6 de fevereiro de 2012

Nossas Apostas Para o Nobel – I

imagesEste diálogo é, na verdade, uma cópia de vários trechos de uma conversa travada entre mim e o Luciano R.M. A este texto, que visa traçar algumas tendências gerais do prêmio Nobel de Literatura nos últimos anos, se seguiram outros dois: um discutindo um lista com os nomes mais possíveis para este ano e outro sobre o resultado propriamente dito (que será divulgado pela Academia Sueca – provavelmente – no dia 08 de outubro).

Tiago Pinheiro: Acho que antes de fazermos as nossas apostas, deveríamos tentar explicitar as regras do jogo. Vejo muita gente reclamando dos premiados pelo Nobel, dizendo ou que são desconhecidos, que não são “os melhores escritores do mundo” e/ou reclamando do caráter político do prêmio. Ora, eu acho justamente que a graça é essa!  De fato, se enxergarmos os contextos de cada prêmio, veremos que eles foram motivados por causas específicas: a abertura do mercado chinês (Gao Xingjian – 2000), o ataque as Torre Gêmeas (V. S. Naipaul – 2001), a discussão sobre a entrada da Turquia na União Européia (Orhan Pamuk – 2006), etc. Claro, isso pode estravazar para escritores de qualidade duvidosa…

Luciano R.M.: Sim, isso é importantíssimo. O próximo passo, então, é levantar qual é o contexto atual. Tem o que você citou no artigo do Jelloun, sobre o problema dos imigrantes na Europa. O golpe em Honduras (algum latino americano?), a tensão do Irã (algum iraniano que fugiu da Revolução Islâmica?), a nova Rússia do Putin e o eterno e mais do que batido Israel x Palestina? Não me lembro de outros fatos marcantes e que poderiam ter relevância – mas tenho certeza de que existem. De qualquer forma, acho que esses são os mais visíveis.

T.G.P.: É verdade: Jelloun e Adonis são candidatos há anos, e o problema da imigração parece ser central na Europa hoje. Contudo, há cinco anos que o Nobel não premia um não-europeu, e se observarmos a lista dos últimos 10, 15 anos, eles são a imensa maioria! E, mesmo quando escolhem um autor de outras partes do mundo, esse está geralmente exilado na França ou na Inglaterra. O prêmio já foi mais diversificado geografiamente… Ano passado, inclusive, houve uma forte acusação de bairrismo na Academia Sueca por parte de alguns professores norte-americanos… Por isso, acho interessante pensar que talvez o prêmio irá se diversificar este ano. Pensar na Rússia de Putin ou na América Latina é um caminho. Para contribuir com sua lista, e para ampliar as chances desta última, devemos lembrar dos novos tipos de governantes que estão surgindo por aqui: Chávez, Morales, etc. Mesmo o Lula tem um destaque internacional diverso… Só acho difícil que seja um norte-americano…

L.R.M.: Mas essa insistência na Europa não é tão surpreendente: em 2008, Horace Engdahl, secretário permanente da academia, declarou que “a Europa ainda é o centro literário do mundo, os EUA são isolados demais, insulares demais. Eles não traduzem e não participam realmente do grande diálogo da literatura.” E o bairrismo se exacerba com a preferência pela Suécia – o país tem mais autores laureados que toda a Ásia.  Aliás, acredito que a hipótese de algum sueco não seja tão distante da realidade: apesar dessa preferência por conterrâneos, a academia fez isso pela última vez em 1974.

T. G. P.: Há um escritor sueco que vem aparecendo na lista da casa de apostas Ladbrokes há alguns anos: chama-se Tomas Tranströmer. Não conheço muito sobre a sua obra, mas parece que ele escreve poemas para serem acompanhados ao piano. Se pensarmos nessa idéia de bairrismo, acho que ele é um nome possível, ainda mais por ser poeta. Já faz muito tempo que não premiam um poeta… Desde da Szymborska, em1996… Aliás, acho que esse fator será determinante… Contudo, acho que justamente pela acusação do bairrismo, eles fugirão da Europa neste ano. Outra acusação muito forte contra a instituição é o a preferência por escritores “obscuros”, como Dario Fo e Elfriede Jelinek, principalmente durante a década de 1990 e o começo dos anos 2000. Depois disso, eles passaram a premiar figuras já consagradas, mas meio esquecidas (Harold Pinter, Doris Lessing) e mesmo alguns favoritos (Pamuk, Le Clézio)… Houve uma “guinada conservadora” nestas últimas edições do Nobel…

L.R.M.: O Tranströmer me parece um nome interessante. Li alguns poemas agora, e ele parece o tipo de autor que a Academia escolheria. São poemas rápidos e pesados. Existe uma opção que me parece neutra quanto ao bairrismo: Abraham Sutzkever. Judeu polonês que vive em Israel, sendo considerado mais um poeta israelense de idioma ídiche que um poeta polonês. O fato de ter lutado contra os alemães na Segunda Guerra é algo que em qualquer tempo pode ser usado como fator político favorável a sua escolha. Só não sei quanto ao posicionamento dele em relação à ocupação palestina: não creio que a academia escolheria alguém favorável. E, fugindo de vez do bairrismo, vamos à América Latina. A posição política do Brasil pode ser criadora de um bom momento para que recebamos o Nobel. Mas isso me parece mais um pesadelo: Paulo Coelho é o nome que me parece mais provável.

T.G.P.: Não sei, não… Ainda acho que não será um europeu. Sobre os judeus e a Guerra: não faz muito tempo, Imre Kertész foi premiado. Essa escolha foi interessante, não só porque não toca a questão da Palestina de uma forma direta, mas também porque elege um judeu que sabe que sua condição já faz parte de uma indústria do entretenimento (em “Liquidação”, há todo um jogo com o fato de Auschwitz fazer parte de um roteiro turístico; em “Kaddish por uma criança não nascida” ele lamenta profundamente a recepção – positiva! – do seu livro memorialístico, “Sem Destino”). Eu também sou bairrista: estou otimista com relação a América Latina! (-risos-) Eu realmente acho que este é momento certo… Não sejamos tão pessimistas quanto ao Brasil: apesar da piada com Paulo Coelho (piada que tem fundo verdadeiro – ele realmente foi indicado), temos um nome que entra nos quesitos da academia: Ferreira Gullar.

L.R.M.: Havia me esquecido do Gullar. Mas ele é poeta, latino-americano e eu posso imaginar uma justificativa da Academia: ‘por sua obra que deu voz a um povo que não se calou ante a opressão’. Não que eu realmente pense isso dele, mas… E, obviamente, prefiro ele ao Coelho. Enfim, eis o que me parece a tendência: um franco-africano ou latino-americano, poeta e não excessivamente popular. Ou talvez algum dos grandes favoritos (que eu não sei quais são), para seguir a tendência dos últimos anos. A Academia está cada dia mais influenciável.

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Sobre Tiago Pinheiro

Tiago Pinheiro é jornalista, academicista, panfletista, piadista de funeral, jogador de GO e entusiasta do cinema soviético revolucionário.

Comentários

  1. Anica diz:

    adorei a ideia do artigo (e o artigo em si), mandaram muito bem =]

  2. Palazo diz:

    Uauu… muito criativo a exposição das idéias, além do conteúdo! Aguardo os próximos..

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