Destaques de setembro no Lutar com Palavras
outubro 17, 2009 – 10:22 amPor Anica
Para quem não está muito familiarizado com o Fórum Meia Palavra, nele temos um fórum especial apenas para a publicação de prosa e poesia de autoria dos usuários, chamado Lutar com Palavras. E justamente para prestigiar aqueles que compartilham conosco suas criações, a partir de junho começamos a escolher através de enquete os destaques nos subfóruns Prosa e Poesia. Além de ganhar um nick de cor diferente, o trabalho deles também é publicado aqui no blog.
Os destaques desse mês foram entrego, de ricardo campos (Poesia) e Amante cortes ou amante carnal, de Franco e A revolução das espécies, de JLM (Prosa). Parabéns para os três autores, esperamos ver muito mais de vocês por aqui. Para ler os textos escolhidos como os melhores de junhosetembro pelos membros do Meia Palavra, é só continuar lendo esse post.
DESTAQUE POESIA: entrego (ricardo campos)
entrego
entrego a ti
o verso
que carrego em mim
DESTAQUE PROSA: Amante cortes ou amante carnal (Franco)
Amante cortes ou amante carnal
- Humm, – ela parecia estar a frente de saborosos pratos, apenas na dúvida de qual escolher – qual devo pegar?
- Aquele ali de yoga é ótimo, você vai adorar!
O livro era uma porcaria, Andrade sabia, só quem não precisava saber era Olívia; tudo que ela precisava era escolher aquele livro ensinando técnicas de yoga contra o estresse, e deixar isentos todos os outros livros que eram bons. Mas Olívia não caiu na armadilha de Andrade. Manteve o sorriso maroto, e agora a cada livro que seu indicador, tão reto e rígido, apontava, ela simultaneamente voltava o rosto para fitar a reação de Andrade.
O rapaz não via nenhum problema em emprestar seus livros, sempre os emprestara a amigos. Só exigia um cuidado sacro, que voltasse tão conservado quanto tinha ido. Assim emprestaria seus livros à Olivia, sua namorada… emprestaria não fosse a delicada situação: uma briga. Motivo? O rapaz teimava em gastar seus finais de semana, único tempo livre do casal, com as leituras de romances, poesias e contos. Isso era uma apunhalada no orgulho feminino de Olívia; se existisse outra mulher Olívia até aceitaria, mas livros? De jeito nenhum!, bramia indignada. Dado esse contexto Andrade sabia, e Olívia pouco escondia, que seriam os livros as grandes vítimas, quase uma moeda de barganha, da crise do casal.
Por isso agora, enquanto o indicador tocava de leve os livros postos na estante da sala de Andrade, a moça tentava ler no rosto do namorado qualquer indicação de qual livro deveria escolher.
Quando o dedo passou pelos livros de poesia, Andrade perdeu o ritmo da respiração; temeu pela integridade física de todos seus poetas brasileiros mais adorados. Olívia ainda se demorou, como indecisa, com o dedo na coletânea de Carlos Drummond de Andrade. Ai, não, não!, pensou o rapaz. Mas o dedo inquisidor continuou a procura de coisa melhor, como que não contente com um mero perder ritmo da respiração. Chegou então nos livros de contos e uma gota gélida, mais metafísica do que liquida, percorreu a espinha dorsal de Andrade. Olívia percebeu a reação, e o sorriso maroto aumentou:
- Olha só, ‘Os Melhores Contos de Machado de Assis’, parece bom, não?
- Nem é tanto assim…
- Não é? Pois parece. – provocativa
- Só um pouquinho. Você não gostaria.
A verdade que Andrade tentava simular só deixava mais evidente ser uma mentira. Dissimulação que Olívia não engoliu, porém seus olhos femininos, astutos e ligeiros, perceberam a insistência com que Andrade olhava para o lado direito da estante. Era um olhar que o rapaz fazia a todo instante, como se vigiasse algo precioso; e se vigiava, o fazia desde que Olivia tinha se aproximado dos livros com o sorriso maroto. Esta, ardilosa, sacou estar ali provavelmente o que mais importava para Andrade. Pulou a seção de contos, e pousou seu dedo sobre os romances que estavam localizados na parte direita da estante.
- O que temos aqui… ‘O apanhador no campo de centeio’? Esse é famoso.
- É ruim, sério. Nem sei por que comprei! – desespero na voz.
- ‘Os sofrimentos do jovem Werther’. Do que que é?
- Uma história de amor que não deu certo e… – Andrade se arrepende de ter dito.
- Ah, é? Que coincidência. Parece interessante.
A cada livro indicado, Andrade não se aguentava na poltrona. Cruzava as pernas, roía as unhas, cruzava as pernas para o outro lado, roía as unhas da outra mão, voltava a roer as unhas da primeira mão, e tudo que pensava era em como convencer Olívia de deixar seus livros em paz. Mas ela não dava a entender que iria ceder. Apesar de sorrir com displicência, naquela mescla de provocação e maldade, sem esquecer do humor que só ela via na situação, Olívia estava obstinada a pegar um livro. O melhor, o que mais alvoroçasse Andrade.
Passado quase toda a seção de romances, o rapaz sabia que a hora do juízo final estava chegando. Não queria emprestar nenhum livro, pois nenhum deles – tirando o de yoga – merecia correr o risco de ser emprestado a tão revoltoso ser como era Olívia durante as brigas do casal. Todos eram filhos queridos, mas tal como são os filhos fora da metáfora, também existem aqueles livros prediletos. No caso, os livros pelos quais Andrade tinha especial afeto ainda não tinham passado pelo dedo ereto, e cada vez mais pesado, de Olívia: toda a coleção de obras de Hemingway.
Não tinha como evitar, o dedo se aproximava do escritor norte-americano; o suor escorria pelas têmporas do rapaz– agora liquido mesmo -, as pernas balançavam em tique-nervoso, as mãos coçavam a barba rala, e os olhos piscavam em descompasso. Quando o dedo de Olívia pousou em ‘O velho e o Mar’, Andrade explodiria não fosse um homem.
- Você tem um monte de livros desse fulaninho aqui.
- Esse fulaninho tem nome! – ofendido ficou Andrade.
- Oh. – Olivia entendeu ter encontrado o que procurava – ‘Paris é uma festa’. Pelo título parece ser divertido.
Com medo de se denunciar, delatar a si mesmo e a seus livros, Andrade permaneceu quieto em sua aflição.
- ‘O sol também se levanta’… Touradas na Espanha? Sabia que sou descendente de espanhóis? Acho que eu gostaria desse livro, não concorda? – um risinho vil saltou aos lábios dela.
Não tem jeito, pensou Andrade. Uma hora dessas exige sacrifício e altruísmo, completou em pensamento. Mas precisava de um pouco de sinceridade, senão Olívia não aceitaria e perceberia ser só outra artimanha.
- Hemingway era só um maníaco-depressivo suicida, além de ser um machista e mulherengo, você não gostaria. Sério. Mas se você quiser outro… – dá uma pausa, respira fundo, e fala atropelando as palavras – … se quiser tem aquele ali ó, O Grande Gatsby.
- E… é bom? – a moça ficou desconcertada diante da aparente indicação sincera.
- Eu gosto, um dos meus favoritos… – o tom de arrependimento era evidente.
- Sério?
- Sério.
A moça, que por um instante tinha deixando de lado o sorriso maroto e provocativo em troca da surpresa, quando recebeu a confirmação sobre a seriedade da opinião, e percebeu ser mesmo séria, voltou a sorrir maldosamente. Num movimento rápido, sacou da estante O Grande Gatsby. Não satisfeita, correu rapidamente o dedo indicador a fim de tirar algum outro livro de forma aleatória, assim a coletânea de contos de Edgar Allan Poe foi escolhida. Torcia para tirar a sorte grande ao escolher ao acaso, e tirara. Andrade esboçou uma reação, tentou articular um som, uma palavra, mas resignou-se; suspirou e disse:
- Cuida bem deles, tá?
- Com muito prazer. – Olivia sorria assustadoramente.
Saiu do apartamento batendo a porta com violência, foi a última vez que Andrade a viu, bem como a seus dois livros que ela levou. O orgulho de Olívia tinha sido realmente ferido.
Passado o trauma da perda – perda dos livros, não da namorada –, o rapaz retomou a sua rotina de leituras. Saciou a sede por páginas, algo que o namoro não permitia. O primeiro livro que releu foi um do Hemingway, feliz por ele ter escapado da ira de Olívia. Lamentou por aqueles que se foram, quem sabe rasgados, quem sabe queimados, quem sabe mofando num sebo qualquer ou no fundo de uma gaveta. Mas ainda assim, sentado na poltrona, releu Hemingway.
- Desculpe pelo ‘maniaco-depressivo suicida, machista e mulherengo’, tá bom? Foi coisa da hora, falei sem pensar. Foi para o teu bem, foi melhor assim. – afagou o livro, como se selasse a paz.
Sereno e tranquilo, desfrutou do prazer de cada uma das páginas, essas coisinhas que ele tanto amava.
Nas pradarias, descobriu-se que podar os arbustos ou gramíneas era tarefa igualmente difícil. A vegetação rasteira aprendeu a formar colônias e a desenvolver a capacidade de se multiplicar com tamanha velocidade, que ao se cortar um ramo outros quinze iguais surgiam logo em seguida no lugar do corte. Nas cidades, a cena era mais assustadora, com relatos de gente indo dormir com um vasinho ornamental na cozinha e acordando com a casa como uma mata fechada. E foi assim que áreas antes desertificadas, seja pela seca ou pelo concreto, em pouquíssimo tempo foram invadidas por arbustos e trepadeiras. Até mesmo o ar rarefeito dos cumes das montanhas e as temperaturas rígidas das regiões árticas não seguraram o avanço verde. A adaptação e multiplicação era quase em tempo real. Ao analisar como as plantas conseguiam alimento em ambientes hostis, verificou-se que elas passaram a absorver e metabolizar minerais de fontes das mais diversas: lixo, gelo, areia, concreto etc. Alguns concluíram que a poluição, de certa forma, nutria muito mais a nova geração de plantas, depois que analisaram aterros e lixões sendo vorazmente consumidos tal qual um prato preferido em um lauto banquete.
Outra espécie vegetal, proveniente do território chinês, optou pelo crescimento desproporcional. A planta adulta, em menos de um mês atingia a altura de um prédio de três andares. Quando era atacada por homens e máquinas, revidava deixando cair sementes e grãos de pólen gigantes capazes de destruir completamente qualquer coisa que ousasse ficar embaixo. Mas o pior tipo evolutivo apareceu na África: a versão bizarra, e melhorada, das plantas carnívoras. Na verdade, eram trepadeiras que optaram por consumir os nutrientes existentes em homens, carros, estradas, que antes eram retirados do solo. Ferro, zinco, água, potássio, entre outros, eram sugados dos que dessem o azar de estar ao alcance de algum dos seus tentáculos verdes. Estes rapidamente prendiam-se às vítimas e as arrastvam para o bulbo central, uma mistura de boca e estômago. A pressão fortíssima, junto com incontáveis tentáculos auxiliares, fizeram com que poucos sobrevivessem para contar a história. Além do que, a seiva gástrica expelida nas vítimas dentro do bulbo dissolvia metal, carne e osso como se fossem papel.
Entretanto, nem todas as espécies novas matavam humanos. Algumas aprenderam a usá-los em seu benefício. Uma planta espirradeira, do Canadá, lançava grãos de pólen do tamanho de ovos nos humanos que pregavam e não saíam de modo algum. Ficavam de tal forma grudados na pele que nem mesmo os mais habilidosos cirurgiões atreviam-se a removê-los. Alguns até tentaram, mas desistiram após obterem algumas mortes por mutilação. Somente se o humano infectado passasse próximo a uma outra planta da mesma espécie, ele se veria livre, pois a planta produzia uma gosma que descolava os ovos enquanto era fertilizada por eles. Enquanto os cientistas apelidavam os humanos infectados de abelhas, a população os chamava de aberrações.
A densidade demográfica humana reduziu-se paulatinamente de bilhões a milhões, de milhões a milhares e de milhares a centenas, e chegariam à beira da extinção, se não fosse um detalhe insignificante que as plantas não notaram, até ser tarde demais: era chegada a vez de o homem evoluir.






