Sidarta

junho 9, 2009 – 9:43 am
Por Pips

herman_hesse_siddhartha1112Hermann Hesse, laureado com o prêmio Nobel de Literatura em 1946, viajou à Índia na década de 1920 procurando iluminação, um direcionamento diferente do militarismo alemão na Primeira Guerra Mundial. Dessa busca saiu Sidarta, baseado na tradição de Siddhartha Gautama, o Buda, um romance sobre questionamentos existencialistas através da busca pela plenitude espiritual (considerado por muitos, parte de uma trilogia escondida entre Demian, Sidarta e O Lobo da Estepe).

Sidarta é filho prestigioso da religião Brâmane1 que vive uma infância e juventude longe de qualquer contato com o mundo exterior. Dotado de calma inegável tinha sede pelo saber, até que um dia resolve saciar sua vontade de separar-se do seu eu e conhecer o mundo através de uma peregrinação com nômades conhecidos como samanas. Abdicando sua vida de luxos e acompanhado pelo seu amigo de infância Govinda.

Todavia, mesmo conhecendo Buda no meio do caminho, onde desiste da peregrinação após três anos, o jovem brâmane admira, mas não quer seguir os ensinamentos, pois considera a paz do santo algo pessoal e intransferível; a felicidade e a paz, em sua visão, é empírica.

Em sua jornada Sidarta flerta, descobre e se inicia nos prazeres do sexo e da vida de comerciante. Nessa virada na segunda parte do livro, ocorre a parte existencial da obra, antes de alcançar o ápice espiritual, é preciso sossegar a consciência, os fantasmas inconscientes da mente (lembrando que em sua obra Demian, Hesse usa como base Jung e Nietzsche) que atormentam devido a essa “venda” ao mundo dos homens tolos.

Ainda sem a plenitude esperada, entre os intensos prazeres e as privações, sua busca insaciável só pode ser concretizada quando não era mais seu desejo encontrar, alcançando a sabedoria e o autoconhecimento.

As palavras deturpam sempre o sentido arcano. Todas as coisas alteram-se logo que lhes pronunciamos o nome. Então se tornam levemente falsas e ridículas… Pois é.

Ao ler este romance é preciso transcorrer as páginas sem qualquer procura por uma razão ou uma entrelinha, os acontecimentos precisam ser aceitos, e não questionados (o que em diversos momentos é quase impossível não questionar as atitudes do jovem) para, contemplar-se a beleza que o próprio personagem encontra.

Por isso Sidarta é uma narrativa simples que derruba o leitor com sua história espiritual descomunal e colossal. A batalha entre o eu e o espírito está como homem e a natureza em O Velho e o Mar, não é a toa que essa obra tornou-se livro de cabeceira de hippies e beatniks como protesto contra o American Way of life.

HESSE, Hermann. Sidarta. São Paulo: Folha de São Paulo, 2003. 124 págs. Preço sugerido: R$ 11,90.

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  1. Brâmane é um membro da casta sacerdotal hindu. A palavra não deve ser confundida com o deus Brahma ou Brahman, embora o termo brâmane signifique literalmente “aquele que realizou / tenta realizar Brahman – a divindade”. Segundo o Purusha Sukta, canto à glória deVishnu, os brâmanes surgiram da boca do purusha. []
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3 comentários


  1. Clara em  13 jun 2009 às 7:38 pm, disse:

    Há muito tempo li Demian e O Lobo da Estepe, este artigo me fez concluir que devo ler Sidarta e reler os dois primeiros.

    [Responder]

    Pips Responder:

    Clara, esse negócio da trilogia é meio que dedução, porque não existe ligação entre os livros. Chamam de trilogia, porque cada livro representa uma fase da vida: infância (Sidarta), juventude e maturidade (Demian), e velhice (O Lobo da Estepe).

    [Responder]


  2. Meia Palavra » Blog Archive » Demian em  29 jun 2009 às 1:39 pm, disse:

    [...] constitui, de acordo com muitos, numa trilogia que acompanha três fases da vida de um ser humano: Sidarta como a busca espiritual (ou a infância), O Lobo da Estepe como o confronto da velhice e Demian [...]



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