17 de maio de 2012

Ordinário (Rafael Sica)

Alguns podem dizer que não é possível ler o livro de Rafael Sica, simplesmente por que não há parágrafos, frases ou palavras no seu interior. O único resquício de texto é a assinatura do autor, quase como um garrancho. Mas esse equívoco some logo que o livro é aberto e descobrimos inúmeras tiras com ilustrações detalhadas que dispensam por completo a necessidade de palavras.

A obra de Rafael Sica é composta por tirinhas publicadas originalmente no seu blog. As ilustrações do autor contêm uma riqueza de detalhes, emoções e sentimentos que é impossível simplesmente folhear o livro sem parar em cada página e analisar as tiras com mais cuidado. O silêncio é necessário nesse tipo de leitura, cujo enredo é montado com nossos olhos na identificação de situações que são a paródia do nosso próprio cotidiano moderno.

Assim encontramos, ou nos identificamos, com um mix de sensações: solidão, medo, melancolia, desilusão, ilusão, alucinação, devaneio, trapaça, desprezo, sonho. A semelhança com o cotidiano é tamanha que se uma câmera filmasse nosso semblante enquanto viramos cada página do livro seria perceptível o balançar da nossa cabeça concordando com o que estamos presenciando, num tom de seriedade e alguns sorrisos desconjuntados.

O humor do quadrinista aparece na revelação da realidade perante a fantasia. Assim presenciamos o lobo mau levando os três porquinhos a um bordel, o sapo ignorando a princesa mesmo depois de um beijo, a máquina de caça-níqueis despejando moedas para um artista de rua e o carteiro que se senta embaixo de uma árvore para ler as correspondências que ele deveria entregar.

Porém para se identificar com as sensações, situações e o humor excêntrico de Sica é necessário presenciar e, de preferência, vivenciar os vícios urbanos presentes em qualquer cidade grande. A solidão, o individualismo, a rotina são tão característicos na obra que o leitor vira personagem, criando quase que uma intimidade com o livro. Isso sem falar nos inúmeros problemas urbanos que aparecem como lixo, trânsito, exclusão, pobreza e o anonimato.

Ordinário é um retrato dos vícios urbanos, e que só tem precisão pela falta das palavras. A presença de frases só causaria uma confusão de idéias, hipóteses e teses sobre as causas e conseqüências dos vícios urbanos. O silêncio se faz necessário na obra de Rafael Sica, simplesmente por possibilitar que os olhos do leitor criem uma intimidade com o livro.

Ordinário

Autor: Rafael Sica

Editora: Quadrinhos na Cia.

Páginas: 128

Preço sugerido: R$ 29,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

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Sobre Palazo

Não sou jornalista, muito menos escritor. Não guardo segredos, simplesmente por que estes não me pertencem. Prefiro dialogar ao vento para espalhar tudo aquilo que chega até mim. Leio com meus ouvidos e falo através dos meus olhos. Tenho a alma de um vagabundo responsável. Sou um contador de histórias.

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