O expresso Terra do Nunca-País das Maravilhas-Pepperland

Publicado por Luciano R. M. em agosto - 23 - 2009

Captain Hook‘Uma espécie de Sherlock Holmes infantil com “a inteligência de um rapaz de 18 anos, ou um homem de 40 ou um sábio de 300, não necessariamente nessa ordem!!!’”
É assim que Peter Hook, seu criador, define Jim Young- um menino de 6 anos de idade que descobre, nó sótão de sua casa em Londres, a cronocicleta: uma máquina do tempo em forma de bicicleta construída por Maximiliam Max. Com ela, Young persegue Cagliostro Nostradamus Smith, o gênio do mal e ex-sócio de Maximiliam Max que, querendo a bicicleta especial de seu ex-sócio e enlouquecido por seu sobrenome infinitamente comum, sequestrou Raven e Lucy, respectivamente mãe e irmã do herói.
Em um dos primeiros livros da série, Jim Young and the Wonderland-Neverland-Pepperland Express, descobrimos que Cagliostro é doentiamente apaixonado por Alice Liddell, a inspiradora da Alice de Carroll. Ela, é claro, apaixona-se por Jim. E morre: acuada pelo vilão atira-se em um poço que acredita ser uma passagem para outra dimensão, porém é apenas um poço bastante fundo.
E foi assim que Peter Hook- filho do lendário e aristocrático Sebastian Djaardeling Compton-Lowe, compositor e vocalista da banda dos anos 60 ‘The Beaten Victorians’ ou ‘The Beaten’ ou, ainda, ‘the Victorians’- sagrou-se como autor de livros infantis.
Hook nasceu na psicodélica Londres dos ’swinging sixties’ e teve uma infância traumática, o que talvez explique seu apaixonado e cáustico pensamento sobre a infância. Seus pais foram um tanto quanto negligentes, ao mesmo tempo em que endeusavam seu irmão Baco- morto aos três anos, quando brincava dom Peter e caiu da janela, no exato dia em que chegava às lojas o ‘Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band’, dos Beatles- alvos ignorantes das juras de ódio de Compton-Lowe. E foi esse ódio que fez com que Hook se torna-se órfão: pouco depois da morte de seu irmão seus pais, quase enlouquecidos, decidiram ir à Índia antes do quarteto de Liverpool. Naufragaram, entretanto, no caminho, e Sebastian morreu. Sua esposa, Lady Alexandra Swinton-Menzies, afogou-se em uma piscina assim que recuperou-se do acidente que lhe tirou o marido.
A força que isso tudo exerceu sobre Hook pode ser o motivo de Jim Young ser incapaz de crescer: viajar no tempo vicia, aumenta sua inteligência e congela seu envelhecimento e emoções.
Mas, apesar desse matiz sombrio, a série ainda é um sucesso entre as crianças; inclusive está prestes a tornar-se um filme, protagonizado pelo jovem e promissor ator sino-americano Keiko Kai. Também as repercusões da obra são grandes (e polêmica): tão ou mais trágico quanto o jovem americano que se suicidou ao descobrir o final do último filme da série Harry Potter antes da estréia, crianças e pré-adolescentes formam gangues que atacam pais e professores para que estes desistam de fazê-los crescer.
Nada disso, entretanto, é real. Tudo que eu escrevi aqui sobre Peter Hook, Jim Young e Keiko Kai é parte do romance ‘Os Jardins de Kensington’, do argentino Rodrigo Fresán que, além disso tudo, narra- de modo um tanto intimista e pessimista- a vida de J. M. Barrie, o criador de Peter Pan.
Fresán, jornalista e escritor buenairense nascido em 1963, iniciou sua carreira em 1984, escrevendo sobre literatura, música, cultura e gastronomia em jornais de sua cidade natal. Em 1991 publicou seu primeiro livro, ‘História Argentina’, um volume de contos que foi best-seller em seu país e lhe rendeu críticas elogiosas. Seguiram-se a este debut ‘Vida de Santos’ (1993) e ‘Trabajos Manuales’ (1994), ambos de contos. Em 1995 publicou ‘Esperanto’, seu primeiro romance. Em 1998 publica ‘La Velocidad de las Cosas’- um meio termo entre conto e romance- e no ano seguinte se muda para Barcelona, onde publica ‘Mantra’ (2001) e ‘Jardins de Kensington’ (2003). Fresán diz que apenas publica seus livros, apenas os termina: em setembro próximo lançará uma edição ampliada de ‘História Argentina’ e, um mês depois, seu novo romance ‘El fundo del cielo’. Atualmente, além de escrever para o jornal argentino Página/12, se dedica a traduzir a obra de John Cheever e trabalha em duas novas novelas, ‘Pop’ e ‘Tsunami’.
O suplemento literário do The Times o definiou como ‘um Borges pop’. Mas essa alcunha é inexata, Fresán é muito mais que uma versão warholizada de seu mítico conterrâneo. Junto com escritores como Bellatin e Bolaño, ele mostra que a literatura latino-americana sobreviveu de forma louvável ao realismo mágico.
Bolaño, aliás, foi amigo pessoal de Fresán, e compartilharam idéias: tanto o chileno quanto o argentino mostram um paradoxal- Bolaño ganhava concursos literários para sustentar seus filhos, e Fresán teve todos seus livros na lista dos mais vendidos de seu país- desalento com a literatura- e, porque não, com a cultura- dos dias atuais.
Existem figuras recorrentes em seus textos como a mulher da piscina, o escritor moribundo e/ou enlouquecido pela solidão do ato de escrever, o assassino serial Petit Prince e as várias cidades de Sad Songs (ou Canciones Tristes). Essas alegorias bizarras juntam-se à literatura de horror e à ficção-científica para construir um universo eminentemente apocalíptico e vertiginosamente veloz- nada mais que um espelho minimamente distorcido de nosso tempo.

DISCUTA O ARTIGO NO FORUM DO MEIA PALAVRA

Blog Widget by LinkWithin

Comente

About Me

O Meia Palavra nasceu ao contrário: surgiu como um fórum, um espaço novo para discutir literatura entre amigos, e do fórum saiu a idéia de montar um blog para todas as pessoas que se interessam por literatura sem preconceitos e sempre de bom humor. O blog tem áreas também sobre música, cinema e quadrinhos, e o que mais for arte e interessante, e está aberto a colaborações. As atualizações regulares fazem com que sempre tenha alguma coisa nova, portanto, não deixe de conferir! A Equipe dá boas vindas e manda sentirem-se a vontade, mas avisa que quem quiser água vai ter que buscar lá na geladeira.

Twitter

    Photos