16 de maio de 2012

Noturno do Chile (Roberto Bolaño)

noturnodochileNão é apenas de entrelinhas que vive Bolaño, em Noturno do Chile o escritor emprega uma narrativa de fluxo de pensamento em forma de monólogo denso depositado no silêncio de Sebastian Urrutia Lacroix, padre e crítico literário, às vésperas de sua morte.

Sebastian Urrutia torna-se amigo de Farewell, o maior crítico literário do Chile, que o ensina sobre diversas vertentes da literatura. Em meio às histórias dos outros convidados ilustres de Farewell, o padre recebe uma missão das mãos do Srs. Oidem e Oidó na Europa: ele tem de descobrir como as igrejas européias são conservadas. Logo após sua volta, mais uma missão chega às suas mãos: dar aulas de marxismo para o alto escalão militar em plena ditadura.

Lendo Noturno do Chile, a ênfase no silêncio de um crítico literário (que ironicamente é um padre pretensioso e ingênuo), nos faz refletir sobre como a quietude pode nos tornar pessoas apáticas e ao mesmo tempo detalhistas. Sebastian está em um momento febril e quanto mais se aproxima do fim de seu monólogo, mais contraditórios os pensamentos parecem aglutinados as suas inquietações com a morte eminente.

Nessa narrativa interna nos deparamos com nomes da história chilena como Pablo Neruda ou mesmo Augusto Pinochet, todavia o atrativo principal é a condução, Bolaño consegue direcionar a narrativa em pulos no tempo dentro da história de outras personagens, como Don Salvador e Jünger, colocando uma narrativa dentro da outra.

Entre as ambições e divagações sobre a vida, a literatura e a política, Bolaño nos fornece, sob o olhar inocente de um religioso, um retrato competente sobre figuras à mercê de um estado ditatorial apático de cultura e das contradições humanas.

A voz da geração em que foi criado Roberto Bolaño, desde a ditadura até seu exílio, mostra que nos tempos mais difíceis é que podemos criticar o nosso tempo para criar na atualidade uma nova visão sobre o que aconteceu conosco. Creio que Roberto escrevia para entender seu próprio tempo, sobre ele mesmo ele entendia: era um perdido, mas a época em que viveu estava longe da perdição.

Serviço: BOLAÑO, Roberto. Noturno do Chile. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 120 págs. Preço sugerido: R$ 35,50.

COMENTE ESSE ARTIGO NO FÓRUM MEIA PALAVRA

Posts relacionados
Sobre Felippe Cordeiro

Felippe Cordeiro a.k.a. Pips é leitor assíduo de romances latino-americanos e de literatura contemporânea mundial. Astrólogo em noites de boteco, considera a máxima "Só a banalidade me interessa" um exemplo a ser seguido. Enquanto não está no Meia Palavra é produtor, roteirista e colabora para o Judão e para o Vida Ordinária

Comentários

  1. Olá Felippe, li Nocturno de Chile essa semana e depois de acabar minha leitura acabei lendo sua resenha a qual achei muito interessante. Gostaria de acrescentar alguns comentários:
    1- O livro só tem dois parágrafos, o primeiro com 130 paginas e o segundo uma linha, segundo alguns blogs as três ultimas palavras do livro eram o titulo desejado pelo autor para o livro.
    2- Os personagens que convidam Lacroix para ir a Europa em espanhol se chamam Odeim e Oido (Odio e Miedo ao contrario), eles aparecem no momento em que o Chile está começando a se convulsionar devido a questões políticas.
    3- Acho muito interessante ler o livro com o Google aberto ao lado para saber quem é quem na trama, a maioria absoluta dos nomes presentes no livro são de personagens reais e os que não são diversos blogs indicam quem poderia ser.
    4- Em varias passagens me parecia que a narrativa se assemelhava muito ao de uma pessoa em estado febril.

Trackbacks

  1. [...] e quer saber mais sobre outras obras do Bolaño, não deixe de conferir as resenhas do Pips para Noturno do Chile, Os Detetives Selvagens e Estrela Distante já publicadas aqui no blog do Meia Palavra. Enquanto [...]

  2. [...] e quer saber mais sobre outras obras do Bolaño, não deixe de conferir as resenhas do Pips para Noturno do Chile, Os Detetives Selvagens e Estrela Distante já publicadas aqui no blog do Meia Palavra. Enquanto [...]

  3. [...] e quer saber mais sobre outras obras do Bolaño, não deixe de conferir as resenhas do Pips para Noturno do Chile, Os Detetives Selvagens e Estrela Distante já publicadas aqui no blog do Meia Palavra. Enquanto [...]

  4. [...] Apesar de ter alguns livros já lançados em território tupiniquim, dentre eles Estrela Distante, Noturno do Chile, Os Detetives Selvagens, Putas Assassinas, Amuleto, foi em 2010 que chegou às livrarias, lançado [...]

Faça seu Comentário

*