Alguns podem dizer que não é possível ler o livro de Rafael Sica, simplesmente por que não há parágrafos, frases ou palavras no seu interior. O único resquício de texto é a assinatura do autor, quase como um garrancho. Mas esse equívoco some logo que o livro é aberto e descobrimos inúmeras tiras com ilustrações detalhadas que dispensam por completo a necessidade de palavras.
A obra de Rafael Sica é composta por tirinhas publicadas originalmente no seu blog. As ilustrações do autor contêm uma riqueza de detalhes, emoções e sentimentos que é impossível simplesmente folhear o livro sem parar em cada página e analisar as tiras com mais cuidado. O silêncio é necessário nesse tipo de leitura, cujo enredo é montado com nossos olhos na identificação de situações que são a paródia do nosso próprio cotidiano moderno.
Assim encontramos, ou nos identificamos, com um mix de sensações: solidão, medo, melancolia, desilusão, ilusão, alucinação, devaneio, trapaça, desprezo, sonho. A semelhança com o cotidiano é tamanha que se uma câmera filmasse nosso semblante enquanto viramos cada página do livro seria perceptível o balançar da nossa cabeça concordando com o que estamos presenciando, num tom de seriedade e alguns sorrisos desconjuntados.
O humor do quadrinista aparece na revelação da realidade perante a fantasia. Assim presenciamos o lobo mau levando os três porquinhos a um bordel, o sapo ignorando a princesa mesmo depois de um beijo, a máquina de caça-níqueis despejando moedas para um artista de rua e o carteiro que se senta embaixo de uma árvore para ler as correspondências que ele deveria entregar.

Porém para se identificar com as sensações, situações e o humor excêntrico de Sica é necessário presenciar e, de preferência, vivenciar os vícios urbanos presentes em qualquer cidade grande. A solidão, o individualismo, a rotina são tão característicos na obra que o leitor vira personagem, criando quase que uma intimidade com o livro. Isso sem falar nos inúmeros problemas urbanos que aparecem como lixo, trânsito, exclusão, pobreza e o anonimato.
Ordinário é um retrato dos vícios urbanos, e que só tem precisão pela falta das palavras. A presença de frases só causaria uma confusão de idéias, hipóteses e teses sobre as causas e conseqüências dos vícios urbanos. O silêncio se faz necessário na obra de Rafael Sica, simplesmente por possibilitar que os olhos do leitor criem uma intimidade com o livro.
Ordinário
Autor: Rafael Sica
Editora: Quadrinhos na Cia.
Páginas: 128
Preço sugerido: R$ 29,00
Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras















[...] Isso se aplica a obra de Cyril Pedrosa, Joe Sacco, Robert Crumb, Bryan O’ Malley, Gene Yang, Rafael Sica, entre muitos outros. Todos eles usam a linguagem ilustrativa para expressar uma série de [...]