Porém o medo é o elemento mais presente, criado por toda uma atmosfera de suspense pelas três figuras que seguem pai e filho.

O traço certeiro de Pedrosa dá o tom. Os rabiscos, o jogo de sombras e a sequência de cenas é quase hipnótica. Muitas vezes não é preciso nenhuma palavra para expressar o medo, o silêncio torna-se o melhor ingrediente. E por vezes até é possível imaginar alguma trilha sonora de suspense em uma sequência de imagens, típica dos filmes do gênero.

Pedrosa brinca muito com os elementos de proximidade e afastamento para criar esse efeito no leitor. Ora com um vulto distante, que pouco a pouco é aproximado e se apresenta em três sombras quase nítidas. Outras vezes capta o detalhe de um olhar, abre para a face, cruza com outro rosto tenso, olhos se cruzam, desviam. Nada é dito, não é preciso.

As ilustrações contidas no livro Três Sombras são cheias de metáforas que precisam ser apreciadas e saboreadas no seu ritmo, só assim o livro cria seu devido efeito. Então quando for ler esta história, não tenha pressa. Aprecie cada traço com atenção, procure perceber o jogo de sombras e rabiscos, pois são nesses detalhes que se encontra a poesia de Cyril Pedrosa.

Três Sombras
Autor: Cyril Pedrosa
Tradução: Carol Bensimon
Editora: Quadrinhos na Cia.
Páginas: 272
Preço sugerido: R$ 39,50

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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Sobre Palazo

Não sou jornalista, muito menos escritor. Não guardo segredos, simplesmente por que estes não me pertencem. Prefiro dialogar ao vento para espalhar tudo aquilo que chega até mim. Leio com meus ouvidos e falo através dos meus olhos. Tenho a alma de um vagabundo responsável. Sou um contador de histórias.

Comentários

  1. Breno C. diz:

    Engraçado é que eu quase comprei essa HQ hoje, cheguei a levar ela para a fila do caixa, mas acabei gastando com outras coisas.

    Achei engraçado a introdução dessa postagem, porque esse erro de “devorar” as HQs é mais comum do que pensamos. As pessoas acham que é só dar uma olhada rápida nas ilustrações e ir lendo os textos. Uma HQ é bem mais complexo do que isso e as vezes é preciso reler várias vezes para poder absorver todos os desenhos e a história fazer sentido.

    Parabéns pela resenha Palazo, me fez ficar com mais vontade ainda de comprar a HQ.

Trackbacks

  1. [...] dos balões em suas cabeças. Esse fato aconteceu comigo recentemente quando emprestei o livro Três Sombras a um primo meu, que o leu em 40 minutos e me devolveu dizendo: “O livro é legal, mas eu não [...]

  2. [...] artificial, de Ricardo Piglia, o Luciano leu Ver: Amor, de David Grossman, e o Roberto falou sobre Três sombras, de Cyril [...]

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