A relação entre a literatura e a morte está presente… bom… desde sempre – ainda que essa morte hoje esteja mais subentendida como seu oposto: a imortalidade. Contudo, deveríamos retornar a Kafka e lembrar de Odradek (Preocupações de um Pai de Família), esse ser bizarro, absolutamente próximo do inanimado, mas que vive – aliás, que certamente sobreviverá a nós! Assim é o texto literário: um pequeno ser estranho que estará lá para enterrar-nos, para além de todo o conforto que se possa ter quando as colunas de jornais intitulam os escritores como imortais (quando são os próprios autores que fazem isso, funda-se uma academia).
Mas se fala pouco sobre a relação entre a literatura e a peste. Talvez porque a peste não confira glória [kleos] (Aquiles pode e deve morrer na guerra. Sequer podemos imaginá-lo doente). Ela não tem fim, finalidade [telos] (não confere um sentido maior para a existência). E, talvez, sequer cause piedade ou sentimentos [pathos] (a tragédia é de Édipo, não dos mortos pela praga da esfinge). A peste apenas corrompe a própria vida, retira-lhe a quietude, pondo-nos não na Morte (porque então a agonia estaria resolvida), mas frente a ela, sob a sua ameaça, causando-nos pânico. Essa é uma relação mais próxima daquela entre escritor e literatura, entre leitor e leitura. E, de uma forma bem menos produtiva, entre nós e a nossa atual peste, etiquetada H1N1.
A literatura aqui (mas nem sempre) vai em direção contrária ao procedimento oficial. Não nos dará ares de conforto, mas agirá como mera expansão infinita da paranóia.
É só lembrar do Decamerão de Boccaccio (1313-1375): as cem histórias só são contadas para que seus narradores esqueçam a terrível Peste Negra, que alcança a todos fora do castelo. Ironicamente, nenhuma das narrativas é mais viva do que a descrição dos efeitos da doença, que o autor faz a maior questão de pôr à frente, no início do seu livro (nesse sentido, todos os outros contos são apenas sombras saudáveis de homens doentes).
Continuando em linha histórica (das histórias, não dos escritores), nossa terrível ânsia higiênica, cujo símbolo maior é o álcool em gel, nos faz pensar no médico húngaro Semmelweis, que foi tema da tese de doutorado do escritor francês Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Seu nome ficou ilustre por ter sido o primeiro a sugerir que os doutores lavassem as mãos antes de examinar o paciente. Tal inovação na profilaxia médica fez com que seus colegas o tomassem por louco, fazendo com que Semmelweis tivesse que deixar o hospital onde trabalhava e sair de Veneza. Se, por um lado, hoje podemos saudar Semmelweis como o precursor moderno de um hábito simples que evita diversas doenças, podemos, por outro, entender o interesse de Céline por um personagem como esse, tendo em vista seus panfletos “purificadores”, anti-semitas, que escreveu nos anos 1930-40…
Dos mais recentes, há aquele perturbador ensaio “Literatura + Enfermedad = Enfermedad”, do chileno Roberto Bolaño (1953-2003). Um dos seus últimos textos, quando já sabia que seus problemas hepáticos o venceriam, descreve de forma alucinógena os corredores dos hospitais que freqüentava, ao mesmo tempo em que busca o significado de dois poemas, um de Mallarmé, outro de Baudelaire. A síntese dessa leitura pode ser vista no próprio título: no acerto de contas com a doença, a literatura tem valor zero, não pode (talvez nem queira) modificá-la.
Dos sobreviventes, resta o mexicano Mario Bellatin, e o seu Salão de Beleza. Aqui vemos um cabeleireiro, com seus grandes aquários cheios de peixes ornamentais, tornar-se, pouco a pouco, um morredouro, devido ao surgimento de uma doença desconhecida. O responsável pelo “comércio” também vai eliminando os peixes, fazendo-os agonizar em águas que vão se tornando cada vez mais escuras. O livro possui várias alusões à AIDS e ao tipo de tratamento dispensado aos então “grupos de risco”, marcando profundamente essa época auto-intitulada “livre e igualitária”…
Para não dizer que não mencionei casos locais, basta ler os poemas de Augusto dos Anjos, autor capaz de rimar toda a sorte de doenças possíveis ou de escrever um soneto a um gérmen…
Poderia ainda falar sobre Diário do Ano da Peste, de Daniel Defoe; sobre o ensaio em que Montaigne mostra seu desprezo pelos médicos; sobre o Doente Imaginário, de Molière; sobre A Peste / Estado de Sítio, do Albert Camus; sobre “Sarapalha”, de Guimarães Rosa; sobre Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago; etc. Como se pode ver, a bibliografia é longa (a agonia é lenta…).
Deixamos aquele livro de Gabriel Garcia Márquez (que inspirou o título deste texto) de fora, para tempos de ares mais frescos e ensolarados…
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