Dezoito anos depois de Haroun viajar até a segunda lua (invisível) da Terra, onde havia um Mar de Histórias que terminava no Lago da Sabedoria, de onde canos (também invisíveis) levavam a água mágica para os contadores de histórias, surge uma nova aventura. Mas dessa vez não é Haroun quem protagoniza a nova viagem. Nessa história, ele já é grande demais para isso, e o heroi da vez é seu irmão mais novo, Luka. Vemos o já então conhecido Xá do Blá-Blá-Blá, o contador de histórias Rashid Kahlifa, pai dos garotos, mais uma vez em risco.
Luka e o Fogo da Vida é a continuação de Haroun e o Mar de Histórias, de Salman Rushdie, dedicado ao seu filho caçula – assim como o primeiro era ao mais velho. Lançado mundialmente no Brasil pela Companhia das Letras, a fantasia que nos é apresentada agora difere da que vimos no primeiro livro infantojuvenil do autor, embora a premissa seja a mesma. Não há um retorno ao Mar de Histórias, mas sim uma viagem fantástica ao Mundo Mágico criado por Rashid, que está mais ameaçado do que se imagina.A história começa com um circo pouco divertido que vai até Kahani. Luka, vendo o estado deplorável dos animais do circo, lança uma maldição contra seu dono, o Capitão Aag, e para espanto geral a maldição dá certo. Todos os animais de Aag se rebelam e fogem, deixando-o sozinho e falido. Luka consegue, então, dois novos amigos: Cão, o urso, e Urso, o cão, animais talentosos e muito inteligentes. Mas junto com eles vêm problemas. Para se vingar do menino de 12 anos, Capitão Aag lança em Rashid em um sono profundo que pode tirar sua vida, e Luka se vê obrigado a ir até o Mundo Mágico auxiliado por uma “cópia” de seu pai para roubar o Fogo da Vida, que o fará acordar.
O que torna Luka e o Fogo da Vida tão diferente de Haroun e o Mar de Histórias são as referências que Rushdie usa na trama. Crescendo em meio a histórias fantásticas e tecnologia, Luka vive no mundo atual como qualquer criança: brincando e jogando muito vídeo game. Baseando-se nisso, Rushdie faz da aventura de Luka um jogo propriamente dito, com fases a se passar, salvar, e vidas para acumular. Misturado à isso há um mundo mágico, com seres extraordinários e deuses de várias culturas, citações a jogos, filmes e livros como Super Mario, O Exterminador do Futuro, O Senhor do Anéis, As Crônicas de Nárnia, De Volta para o Futuro e muito mais. Tem como isso não resultar em algo bom?
Se em Haroun Rushdie falava da importância das histórias para a vida, aqui ele trata do medo da morte e do tempo. Os lugares do Mundo Mágico sempre se referem ao passado, presente, futuro e memória. Aqui, ser lembrado é essencial, e o protagonista nos leva para uma corrida contra o próprio tempo, temendo a toda hora que seja tarde demais para salvar o pai. Assim como Haroun, Luka é um garoto muito esperto e sincero, com aquela boa dose de sarcasmo que torna as esquisitices do Mundo Mágico ainda mais engraçadas. E, claro, o garoto também projeta nessa fantasia elementos de sua realidade, aquela brincadeira que toda criança faz de transformar as pessoas boas e ruins que conhece em vilões e herois.
A narração clara e sem rodeios de Rushdie acelera a leitura, deixando aquela sensação de que o livro poderia ter mais 200 páginas, só para sentir o gostinho dessa fantasia por um tempo maior. Aqueles que gostam de caçar elementos da própria vida dentro da ficção vão adorar identificar as várias referências da infância que podem surgir a cada novo parágrafo. Luka e o Fogo da Vida é inteligente por conter não apenas uma simples história de um mundo paralelo, mas por também carregar lições importantes sobre coisas inevitáveis da vida: entender que o tempo passa e as coisas se vão, e aproveitar esse momento da melhor forma possível.
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Luka e o Fogo da Vida
Salman Rushdie
Tradução: José Rubens Siqueira
208 páginas
Preço sugerido: R$33,00
Saiba mais sobre essa e outras obras no site da Companhia das Letras















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