18 de maio de 2012

O Sol de Breda (Arturo Pérez-Reverte)

O quadro de Diego Velázquez chamado As Lanças retrata a rendição dos holandeses, ou flamengos, da cidade de Breda em favor dos espanhóis que a assediavam. E o mesmo quadro é citado inúmeras vezes no terceiro livro da série das aventuras do Capitão Alatriste, que trata exatamente da guerra entre Espanha e Holanda para tomada da cidade de Breda.

O narrador Íñigo Balboa, perguntado pelo próprio Diego Velázquez sobre sua opinião com relação a obra ainda inacabada responde: “Foi assim e não foi assim”. E de fato o pajem do Capitão Alatriste, e agora mochileiro incorporado na guerra contra os holandeses, tem sua razão uma vez que o quadro retrata a rendição de Breda em um encontro amistoso em que Justino Nassau entrega de forma amistosa as chaves da cidade ao general espanhol Ambrósio de Spinola. Porém aos olhos de Íñigo, que vivenciou os dias de guerra, o que se vê é “o orgulho insolente dos vencedores e o despeito e o ódio nos olhos dos vencidos”.

No terceiro livro da série, o Capitão Alatriste volta ao seu ambiente natural: os campos de batalha. Acompanhado pelos companheiros de outras lutas, e também pelo narrador e pajem do capitão, agora como mochileiro auxiliando os homens em combate. A guerra, em questão é o assédio Espanhol para conquistar a cidade de Breda guarnecida por franceses, ingleses, escoceses e flamengos. Mas nem mesmo essa união era páreo a esquadra espanhola que segundo falavam nos corredores dos palácios da Espanha era comparável a esquadra de Júlio Cesar no assédio a Aléssia e que Íñigo nos descreve:

Éramos a fiel infantaria do rei católico. Voluntários todos, em busca de fortuna ou de glória, gente de toda honra mas também muitas vezes escória das Espanhas, chusma propensa ao motim, que só demonstrava uma disciplina de ferro, impecável, quando estava sob fogo inimigo. Impávidos e terríveis mesmo na derrota, os terços espanhóis, seminário dos melhores soldados que a Europa produzira durante dois séculos, encarnaram a máquina militar mais eficaz que alguém já comandou num campo de batalha.

Além da aventura da guerra vivida por Alatriste e seus companheiros, observamos um amadurecimento do menino Íñigo Balboa ao ser confrontado com os horrores da guerra. O cenário de “feridas horríveis, mutilações, cotos sangrentos, lamentos em todas as línguas” confrontam o narrador com uma realidade assustadora, e o coloca diante da morte de forma tão arrebatadora que por vezes percebemos uma narrativa com um olhar mais duro e seco dos fatos, como se os fantasmas daqueles tempos visitassem Íñigo enquanto ele nos conta a história.

Além de toda a batalha no cerco a Breda somos presenteados na obra de Arturo Pérez-Reverte com inúmeros nomes da cultura espanhola que são amigos, conhecidos ou apenas citados pelos personagens de sua obra. Durante a narrativa lemos sobre o pintor, que retratou a tomada de Breda, Diego Velázquez, Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote, e Lope de Vega, um dos maiores expoentes do teatro espanhol.

A oposição, ou paralelo, entre o quadro As Lanças de Diego Velázquez e o livro O Sol de Breda é singular ao apresentar, ao primeiro olhar, duas realidades distintas. Porém ao final observamos o carinho histórico que Arturo Pérez-Reverte dá a sua obra inspirada no manuscrito original Papéis do alferes Balboa, em que o próprio Íñigo Balboa relata a presença da figura do Capitão Alatriste no quadro de Velázquez, além de estudos da tela que comprovam a presença do personagem dessa história nesse que é um dos quadros mais famosos da Espanha. Logo percebemos que na realidade a oposição de histórias é na verdade um paralelo histórico muito bem traçado por Pérez-Reverte e que ao final do livro faz o leitor procurar o quadro As lanças e observá-lo em detalhes em busca do “herói” Diego Alatriste y Tenório

Em tempo, leia também as resenhas de O Capitão Alatriste e Limpeza de Sangue, os dois primeiros livros da série.

O Sol de Breda

Autor: Arturo Pérez-Reverte

Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 240

Preço sugerido: R$ 42,00

Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras

DISCUTA ESSE ARTIGO NO FORUM DO MEIA PALAVRA

Posts relacionados
Sobre Palazo

Não sou jornalista, muito menos escritor. Não guardo segredos, simplesmente por que estes não me pertencem. Prefiro dialogar ao vento para espalhar tudo aquilo que chega até mim. Leio com meus ouvidos e falo através dos meus olhos. Tenho a alma de um vagabundo responsável. Sou um contador de histórias.

Faça seu Comentário

*