Nossas Apostas para o Nobel III

novembro 6, 2009 – 6:22 am
Por Tiago Pinheiro

imagesDepois de tanto tempo, eis a última parte de nossas conversas. Aqui fazemos o diagnóstico da escolha de Herta Müller para o prêmio Nobel deste ano.

Tiago Pinheiro: Passadas as comemorações e as mágoas da escolha de Herta Müller para o Nobel deste ano, acho que podemos discutir melhor a decisão da Academia Sueca. Acredito que você, assim como eu, deve estar criando uma explicação para si. É a terceira mulher que ganha em seis anos; é o terceiro autor em língua alemã nos últimos 12 anos; não estava sequer nas listas de apostas e menos ainda nas nossas listas…

Luciano R. M.: Sim. Ainda estou tentando entender, mas não faz muito sentido para mim: tirando o fato de ser poeta, ela é exatamente igual a todos os últimos laureados. Talvez seja um sinal da ascensão de um III Reich ou algo assim.  De qualquer modo, a surpresa não foi só nossa: em vários sites e jornais Herta foi citada como uma incógnita pois, apesar de ser importante para a poesia alemã do século XX, ela não é exatamente conhecida fora de lá.

T. P.: Ela não é exatamente igual, principalmente porque ela vem de um regime comunista – um nicho que parecia ter esgotado, mas que o Nobel decidiu resgatar lá num país esquecido como a Romênia.  Talvez a bajulação de que a literatura (só) serve como arma libertadora em sociedades ditas totalitárias, esteja acabando… Talvez a Academia devesse começar a voltar os olhos para os problemas das sociedades “liberais”… Ver a literatura como um porta-estandarte que sempre aponta para uma certa democracia tem seus limites… Não estou dizendo que essas conquistas não são louváveis, mas elas não são provas de que o outro modelo (o europeu/norte-americano) seja o plenamente justo, como essa sensação da repetição dos motivos que levam um autor a ganhar o Nobel deixa entrever… Assim, podemos imaginar que um III Reich seria plenamente “democrático”…
Não acho ruim a escolha de Herta Müller: é esse fator surpreendente no Nobel que me faz esperar a nomeação com interesse. Contudo, essa preferência por uma certa Europa é incomoda, ainda mais quando esse sistema me parece claramente em decadência… O simples fato de que ela foi classificada como uma autora alemã e não romena não só me incomoda, como incomodou a própria escritora que se vê como uma depaysée…
L. R. M.: Incomodo: eis a palavra chave para o que a escolha causou. A academia sueca parece ter uma visão cada mais limitada à Europa. E aos seus países mais parrudos. Alemanha, França, Inglaterra. E algumas derivações, que historicamente e do modo como eles fazem, acabam sendo a
mesma coisa que esses países que citei. Quanto ao comunismo… Mesmo isso acaba tendo um quê de repetição, pelo Kertész. Mas é a sanha libertadora da Acadêmia. Pena que hoje em dia eles escolham os autores já ‘libertos’, e não de países ainda ‘problemáticos’, como foram, no passado, o Sillanpää, o Andrić е о Sholokhov.

T. P.: “Pena que hoje em dia eles escolham os autores já ‘libertos’, e não de países ainda ‘problemáticos’, como foram, no passado, o Sillanpää, o Andrić е о Sholokhov”. Não é como a pobre Elizabeth Costello, de J. M. Coetzee, que ganhou um prêmio mesmo (e talvez porque) sua obra, como o próprio filho dela interpreta, não se revelou um problema, mas só um exemplo, um exemplo de um tipo de escrita que se dá em outro lugar, em outra situação, que só tem a ver com a nossa para provar que somos melhores?
Semana passada, a Folha de São Paulo publicou umas fofoquinhas sobre a feira do livro em Frankfurt que me fizeram pensar se Herta Müller não seria uma espécie de “correção” dos prêmios anteriores atribuídos a escritores de língua alemã, i.e., Günter Grass e Elfriede Jelinek. Isso porque, apesar do incomodo que causou, ela parece ser uma escolha mais moderada (principalmente em relação ao Grass) e mais certeira (principalmente em relação a Jelinek). Além disso, aparentemente, não há o risco de aparecer algum dado incomodo de seu passado como aconteceu com Grass depois de “Descascando a cebola”…

L.R.M.: Gosto dessa comparação com a Costello. Teria de ler a Herta direito pra saber o quanto disso bate, mas… É um modo de se pensar. E, de fato, ela não parece alguém que irá surpreender. E a Academia sempre preocupou-se em ser politicamente correta: premiava o lado mais fraco dos conflitos, premiava o excluído, premiava o sofrido. Só nos últimos anos, que vêm premiando os queridos. Nisso, ao menos, a Herta foi diferente.

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