Sejamos, antes de tudo, gratos. Gratos, talvez no sentido mais cristão da palavra, para que possamos ser fiéis ao nosso autor. Sobretudo, porque Liev Tolstói (1828-1910) foi um corajoso, e um escritor. Mas também porque deixou de sê-lo. Ou, ao menos, tentou. E é dentro desse segundo esforço que deveríamos ler a compilação intitulada Os Últimos Dias de Liev Tolstói, que reúne ensaios, fragmentos, cartas e notações de diários escritos em sua velhice traduzidos diretamente do russo: tendo a imagem de um grande escritor abandonando o gênero romanesco que o consagrou para dedicar-se a estudos religiosos e pedagógicos e pedindo humildemente que lhe ensinassem o ofício de sapateiro. “O difícil não é escrever, mas parar de escrever” – esse deveria ser a epígrafe deste livro.
Em 1882, depois de ter escrito Guerra e Paz (1865-69) e Anna Karênina (1875-77), Tolstói passaria por um processo de conversão religiosa bastante particular, que o levariam quase que imediatamente a escrever Uma Confissão, na qual revisava seus anos de juventude, descrevendo o seu “desprendimento da fé” (p.22). Contudo, esse reencontro não era com a Igreja Ortodoxa Russa, mas com uma espécie de impulso de refundar a própria vida, buscando moldar seus atos a partir de algo que, mesmo para os nossos contemporâneos mais amorfos e desesperançosos (aqui sou eu o demasiado esperançoso), seria difícil não chamar de “bondade”. Recusa e condena toda a institucionalidade, tanto da Igreja (que o excomungaria, mais tarde) como do Estado, algo que mais tarde levou-o a ser uma espécie de item obrigatório nas bibliotecas anarquistas. Tolstói larga toda a sua fortuna e passa a se vestir com roupas de camponês, prega um vegetarianismo cerrado, discursa contra a guerra e passa a receber em suas propriedades todo o tipo de gente, disposto a criar um modo de vida alternativo. Esforça-se para oferecer aquilo que ele podia, e que considerava pouco: a capacidade de ler e escrever. Fez inúmeras cartilhas de leitura, contendo pequenos contos, com esse objetivo.
(Sempre que se levantam reclamações sobre as “injustiças” da Academia Sueca quanto ao Nobel de Literatura, invoca-se o nome de Tolstói. Talvez isso também seja uma mera injustiça invertida. Quem sabe devêssemos lembrar seu nome para o Nobel da Paz. Mas claro que tudo isso é mera bobagem. O único modo de sermos gratos e fiéis a Tolstói seria adotar seu modo de vida.)
Certamente Os Últimos Dias deverá ser um enfado para a maioria dos leitores. Isso porque encontrarão reunidos ali da forma mais direta e incontornável possível aquilo que seus supostos admiradores (assim como os de Dostoievski!) tentam a todo momento recalcar: o fato de que Tolstói era um religioso e que isso era, para ele mesmo, um fator maior em sua vida. É o modelo do profeta que guia esse autor (algo que sugere um motivo e um ethos da literatura russa do século XIX. Basta lembrar que o último dos cinco volumes da biografia de Joseph Frank dedicada a Dostoievski chama-se “O Manto do Profeta”).
E, no entanto, é Tolstói aqui o modelo da coragem, acima de seus leitores. É ele quem toma a decisão radical que acha de fato necessária. Ao invés de procurar em sua biblioteca expurgos de consciência (cujo mote hoje deveria ser “da minha cadeira, posso ser tão radical quanto presumo e exijo que o autor de meu livro o seja”), Tolstói vê na arte um meio pelo qual se deflagram “contágios de experiências” entre os homens. (não deveríamos ler assim o seu “O que é arte?” [1896], ensaio que sempre causa mal-estar pelas críticas que faz a Shakespeare e outros?).
Todas essas facetas estão bem representadas ao longo da coletânea que inclui, além desses ensaios, outros importantes textos, como algumas das cartas que trocou com Gandhi e com Bernard Shaw.
Por fim, em seu fim, Tolstói, já fraco, concretizou ainda um ato de coragem maior, já que, apesar do desejo por este ato guiar-nos desde a infância, foram poucos, ou nenhum, os que foram capazes de realizá-los. Com esse ato, foi capaz ainda de oferecer generosamente o tema daquele que é um dos grandes poemas de língua portuguesa: “O Poema da Gare de Astapovo” de Mario Quintana (é possível ouvi-lo aqui).
Sejamos, portanto, humildemente gratos a Tolstói.
Título: Os Últimos Dias de Liev Tolstói
Autor: Liev Tolstói (Organização e introdução de Jay Parini)
Tradutoras: Anastassia Bytsenko, Belkiss Rabello, Denise Regina de Sales, Graziela Schneider, Natalia Quintero
432 páginas
Preço: R$ 29,50
Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras















Tá barato esse livro hein..ai meu deus
quero comprar xD
Super completo o texto, parabéns!
Estou lendo Anna Karênina e bem, o cara manda muito bem!
Pena que parou de escrever neh..Mas, é uma decisão dele que bem, na verdade, não entendi direito =/
“tanto da Igreja (que o excomungaria, mais tarde)”
ui que radical o.O
Quero muito conhecer a obra de Tolstói, como quero conhecer outras obras clássicas, mas sofro d euma doença, a de querer ler todos os livros mais interessantes do mundo em apenas um dia. Hahahaha, complicado.
Ótimo texto, super bem escrito pelo Tiago. COm certeza esse livro tá na lista de ‘Desejados’. Só a Companhia das Letras para nos proporcionar um aprendizado e um engrandecimento de alma assim, tão acessível.
A cartilha de Tolstói
Para ele, o povo simples das aldeias russas sabia,
melhor do que ninguém contar histórias.
Liev, um nobre conde, acreditava que o critério
da pedagogia concentrava- se na liberdade.
E utilizando várias concepções rousseaunianas,
funda uma escola em suas terras para os filhos dos colonos.
Mais tarde desenvolve uma nova maneira de ensinar,
baseada em suas próprias experiências:
Para ensinar sobre a natureza ele leva seus alunos ao campo.
Algumas vezes, à noite, aponta-lhes os nomes das constelações.
Seus alunos não levam lições para casa, podiam sentar-se
em qualquer da sala de aula e escolher o assunto que queriam aprender.
Não havia lista de presença, notas, castigos, repreensões.
Para o mestre, ao conhecer a liberdade, o aluno desenvolveria
sua personalidade, sendo capaz de improvisações criativas
durante a sua vida. Ele percebeu que as crianças interessavam-se
pelas lendas contadas com arte, do que por simples narrativas
de fatos históricos. Por isso, foi chamado de “o pedagogo do universo”,
pelo imenso e admirável legado de histórias, fábulas que nos deixou,
com toda mestria. Devemos todos ler a cartilha de Liev Tolstoi.
Regina Rousseau