Limpeza de sangue, título do segundo livro das “Aventuras do Capitão Alatriste”, é o termo usado na Europa do século XVII para determinar se uma pessoa era um cristão-velho, cuja família, pelo menos a partir dos avós, era cristã e não tinha parentes com atos contrários a vontade de Deus ou com antepassados ligados de alguma forma ao judaísmo. Aqueles com o sangue limpo estavam a salvo da Inquisição, os demais podiam ser punidos nos autos-de-fé sofrendo sentenças como açoites, reclusão perpétua e até mesmo a fogueira.
O livro protagonizado pelo herói humanizado Diego Alatriste y Tenório tem como tema principal a Inquisição, que significa “questionar judicialmente aqueles que, de uma forma ou de outra, se opõem aos preceitos da Igreja Católica”. Em uma Espanha fervorosamente católica, com um rei jovem e influenciável, a igreja ditava as regras e fazia valer toda sua força.
Assim uma das frases mais ouvidas naquela Espanha do século XVII era “tenham-se a Inquisição” e a mesma causava arrepios em qualquer um. Isso por que “a questão não era mais ser bom católico e cristão-velho, mas parecê-lo. E nada fazia parecer melhor do que delatando quem não o fosse, ou de quem se suspeitasse, por velhos rancores, ciúmes, invejas ou querelas. E entre a população choviam denuncias, sei disso de boa fonte, e era como se caísse granizo. De modo que quando o dedo implacável do Santo Ofício apontava para algum infeliz, este era abandonado no ato por protetores, amigos e parentes. E, assim, o filho acusava o pai, a mulher apontava o marido, e o preso precisava delatar cúmplices, ou inventá-los, para escapar da tortura e da morte”.
A história transcorre com o Capitão Alatriste e o poeta Francisco de Quevedo prestes a invadir o convento das Adoradoras Beneditas para resgatar uma noviça vítima das vontades sexuais do capelão. Porém ambos caem em uma emboscada que resulta na prisão de Íñigo, pajem do capitão e narrador da história, pela Santa Inquisição.
Com Íñigo preso somos levados as masmorras do Santo Ofício, e aos corredores tortuosos e obscuros da Santa Igreja. O que se segue são salas sombrias, máquinas de tortura, gritos e horror. O tribunal montado para apurar atos ilícitos para com a Igreja é narrado com os olhos assustados e corajosos do pajem do Capitão Alatriste. Afirmações desconexas, tapas na cara, socos, cordas, tortura para obter a vontade de padres descritos como a encarnação do próprio diabo.
A história transcorre até o auto-de-fé, acontecimento tão popular quanto as touradas, passeando entre jogos políticos, atitudes impulsivas e os últimos momentos antes da leitura da sentença do jovem Íñigo Balboa. Em uma narrativa cheia de enlaces inesperados e com a peculiar opinião política do narrador, que mesmo preso não perde o poder do verbo, somos levados para dentro da Inquisição na Espanha do século XVII, e todos seus horrores justificados pela fé, por um deus, ou seja lá o que for.
Limpeza de Sangue
Autor: Arturo Pérez-Reverte
Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 232
Preço sugerido: R$ 45,50
DISCUTA ESSE ARTIGO NO BLOG MEIA PALAVRA
Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras















Como leitor, sou admirador do estilo de Perez-Reverte e vejo em todos os livros da série “as aventuras do Capitão Alatriste” uma belíssima aula de história.
Salvador, essa é a mesma sensação que tenho… e lendo sobre o autor descobri que ele começou a escrever sobre Alatriste e a época de ouro da Espanha exatamente por que ele não encontrou nenhuma obra sobre essa época e achou um absurdo devido toda a riqueza histórica do período.