A velha nova lição

junho 25, 2009 – 9:06 am
Por Amelie

pauschSempre que passava por uma livraria, a capa me chamava atenção. Um livro de presente, com desenhos de criança, como um foguete escrito a giz. O título não me agradava muito – A lição final, nome típico de obras de auto-ajuda das quais costumo passar longe. Dias, meses e aquele livro continuou a intrigar-me. O que deveria ser, enfim uma lição final? A velha frase “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã?” Ou será que Randy Pausch tinha algo de novo a contar?

O título passava a integrar às listas de mais vendidos e a minha curiosidade ainda mais atiçada. Ao receber um e-mail informando que o livro estava na promoção, resolvi que era a hora de descobrir. O pacote chegou em minha casa. A capa dura ainda era mais bonita que na minha lembrança. Um diário, pensei. Finalmente a última lição. E já nas primeiras páginas ele revela: está morrendo, em decorrência de um câncer. Ihhh, começara os primeiros arrependimentos de ter aberto o livro.

Sou meio avessa a exposição, assim, cheia de sentimentalismos, escancarada para o mundo. Porque a morte, ao meu ver, é um momento íntimo, o fim de um ciclo particular que se banaliza se colocado dessa maneira. Livro para a estante, na prateleira dos “deixar para mais tarde, talvez para nunca mais.”

Foi quando um conhecido, com mais ou menos a minha idade, cerca de 25 anos, contou que está com um tumor. Ao ser questionado se gostaria de privacidade sobre o assunto ele disse categoricamente que não: que saber a tempo sobre a doença lhe abriu os olhos, e assim pode ser salvo a tempo. A informação é a arma que poupou-lhe de perder a vida, e assim tive que voltar a leitura.

Para começo de conversa, o testemunho de um homem a beira da morte é algo que deve ser respeitado. Randy Pausch foi estimulado a fazer uma palestra de despedida para alunos da universidade de Carnegie Mellon, aonde lecionava Ciências da Computação. Poderia falar sobre a efemeridade da vida, o rápido passar do tempo, mas o tema que escolheu são os sonhos da infância. Como conseguiu realizar os próprios, ou ajudou amigos e estudantes a conseguirem os seus.

O livro demorou 53 dias para ser escrito, foi ditado pelo telefone para o jornalista Jeffrey Zaslow. É baseado no que foi dito na palestra, ministrada em setembro de 2007. A edição virou sensação, chegando à marca dos mais vendidos por semanas consecutivas. Assim como o vídeo da palestra, que está disponível 100% no Youtube, duração de quase 1’20”.

Um ano antes, Pausch descobriu que tinha uma doença incurável: câncer no pâncreas. Ao contrário da maioria das pessoas, não se lamentou… Quis viver o que lhe restava, sem culpas, aproveitando o máximo de tempo com a esposa Jai e os três filhos pequenos: Dylan, Logan e Chloe. É para eles que deixa a lição final. Para que possam lembrar dos feitos do pai, e trilhar seus próprios caminhos.

A palestra fala do que foi possível realizar: ficar à gravidade zero, se trabalhar na Walt Disney Co, escrever um artigo para uma enciclopédia e outras façanhas que conseguiu depois de grande. Os próprios estudantes que passaram pela academia também entraram no embalo de Rausch: “Qual é seu sonho?” e assim era possível realizá-los.

O otimismo e o bom-humor também foram opções escolhidas pelo palestrante, como forma de manter a sanidade durante o processo de decadência física. O professor PhD em computação e sorrisos morreu quase um ano depois.

No dia 25 de julho de 2008, não resistiu à doença. Mas deixou para os filhos uma herança mais do que especial, um livro, com os sonhos que desejou para eles. Também descreveu suas lembranças dos dias mais marcantes de cada um, que o mundo poder confirmar, amor de um pai que deixa, mas não permite cair no esquecimento.

Vale a pena folhear, se estiver com tempo. Agora já está nas prateleiras de promoções. Classificado como auto-ajuda (com toda razão!), mas com o mérito de tocar o coração de muita gente que nunca o conheceu pessoalmente.

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