22 de fevereiro de 2012

Tarantino e os casais de seus filmes

Não sou um grande conhecedor de Tarantino, mas recentemente assistindo a Amor à Queima Roupa (True Romance, 1993) e Assassinos por Natureza (Natural Born Killers, 1994), dois filmes em que ele não é diretor, mas roteirista; passei de admirador a fã.

Já vi uma porção de filmes dele e reconheci de cara algumas das tão conhecidas marcas dele: diálogos non sense excelentes e extremamente divertidos; referências constantes a cultura pop, passando por músicas, filmes, quadrinhos, programas de TV entre outros; evidências de um conhecimento enciclopédico (e invejável!) sobre cinema, desde clássicos até filmes trash, grindhouse e obscuros filmes de Kung Fu; e, logicamente, uma trama cheia de tiroteios, balas e personagens carismáticos.

Achei e acho incrível como ele envereda por conversas nada convencionais e referências estonteantemente específicas e obscuras sem perder o fio da narrativa, mesmo tendo várias histórias e tramas ocorrendo ao mesmo tempo. Ele faz você ficar boquiaberto ao parar e pensar como é que o filme chegou a falar sobre uma trilogia de filmes Kung Fu ou qualquer conversa aparentemente não consoante com o resto da história e do contexto do filme. Bato palmas, parabéns!

Esses pequenos detalhes, adidos de uma trilha sonora primorosa e uma direção que procura não seguir convenções tradicionais resultam em belos clássicos cinematográficos. Porém, longe aqui de querer analisar mais tecnicamente os filmes em questão ou os demais em que Tarantino é diretor, quero pensar um pouco sobre como ele constrói o par “romântico” dos já citados filmes.

Os dois casais tarantinescos, Clarence Worley e Alabama Whitman (Christian Slater e Patrícia Arquette) em Amor à Queima Roupa; e Mickey e Mallory Knox (Woody Harrelson e Juliette Lewis) em Assassinos por Natureza, possuem algumas semelhanças que gostaria de analisar aqui. Ambos são retratos do amor e da relação de duas pessoas que se amam através do olhar de Tarantino. O diretor de Bastardos Inglórios não deixou espaço, em nenhum dos casos, para maiores melodramas e declarações do tipo presente em vários dramas holywoodianos; o amor, nesses dois filmes, surge de uma ligação diferente, de proteção mútua, de cumplicidade a todo custo, de uma afinidade que nada tem de idealizada ou romântica (em uma das acepções da palavra), ou seja, nada convencional.

Essa parece ser uma preocupação muito presente nos filmes de Tarantino ao falar sobre o amor, tanto nos que ele escreveu quanto nos que ele dirigiu: não se tornar piegas. Sua aversão ao melodramático consegue imprimir um ritmo mais fluido a história, deixando mais espaço para o andamento de outros elementos no filme.

Conto aqui como relacionei esses dois exemplos. Ao pensar sobre Clarence e Alabama, não pude deixar de pensar na condição de garota de programa de Alabama e a situação financeira e material de Clarence. O amor deles não está baseado na idealização amorosa, na divinização da relação, mas sim nas dificuldades que eles acabam enfrentando juntos. Por isso, não pude deixar de relacionar isso a uma espécie de “Realismo”, guardadas, logicamente, as proporções de tal afirmação.

Já no caso de Assassinos por Natureza, Mickey e Mallory Knox possuem um outro tipo de relação, muito forte, ligada a vida de crimes e mortes que têm. Essa visão meia animalesca do homem, como se o ímpeto de assassinar a sangue frio fosse algo latente em todas as pessoas, só esperando para despertar é como uma radicalização daquela cumplicidade de Amor à Queima Roupa; aqui, não há somente a “necessidade” de matar, mas também o “gosto” pelo matar, reação evidenciada em cenas macabras e diálogos assombrosos, por isso, é como se fosse um “Naturalismo”.

Obviamente que isso é somente um esboço de análise e um modo de compreender os filmes, nada que possa esgotar o divertido, inteligente e complexo labirinto dos filmes de Quentin Tarantino.

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Sobre Lucas Deschain

Lucas Kölln adotou Deschain depois de ler A Torre Negra, aliás, ler é algo que ele gosta muito. Além disso cursa História e adora o silêncio contemplativo das bibliotecas. Se surpreende (negativa e positivamente) com a humanidade todos os dias, gostaria de não precisar dormir e é dono de um perfeccionismo que beira a insanidade. Eclético com tendências a livros com Fantasia e fluxo de consciência.

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