17 de maio de 2012

10 Perguntas e Meia para Benjamin Moser

Benjamin Moser na Bienal do Livro de São Paulo – 2010

O americano Benjamin Moser é o autor da biografia de Clarice Lispector, intitulada “Clarice,” (lê-se Clarice Vírgula). Ele é colunista da revista Harper e colaborador frequente do “The New York Review of Books”, uma revista quinzenal especializada em cultura, literatura e atualidades. O que mais impressiona no biógrafo de Clarice é a simpatia e habilidade para falar português. Segundo o escritor, foi durante as aulas de literatura de língua portuguesa que ele se apaixonou por Clarice Lispector, começou a pesquisa sobre a obra da escritora brasileira que durara cinco anos e que resultou na famosa biografia que já foi publicada nos EUA, Inglaterra, Brasil, Portugal e em breve na França. E foi com tamanha simpatia e paixão pela obra de Clarice que Benjamin cedeu essa entrevista ao Meia Palavra.

1. Você conheceu Clarice Lispector através do estudo da língua portuguesa. Quais foram suas maiores dificuldades para aprender português?

Na verdade, não tive muitas dificuldades com a língua portuguesa porque falava espanhol desde menino: sou da fronteira dos Estados Unidos com México e a língua espanhola era sempre muito presente na minha vida. Agora, por ter passado tanto tempo no Brasil, falo espanhol com sotaque brasileiro bastante forte… no início era o contrário.

2. Quais foram as primeiras obras de Clarice que você teve contato? O que nessas obras despertou seu interesse que veio a resultar na biografia da autora?

Foi “A hora da estrela,” que encontrei na faculdade, nos Estados Unidos. Tinha caído, quase que por engano, num curso de português e logo no terceiro semestre já começamos a ler obras curtas da literatura brasileira. Foi amor à primeira vista. Li novamente muito tempo depois e sempre achei uma injustiça ela não ser mais conhecida fora do Brasil. A idéia de remediar essa injustiça não me saiu da cabeça, mas não sabia como. E finalmente pensei: por que não o faço eu? Então fiz.

3. No seu livro “Clarice,” você dá muita ênfase ao fato da família da Clarice Lispector ser judaica e de toda a cultura judaica que envolveu Clarice, principalmente na sua infância. Porém ela nunca se mostrou como uma religiosa, apesar de ter muito misticismo na sua obra. Qual a relação da obra literária de Clarice Lispector e a sua herança Judaica?

Muita gente acha que para ser judia ela tinha que ser religiosa, mas não é isso que eu digo. É que a psicologia toda dela era judia, como não pôde deixar de ser por causa das circunstâncias de onde veio. Justamente o que essa família experimentou nos pogroms (perseguições violentas a judeus) – no assassinato do avô, no estupro da mãe, no exílio e na miséria do pai – era o que causa as pessoas a deixarem a religião. Porque por mais que você rezou, por mais que você seguiu tal e tal lei bíblica, Deus te castigou do mesmo jeito, te causou uma dor e um sofrimento atroz. Então as pessoas – como a própria Clarice, que “excomungou” Deus aos 9 anos, quando ele mata a mãe dela – não podem mais acreditar na velha religião. O que acontece é que as pessoas que tem o que chamo de “vocação mística” vão buscar Deus por outras vias. Isso é o que Clarice fez e isso é o que todos os grandes pensadores judeus fizeram num século vinte cheio de catástrofes.

4. Para compor a biografia de Clarice você estudou muitos períodos da história do Brasil, como o período Getulio Vargas, a colonização holandesa em pernambuco entre outras. O que mais te chamou atenção na história do Brasil? Existe algum período histórico que gerou alguma curiosidade para um estudo futuro?

Não especificamente. O que eu gostei muito era a oportunidade que um livro sobre Clarice Lispector me proporcionou de falar de quase todo o século vinte no Brasil, pelo menos até a morte dela em 1977. Porque estava fazendo este livro para leitores internacionais que não conhecem nada sobre o Brasil. Falei muito da política, da literatura, da música, da geografia do país, justamente para mostrar o Brasil em que viveu Clarice Lispector. Fiquei muito surpreendido, e muito grato, quando leitores brasileiros também me disseram que aprenderam muito com estas partes do livro.

5. Quais foram as influências literárias encontradas nas obras da escritora?

A mais interessante, que por alguma razão ninguém tinha percebido, embora para mim fosse óbvio, era o filósofo judeu-holandês Baruch de Spinoza. Ele também um produto do exílio, ele também acha impossível acreditar nas antigas “certezas” da religião, e ele também com essa vocação mística. Achei uma enorme coincidência algumas frases da Clarice, e fiquei muito feliz quando descobri, na biblioteca dela, uma edição francesa de Spinoza de 1941, com notas na mão dela, inclusive de frases que vão repercutir na obra dela desde “Perto do coração selvagem” até seu último livro, “A hora da estrela.”

6. Qual dos romances de Clarice é o seu preferido? E Por que? Existe algum livro, ou alguns, que você ainda pretende reler para compreender mais da obra literária da escritora?

Clarice é sempre, e ainda, uma surpresa para mim. Tenho especial carinho para todas as obras dela, mas acho que os livros difíceis são os mais interessantes para mim. Porque se eu amei num relance algumas obras como “A hora da estrela” ou “Agua viva,” tive muita dificuldade com outros, como “O lustre” ou “A cidade sitiada.” O biógrafo tem que escrever sobre todas as obras, e então tive que tentar entendê-las. Tem que lidar com muito respeito e se perguntar: mas o que é que ela está fazendo? E quando se descobre, é uma grande recompensa.

7. Além de Clarice Lispector, quais outros autores brasileiros você conhece e admira?

Muitos. Tive a grande oportunidade de conhecer, durante essa pesquisa, os autores ao redor da Clarice, da “turma” dela: Erico Veríssimo, João Cabral de Melo Neto, Lúcio Cardoso, Manuel Bandeira… Dos atuais, sou um grande fã de Bernardo Carvalho.

8. Durante toda a pesquisa bibliográfica você viajou o mundo para lugares na Ucrânia, Maceió, Belém, Rio, Itália, Recife entre outros. Quais os fatos e histórias mais curiosas que você descobriu nas suas viagens para encontrar Clarice?

Havia muitos, e é por isso que as viagens são tão indispensáveis para o biógrafo. Fiquei fascinado pela Ucrânia. Na aldeia dela, por exemplo, que era numa região da fronteira, sempre suscetível a ataques, tem túneis imensos debaixo das casas, onde a população se refugiava em momentos de guerra. Estão ainda lá, exatamente como eram há quase cem anos, quando ela nasceu num momento de terrível violência. Você pode entrar nos túneis, na escuridão, ouvir a água pingando, e imaginar exatamente como era para essa gente escondida ali.

9. Por que não existem fotos na biografia “Clarice,”?

A cara da Clarice é tão famosa que quase virou um clichê. Optamos, pois, na edição brasileira, pôr a ênfase no texto e não na parte mais “lendária” dela, que inclui sua aparência física, sua beleza.

10. Você sente saudades dos cinco anos de pesquisa sobre Clarice?

Sinto. Adorei o processo de fazer este livro, embora fosse muito difícil, às vezes muito penoso, mas foi um enorme privilégio passar tanto tempo em companhia de uma pessoa que admirei tanto, e de conhecer as pessoas ao redor dela. O bom é que ainda está continuando porque ainda estou viajando para promover Clarice no mundo, me encontrando com amigos dela, leitores, e admiradores.

1\2. Clarice Lispector é… Ainda um mistério.

A Equipe Meia Palavra agradece a atenção de Benjamin Moser.

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Sobre Palazo

Não sou jornalista, muito menos escritor. Não guardo segredos, simplesmente por que estes não me pertencem. Prefiro dialogar ao vento para espalhar tudo aquilo que chega até mim. Leio com meus ouvidos e falo através dos meus olhos. Tenho a alma de um vagabundo responsável. Sou um contador de histórias.

Comentários

  1. Valentina diz:

    Entrevista muito boa. Melhor ainda, claro, porque ele cita João Cabral de Melo Neto.

  2. Alisson diz:

    Ótima entrevista!

    Tenho acompanhado a repercussão da biografia desde seu lançamento, embora ainda não tenha lido. Houve um debate acirrado na Fliporto este ano sobre essas questões abordadas no livro (a história familiar e a procedência religiosa da Clarice), consideradas irrelevantes por outros biógrafos. Não tomo partido, até porque nem sei muita coisa sobre a autora. >.<

    Espero que o livro proporcione maior reconhecimento internacional à obra da Clarice, e – por extensão – à literatura brasileira.

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