6 de fevereiro de 2012

O apanhador no campo de centeio- J. D. Salinger

apanhador_centeioFoi anunciado ontem o falecimento do escritor J. D. Salinger, conhecido mundialmente pela obra O apanhador no campo de centeio. Famoso por ser uma pessoa reclusa, nos últimos tempos seu nome aparecera nos jornais apenas por conta de um processo que movera contra um escritor sueco que escreveu uma continuação para O apanhador no campo de centeio chamada 60 Years Later: Coming through the Rye.

Essa sequência não autorizada é só mais um dos indicativos da importância e influência do romance de Salinger mesmo há mais de 50 anos de sua publicação. E não é à toa: de modo extraordinariamente simples, o escritor conseguiu escrever sobre uma das fases mais contraditórias da vida das pessoas, a passagem da adolescência para o mundo adulto.

Com legiões de fãs, seguidores e imitadores do protagonista Holden Caufield, é muito comum encontrar pessoas que se frustraram com a leitura de O apanhador no campo de centeio. O problema é que são sempre tantos elogios à obra que costuma-se esperar um enredo inovador, algo que choque, etc. Mas não é o que acontece. Na realidade, pouco acontece em O apanhador no campo de centeio.

O livro começa com Holden sendo expulso da escola e então voltando para casa alguns dias mais cedo. A história em si é esse retorno. E é isso que acaba desagradando o leitor desavisado, que  talvez esteja prestando atenção apenas no plot, ou esperando grandes filosofias (óbvias), que jamais aparecerão.
E é realmente uma pena que isso aconteça, porque ao focar no ponto certo, O apanhador no campo de centeio é realmente uma obra encantadora. O modo como Holden vai apresentando as personagens que fazem parte de sua vida, uma galeria de pequenos recortes com características únicas (como Jane que nunca mexia nas damas quando jogava, ou o irmão com a luva de beisebol cheia de poesias).

Interessante também é observar a relação dele com os adultos que encontra no meio do caminho de volta para casa. A ideia sutil de que ele está terminando uma fase da vida e chegando em outra está ali, quando sem qualquer pretensão de passar grandes ensinamentos Salinger coloca Holden observando e refletindo sobre pessoas como o professor Antolini.

As marcas de oralidade do narrador garantem uma sensação de ouvir um amigo contando alguma história, na qual você em alguns momentos se reconhece até pela simplicidade dos fatos. É o tipo de livro que merece uma leitura mais cuidadosa, refletida.

A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de todo mundo (J.D. Salinger, 1919-2010).

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Sobre Anica

Bacharel em Estudos Literários pela UFPR, Especialista em Ensino de Línguas Estrangeiras Modernas pela UTFPR, professora de Língua Inglesa e mãe. Tem uma quedinha descarada por filmes e livros de horror, de preferência os com zumbis. Pode ser encontrada também no .:Hellfire Club:., no Ministry of Zombie Walks e no Blog do Arthur.

Comentários

  1. Célys Ursulino - pe diz:

    Olá pessoal, gostei muito do comentário. O interessante no livro é justamente o que foi colocado; o modo como Holden vai apresentando as pessoas que encontra nessa volta para casa, descrevendo seus aspéctos e atitudes. Mostrando também alguns dos principais dilemas existencias que permeiam seu pensamento juvenil. O livro é bastante interessante, vale a pena conferir sim.

Trackbacks

  1. [...] Estórias, acho difícil que algum deles irá superar O Apanhador do Campo de Centeio (resenhas aqui e aqui), o livro é de leitura anual para mim e dono de um humor ácido e sarcástico que me agrada [...]

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