Em uma das cenas de Waking Life, filme dirigido e escrito por Richard Linklater, um homem sendo entrevistado por outro diz que a diferença entre o cinema e a literatura é que esta serve para contar histórias, e a função do cinema é capturar momentos, “momentos sagrados” como ele os chama. Waking Life é justamente isso. Não há uma história, um enredo, assim por se dizer, o que se desenrola na tela são momentos.
O filme é na verdade o sonho do personagem principal. Um sonho lúcido, no qual ele tem noção de que está sonhando mas não consegue acordar. No seu sonho ele conversa com as mais diversas personagens, ou assiste à conversa de outros. O filme são 90 minutos de sequências (aparentemente) desconexas de diálogos, nenhum deles trivial. É um verdadeiro desfile de idéias, sobre política, filosofia, reencarnação, a evolução das espécies, o tempo e o espaço e a natureza dos sonhos.
Longe de ser “acadêmico”, Waking Life é uma das experiências mais agradáveis que se pode tirar de um filme. Com tal naturalidade e pungência foram escritos os diálogos (os atores ajudaram a escrever suas próprias palavras) que é impossível não nos deixar-nos levar por eles, como se estivéssemos inseridos na conversa, e não somente acompanhando um roteiro.
Ao final do filme, numa das melhores cenas, um personagem conversa com o protagonista sobre o autor Philip K. Dick (Blade Runner, Minority Report, dentre outros). O que me leva a uma outra pérola desse que é um dos melhores diretores norte-americanos: O homem duplo.
O homem duplo, também dirigido e escrito por Linklater, baseado em um livro de Philip K. Dick, tem muito pouco a ver com as outras adaptações de obras do autor americano para o cinema. Certamente passa longe dos descerebrados como O pagamento final, e também não é uma ficção-científica visionária à la Blade Runner ou Minority Report. O homem duplo é um filme com uma abordagem mais intimista, e que usa do futuro para criar uma aura de paranóia extrema em torno do assunto principal: as drogas.
Tendo como centro da trama o detetive disfarçado Fred (Keanu Reeves), e sua segunda identidade, Bob, o filme bem que poderia ser um bom policial, mas Linklater escolhe por fazer diferente. A premissa surge como um paralelo à atmosfera de desconfiança em que vivem os usuários crônicos da Substância D (a droga da vez no futuro), representados aqui por Fred/Bob, sua namorada Donna (Winona Ryder) e seus amigos, Jim e Ernie (Robert Downey Jr. e Woody Harrelson). O maior feito do filme, é que, ainda que use dos efeitos oníricos da rotoscopia (a roupa-camaleão usada por Fred é uma atração à parte), há uma sensação de constante realismo e, principalmente, simpatia pelos personagens, providenciada pelos ótimos diálogos (marca registrada dos filmes de Linklater) e pelas divertidas interpretações, em especial a de Downey Jr. Ainda que o filme denuncie o abuso das drogas, seus personagens nunca são julgados, até porque a história é contada do ponto de vista deles, o que torna difícil saber separar o real do imaginário
Ambos os filmes são um verdadeiro espetáculo aúdio-visual e passam longe de uma experiência cinematográfica tradicinal. Além das excelentes trilhas sonoras, para fazer jus às histórias e aos diálogos inspirados, Linklater veste seus filmes como uma verdadeira experiência induzida por narcóticos ou como um sonho desperto. Sensações produzidas pelo uso da rotoscopia, em que ele filma com atores reais para depois criar animações por cima da película, rendendo a ambos os filmes um aspecto surreal e onírico que seria impossível de se reproduzir de outra forma. Em ambos os filmes você encontrará bastante para remoer na cabeça durante e depois.
Sobre o autor: Wilson Costa é o Wilson lá no Meia Palavra. Você pode ler mais textos dele no blog o lobo antes da porta.
COMENTE ESSE ARTIGO NO FÓRUM MEIA PALAVRA















