18 de maio de 2012

Limpeza de Sangue (Arturo Pérez-Reverte)

Limpeza de sangue, título do segundo livro das “Aventuras do Capitão Alatriste”, é o termo usado na Europa do século XVII para determinar se uma pessoa era um cristão-velho, cuja família, pelo menos a partir dos avós, era cristã e não tinha parentes com atos contrários a vontade de Deus ou com antepassados ligados de alguma forma ao judaísmo. Aqueles com o sangue limpo estavam a salvo da Inquisição, os demais podiam ser punidos nos autos-de-fé sofrendo sentenças como açoites, reclusão perpétua e até mesmo a fogueira.

O livro protagonizado pelo herói humanizado Diego Alatriste y Tenório tem como tema principal a Inquisição, que significa “questionar judicialmente aqueles que, de uma forma ou de outra, se opõem aos preceitos da Igreja Católica”. Em uma Espanha fervorosamente católica, com um rei jovem e influenciável, a igreja ditava as regras e fazia valer toda sua força.

Assim uma das frases mais ouvidas naquela Espanha do século XVII era “tenham-se a Inquisição” e a mesma causava arrepios em qualquer um. Isso por que “a questão não era mais ser bom católico e cristão-velho, mas parecê-lo. E nada fazia parecer melhor do que delatando quem não o fosse, ou de quem se suspeitasse, por velhos rancores, ciúmes, invejas ou querelas. E entre a população choviam denuncias, sei disso de boa fonte, e era como se caísse granizo. De modo que quando o dedo implacável do Santo Ofício apontava para algum infeliz, este era abandonado no ato por protetores, amigos e parentes. E, assim, o filho acusava o pai, a mulher apontava o marido, e o preso precisava delatar cúmplices, ou inventá-los, para escapar da tortura e da morte”.

A história transcorre com o Capitão Alatriste e o poeta Francisco de Quevedo prestes a invadir o convento das Adoradoras Beneditas para resgatar uma noviça vítima das vontades sexuais do capelão. Porém ambos caem em uma emboscada que resulta na prisão de Íñigo, pajem do capitão e narrador da história, pela Santa Inquisição.

Com Íñigo preso somos levados as masmorras do Santo Ofício, e aos corredores tortuosos e obscuros da Santa Igreja. O que se segue são salas sombrias, máquinas de tortura, gritos e horror. O tribunal montado para apurar atos ilícitos para com a Igreja é narrado com os olhos assustados e corajosos do pajem do Capitão Alatriste. Afirmações desconexas, tapas na cara, socos, cordas, tortura para obter a vontade de padres descritos como a encarnação do próprio diabo.

A história transcorre até o auto-de-fé, acontecimento tão popular quanto as touradas, passeando entre jogos políticos, atitudes impulsivas e os últimos momentos antes da leitura da sentença do jovem Íñigo Balboa. Em uma narrativa cheia de enlaces inesperados e com a peculiar opinião política do narrador, que mesmo preso não perde o poder do verbo, somos levados para dentro da Inquisição na Espanha do século XVII, e todos seus horrores justificados pela fé, por um deus, ou seja lá o que for.

Limpeza de Sangue

Autor: Arturo Pérez-Reverte

Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 232

Preço sugerido: R$ 45,50

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Não sou jornalista, muito menos escritor. Não guardo segredos, simplesmente por que estes não me pertencem. Prefiro dialogar ao vento para espalhar tudo aquilo que chega até mim. Leio com meus ouvidos e falo através dos meus olhos. Tenho a alma de um vagabundo responsável. Sou um contador de histórias.

Comentários

  1. Salvador Celson diz:

    Como leitor, sou admirador do estilo de Perez-Reverte e vejo em todos os livros da série “as aventuras do Capitão Alatriste” uma belíssima aula de história.

  2. Palazo diz:

    Salvador, essa é a mesma sensação que tenho… e lendo sobre o autor descobri que ele começou a escrever sobre Alatriste e a época de ouro da Espanha exatamente por que ele não encontrou nenhuma obra sobre essa época e achou um absurdo devido toda a riqueza histórica do período.

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  1. [...] de Mike Goldsmith, o Felippe falou sobre O Terceiro Reich, de Roberto Bolaño, e o Palazo escreveu sobre Limpeza de sangue, de Arturo [...]

  2. [...] tempo, leia também as resenhas de O Capitão Alatriste e Limpeza de Sangue, os dois primeiros livros da [...]

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