A Vingança Literária de Tahar Ben Jelloun

Publicado por Tiago Pinheiro em setembro - 13 - 2009

tahar_ben_jelloun“Não comecei escrevendo poemas de amor”. Essa afirmação soa ousada – ou, no mínimo, corajosa –, tanto mais quando vinda de um escritor que pertence a uma tradição tão jasmínea como a árabe. Contudo, para Tahar Ben Jelloun, não há tempo para sentimentos melífluos. É preciso antes enterrar os mortos.

Nascido em 1944, Tahar Ben Jelloun presenciou boa parte da história colonial de seu país, dividido entre França e Espanha, sendo ponto de encontro para os Aliados na II Guerra Mundial. Independência conquistada em 1956, o Marrocos ainda passa por um difícil processo agonizante, sendo que parte de sua população prefere deixá-lo, para viver outras misérias, só que desta vez na Europa. O próprio Jelloun está exilado desde 1971 na França, onde detém a cátedra de Psicologia Social, além de escrever artigos para o Le Monde.

Descreve, porém, as condições dos imigrantes como neste poema em prosa:

“Ele chegou a Marselha dentro de uma caixa de laranjas (…) Trazia consigo sua fortuna: algumas notas de cem francos, um anel de prata, um relógio de pulso, uma foto de seus filhos, uma reserva de coragem e de clandestinidade, um fogo na garganta, uma memória cansada, uma bala incrustada na perna direita em princípios de 54 e que lhe valera o título de resistente, além de uma dolorosa solidão”.

O sofrimento de seu país – patrie qui n’a plus de visage [a pátria que não tem mais rosto] à qual o poeta se refere constantemente – concentra-se em sua derrocada ao esquecimento, tornando seu passado de prosperidade cada vez mais lendário. Em Fès – Trente poèmes, Tahar Ben Jelloun foca toda essa frustração em sua cidade natal, que por séculos foi uma  das cinco Capitais-imperiais marroquinas.

Fundada no ano 789, Fez é considerada patrimônio histórico pela Unesco, devido a suas mesquitas e palácios. Nela, contudo, o poeta vê um símbolo de nostalgia – não da sua infância, mas sim da de todo o seu povo. Compara-a amiúde às cidades perdidas na eternidade como Petra e Babilônia, além de Veneza que, como Fez, submerge…

Não bastasse escrever sobre os países e povos esquecidos, Tahar Ben Jelloun apóia a construção daqueles que permanecem inexistentes: é ferrenho defensor da causa Palestina. Em “Les amandiers sont morts de leurs blessures”, lemos a missiva de um pai que se dirige ao filho do qual a sorte desconhece. Anuncia a desgraça de seus conterrâneos, lamentando a vinda de estrangeiros que maldizem suas casas e ridicularizam suas amendoeiras. Descreve a entrada de tanques, que fincam seus dentes amarelados na terra, e riem-se enquanto destroem pequenas e inofensivas flores. Seria um sofrimento anônimo e meramente simbólico, se a realidade não se imiscuísse sutilmente na narrativa. Em certo momento, o pai-remetente escreve: “Disseram-nos que sobre essa terra se elevará uma cidade, uma cidade moderna. Ela terá belas avenidas, ônibus e carros. Ela irá até o Mediterrâneo e se chamará Yamit”. À mera citação de um nome, o poema ganha nova amplitude. Eis que aqui se revela a principal técnica do autor. Povoado israelense estabelecido em 1967 na Península do Sinai, Yamit foi palco de uma controvérsia diplomática que dura até hoje.

O Tratado de Paz de1982 estabeleceu que parte das terras conquistadas na Guerra dos Seis Dias por Israel seria devolvida ao Egito. Em contrapartida, o Egito aceitou pagar US$ 80 milhões pelas casas e pela infra-estrutura de Yamit. No último minuto, contudo, o Primeiro-Ministro israelense, Menachem Begin – sob a influência do então Ministro da Defesa Ariel Sharon – recuou, ordenando que o assentamento fosse destruído. Segundo o embaixador de Israel no Egito, Moshe Sasson, a decisão foi tomada para evitar possíveis confrontos entre os ex-habitantes da região e os egípcios regressados.

À falta da epifania romanesca, o poeta procurou seu pathos na revelação. Não aquela de natureza profética, mas sim inquiridora, no qual figuram o assassinato, a miséria e a doença, com a comiseração de profetas-mendigos, deidades órfãs e Alcorões invertidos. Dispensa a rima, a métrica e o ritmo. Apega-se a um ocorrido. Não raro, seus poemas têm como título nomes e datas, que pouco mais significam do que a lembrança do acontecimento, desvelando um mundo que oferece suficiente crueldade para que não seja preciso inventá-la. Dessa forma, Jelloun descreve o purgatório de Fatima Abou Mayyala: “Eles entraram pelo teto/ fecharam as portas e janelas/ enfiaram um punhado de areia na boca e nas narinas/ de Fatima./ Suas mãos rasgaram o ventre dela/ o sangue estava retido/ eles urinaram sobre seu rosto./ Fatima tomou a mão da estátua/ e andou lépida entre as árvores e as crianças adormecidas./ Ela atingiu o mar/ o corpo erguido acima da morte”.

Eis que a bestialidade do mundo não é a única filigrana que se imprime nesses versos. Jelloun possui um trunfo a mais que coopera em sua causa.

Dentro do cânone literário existem certas obras que rompem as limitações impostas pela linguagem escrita, tornando-se parte do imaginário humano. Assim são Romeu e Julieta, Dom Quixote e a Bíblia. Ainda nessa classe, encontra-se uma obra de caráter peculiar: O Livro das mil e uma noites. Milenares, esses contos noturnos já eram lidos no século VII, porém os mais antigos manuscritos que chegaram aos nossos dias datam do século XIII. Foram nesses últimos que André Galland se baseou para vertê-lo pela primeira vez em um idioma ocidental, em 1786. Porém, como assinala Jorge Luis Borges em um notório ensaio sobre As mil e uma noites e seus tradutores, “palavra por palavra, a versão de Galland é a mais mal escrita de todas, a mais mentirosa e mais fraca, mas foi a mais bem lida”.  De fato, seus descendentes são visíveis nas obras de Edgar Allan Poe, em Stendhal, em Machado de Assis, entre muitos outros. Galland, que tornou as noites árabes pueris, frugais, quase moralizantes, é ainda hoje o seu tradutor mais conhecido. Tornou lendário o erotismo contido nessas histórias justamente por excluí-lo de sua edição. Enfim, criou uma Arábia de fantasias, irreal.

É disso que Tahar Ben Jelloun se aproveita. Em seus poemas, persistem essas Mil e uma noites ingênuas.  Dá aos ocidentais todas as características que esperam de seus poemas: a repetição e a “espontaneidade” que confere uma aura de oralidade aos versos, usa o exotismo, enfeita-os com pássaros ébrios, com gazelas ladinas, com danças de espelhos – elementos que figuram nas narrativas de Sherazade. Contudo, não aquela que protagoniza Quitab alif laila ua laila, mas sim a de Les mille et une nuits.

Fato é que As noites não é uma obra de grande estima entre os arabistas, que dão muito mais valor a poetas do século VI como Abu Nowas e Abu Tammom, notáveis pela métrica rigorosa, pelo aspecto intraduzível de certas sutilizas lingüísticas. Esse outro cânone, secreto, intransponível – e, provavelmente, maravilhoso – está além de nosso alcance.

Por certo, isso confere um justificável orgulho ao povo árabe. Tahar Ben Jelloun o sabe muito bem. Assim, não se preocupa: usa inclusive da língua francesa. Dá-nos aquilo que queremos, aquilo que já confortavelmente esperávamos. Porém, adiciona a essas fantásticas fábulas um elemento a mais, uma espécie de moratória, de vingança literária: o sabor amargo da realidade.  Como ele mesmo escreve em seus poemas, sua obra é “un livre ouvert pour les enfants qui ont peur” [um livro aberto pelas crianças que têm medo].

Em tempo: Tahar Ben Jelloun tem sido cogitado para receber o Nobel de Literatura faz algum tempo, sendo um dos favoritos na lista de aposta da Landbrokes. Como há anos a Academia Sueca não premia um poeta, e o problema da imigração na Europa, em especial na França de Sarkozy, tem tomado proporções cada maiores, Jelloun e Adonis (outro poeta francófono de origem árabe) tem sua chances aumentadas a cada ano.

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