O Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë)
novembro 4, 2009 – 9:07 pmPor Anica
Eu sei que insisto bastante nisso, mas acho que ao menos no que diz respeito aos clássicos não tem livro ruim, é o leitor que não está no momento certo de ler. Veja o caso de O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights), de Emily Brontë. Quando eu li, tinha lá uns quatorze ou quinze anos, tinha em mãos uma edição “resumida” da série Reencontro da editora Scipione. Estava na praia, o tempo estava ruim então o livro era só o que me restava. Resumo da ópera: achei bem sem graça.
Aí resolvi aproveitar alguns clássicos da Penguin (que firmou acordo com a Companhia das Letras recentemente) e reler o livro. Eu não vou dizer que está entre aqueles que mais amei em toda minha vida, nem que sejam daqueles que mudaram meu mundo, mas foi uma ótima experiência. E tem um valor literário gigante, se for pensar a época na qual foi escrito (final do século XIX) por quem foi escrito (uma mulher) e como retrata o amor entre duas pessoas.
Se bem que eu não acredito que O Morro dos Ventos Uivantes seja uma história de amor, pelo menos não é o que se espera de uma história desse tipo. Parece mais com um retrato da mesquinhez humana, e de como isso pode acabar moldando (ou melhor, desfigurando) o caráter de uma pessoa.
A história começa com Mr. Earnshaw trazendo para o Morro dos Ventos Uivantes uma criança que todos dizem ser um cigano mas ninguém sabe ao certo de onde veio. É Heathcliff, que por receber as atenções do senhor daquele lugar logo desperta os ciúmes das crianças ao redor, especialmente do filho de Earnshaw, Hindley. Heathcliff consegue porém conquistar a atenção de Catherine, irmã de Hindley. Tudo corre relativamente bem quando o benfeitor morre, Heathcliff fica à mercê das maldades de Hindley, o que faz com que ele cresça “selvagem” – e daí vem toda a tragédia do protagonista.
Como alguém sem educação e sem qualquer dinheiro, Heathcliff acaba não sendo uma opção para Catherine, mesmo que essa seja apaixonada por ele. Ela fica noiva de Edgar Linton e nesse momento Heathcliff desaparece do Morro dos Ventos Uivantes, para só retornar quando tinha (misteriosamente) juntado uma boa quantia de dinheiro, o suficiente para colocar em prática sua vingança contra aqueles que o separaram de Cathy.
A questão é que ele fica tão cego por essa vingança, que acaba destruindo a vida de todos aqueles que o cercam. O mal que ele pratica é tanto que em dado momento Catherine (filha de Edgar e Cathy) deixa bem claro para a personagem que o consolo dela é saber que Heathcliff estará sempre só, e que ninguém nunca o amará.
Como disse, não é exatamente o enredo que se espera de uma história de amor – e talvez essa seja uma das tantas qualidades da obras. Gostei também do cuidado de Brontë com a narrativa, colocando uma história dentro de outra história: Mr. Lockwood fica doente após visitar Heathcliff e curioso com o que viu, pede para que Ellen “Nelly” Dean conte sobre aquela figura tão singular. A maior parte de O Morro dos Ventos Uivantes é narrado por Nelly, no final das contas uma das poucas personagens “boas” da história, ou pelo menos livres do egoísmo que as outras apresentam de sobra.
Outra questão é o retrato de Yorkshire. Em alguns momentos ela é tão descritiva que eu, que nunca estive lá, era como se tivesse a imagem estampada na minha memória. Isso para não falar de outros detalhes, como a representação da fala das pessoas mais simples da região (vale lembrar que no Brasil isso só ficou mais “comum” após o modernismo, já no século seguinte).
Para quem aguenta ler no computador, tem o original disponível no Projeto Gutenberg. E depois de ler, não deixe de ouvir Wuthering Heights com a Kate Bush. Ok, eu sei que é tosco, mas é divertido ouvir uma canção inspirada em uma obra literária.
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carla em 23 nov 2009 às 7:56 am, disse:
Linda história. É um tipo de amor dolorido. Um romance bem dramático. Creio que na época em que foi escrito, pela cultura e repressão, as histórias de amores infelizes eram mais comuns. Ontem vi uma versão recente na TV, e debulhei em lágrimas… hehe… A trilha sonora é um primor…
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