6 de fevereiro de 2012

Estrela Distante

bolañoUma geração de jovens poetas se depara com um regime totalitário e com diversas prisões e sumiços. Essa é uma sinopse simplista da história de Estrela Distante, de Roberto Bolaño (a quem conheci nesse final de ano). Um narrador nos dita o que acontece por quase duas décadas e os mistérios envolvendo um jovem autodidata chamado Alberto Ruiz-Tagle.

Os trejeitos do personagem revelam um rapaz educado (principalmente com as mulheres), com boa situação financeira e dotes para ser um grande poeta. Nosso narrador nunca chega a ter um contato verdadeiro com Ruiz-Tagle, mas o descreve com grande precisão aquilo que ele aparenta.

Logo após o golpe militar Ruiz-Tagle e os diversos participantes das oficinas de poesia das universidades do Chile desaparecem. Em contrapartida um indomável aviador, Carlos Wieder, aparece escrevendo poesias no céu (e também versículos bíblicos) e ninguém sabe ao certo se trabalha para o governo ou se é apenas um desafiador da moral imposta na ditadura Pinochet. O narrador afirma que essa nova figura dos céus é Ruiz-Tagle executando suas obras-primas. Todavia, esse novo personagem (ou talvez velho) mostra-se um artista da tortura, assassina as gêmeas companheiras de oficina do narrador, e ainda abre uma mostra de fotografias desses assassinatos, considerando uma arte estética e abolindo qualquer traço de moralidade.

Com criatividade qualquer um consegue fazer qualquer coisa.

O narrador segue, junto de seu amigo Bibiano através de cartas, uma investigação para provar que Ruiz-Tagle e Wieder são realmente, de fato, a mesma pessoa. Entre todas essas averiguações ainda nos revela, de maneira subjetiva, a que fim se deu os poetas das oficinas. Fato interessante é mostrar que a literatura clássica, nesses tempos, é jogada de lado para a criação de novos ares literários e artísticos.

O romance que começa como uma poesia segue uma trilha de comédia sádica e crítica, esbanjando, através da narrativa impar de Bolaño, um retrato de memórias pessoais, caráter poético e fictício sobre sua geração atormentada pela ditadura recorrendo a qualquer tipo de fuga criativa, quando a ‘vida real’ adquiria traços de feiura e certa brutalidade profundamente desagrádaveis.

BOLAÑO, Roberto. Estrela Distante. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 144 páginas. Preço sugerido: R$ 33,00

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Sobre Felippe Cordeiro

Felippe Cordeiro a.k.a. Pips é leitor assíduo de romances latino-americanos (também de literatura contemporânea mundial) e astrólogo em noites de boteco. Enquanto não está no Meia Palavra é produtor, roteirista e colabora para o Judão e para o Vida Ordinária

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  1. [...] Bolaño no Brasil. Apesar de ter alguns livros já lançados em território tupiniquim, dentre eles Estrela Distante, Noturno do Chile, Os Detetives Selvagens, Putas Assassinas, Amuleto, foi em 2010 que chegou às [...]

  2. [...] já que avançava sob a sombra do monstro da expectativa. Porém, como o Pips (que, aliás, já resenhou esse livro) acertadamente me disse, Bolaño é um monstro bem maior que a [...]

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