Constante (2º lugar – I Concurso de Contos Meia Palavra)

Publicado por Colaborador Meia Palavra em abril - 22 - 2009

meiatwitterNessa quarta-feira, dia 22 de Abril (“descobrimento” do Brasil), o blog Meia Palavra publica o terceiro conto a ficar com o 2º lugar no I Concurso de Contos Meia Palavra, organizado pela Anica, administradora do fórum e do blog Meia Palavra. Os contos foram escolhidos através de uma votação entre os usuários do fórum.

A seguir fiquem com Constante escrito pelo Tauil

Naquela manhã parada de domingo, passava de cômodo em cômodo para ver se não havia deixado nada para trás. Estava se mudando para um pequeno apartamento no centro e deixar a casa onde crescera não era fácil. Era um casarão antigo de um bairro nobre, crivado de lembranças. Se aguçasse a audição, talvez fosse capaz de ouvir seu primeiro choro ainda ecoando pelo corredor que ligava uma saleta ao quarto dos pais. Era ali, naquele corredor, onde as assombrações o esperavam adormecer. Furtivo, teria de atravessá-lo pé ante pé, nem tão rápido para não ranger a madeira do chão e nem tão lento pra não cair nas mãos do monstro. Aí sim poderia enfiar-se nas cobertas da mãe. O pai, é verdade, nunca gostou. Dizia que o garoto tinha que aprender a enfrentar seus medos sozinho, provavelmente por nunca ter tido uma mãe que o acolhesse. No jardim ainda permanecia intacta a casinha do seu velho amigo Sombra, um vira-lata destruidor de flores que, por não contentar-se somente com as tulipas do seu jardim, havia sido envenenado por algum vizinho que já não morava mais ali. Na mureta azul, ainda se via a silhueta de Isabela, tímida, resistente ao primeiro beijo, recusando o buquê de tulipas amassadas. Em seu quarto, um papel de parede o transportava para o espaço. Na sala vasta, sob um tapete grosso estava o grande piano de cauda onde passava as tardes de sexta-feira tomando lições com Dona Otilha. Não havia aposento que não lhe remetesse nostalgia.

A buzina do carro despertou-lhe à realidade. Estavam com pressa. Caminhou o olhar pela estante de livros, tentando reconhecer os seus. Precisava empacotá-los no papelão porque agora iriam enfeitar uma nova sala, seriam folheados por novas crianças – um filho que estava por vir -, talvez um servisse de apoio para uma nova mesa bamba, enfim, pertenceriam a uma nova família que estava sendo constituída, assim como fez seu pai. Precisava desprender-se do abrigo materno. Mas não tardou a constatar que é impossível retirar um livro da estante e depositá-lo na caixa sem antes tirar-lhe o pó, mirar suas páginas, ver as anotações no rodapé, tentar lembrar onde e quando fora lido, e a cada exemplar que tocava, mais uma lembrança o envolvia. Passaria ali o resto do dia, preso ao passado, não fosse mais uma buzinada. Rapidamente encheu suas caixas sem remorso, pois sabia que também era inevitável esse processo na hora de colocá-los nas novas estantes, e ao fechar a última caixa notou que as prateleiras estavam praticamente vazias. Quase nada era de sua mãe e menos ainda herdara de seu pai. Com dificuldade, empilhou as quatro caixas no braço e desceu as escadas. Na pressa, não atinou que havia esquecido de vedá-las. Já na rua, depositou¬-as empilhadas na camionete e, olhando assim de frente o casarão, entrou no carro. Mal bateu a porta e sua esposa arrancou, indagando o porquê de ter demorado tanto sabendo que estava com pressa. Não respondeu. Seguiram para a avenida, e numa curva estreita, em função da velocidade, as caixas despencaram. Não mais alinhadas, os livros se espalharam pela caçamba, e um deles, por ocupar o topo, caiu para fora. Rodopiou três vezes e foi pousar na calçada. Ele quis parar para ver se estavam todos os livros ali, mas foi censurado pela esposa, e assim a camionete sumiu no horizonte. Caiu a noite e o livro permaneceu ali, enfiado em uns sacos de lixo amontoados na esquina.

Alguns dias depois, uma capa cor de mostarda um pouco suja e úmida destacava-se no meio de tanto negro. O mendigo, com pressa, despontou na outra esquina correndo em direção ao lixo: precisava ver se algo lhe servia antes que o caminhão da prefeitura passasse recolhendo a sujeira. Seu cão vinha atrás, manco, na velocidade que podia. Provavelmente havia brigado com outros cães de rua, pois sua perna inferior esquerda estava manchada de sangue seco e algumas moscas deliciavam-se na ferida exposta. O mendigo debruçou-se sobre o lixo apoiando-se na placa da esquina, e com a mão que lhe restara abria os sacos com violência. Restos de comida para o cão, um caixote de maçãs argentinas que lhe serviria de apoio, uma luminária quebrada e um brinquedo roto que poderia barganhar com os homens do mercado, uma escova de dentes totalmente gasta e, para seu completo espanto, um livro. Em todos os seus anos de esmiuçador de lixo nunca havia visto um livro assim, jogado ao relento. Que tipo de alma abandonaria um livro desse modo? Resolveu não questionar e depositou-o na sacola. De madrugada, com a parca luminosidade de um poste, deu uma olhada na disposição das letras, na formação das frases, tocou o título do livro em relevo, desfez algumas orelhas e cheirou-o enfim, mas talvez não fosse o cheiro de carne podre que esperava sentir. Fechou o livro com força e, no dia seguinte, trocou-o no mercado da cidade, junto com o brinquedo e a luminária, por um litro de cachaça.

O livro, posto na banca do mercado, tardou a vender. Era uma boa edição de um bom romance, mas talvez os possíveis clientes não gostassem do cheiro de lixo que exalava. Uma senhora, contra a vontade da filha, resolveu comprá-lo. Deixou alguns dias no sol, para que o cheiro saísse, e então pôde ter o prazer de ler o romance com calma, em seu ritmo. E em um mês inteiro a velhinha ocupou-se com ele, não que fosse grosso, mas ela gostava de atentar para detalhes. E por mais dois meses ele ficou parado, entre outros volumes, num móvel colonial, até que a velha sofresse um ataque cardíaco e os filhos doassem suas leituras. Em outra caixa, similar à primeira, o livro furta-cor agora era transportado para uma creche, onde nenhuma criança tinha maturidade suficiente para entendê-lo, e mesmo assim um jovem careca rebelde, sem esperanças de conseguir um novo lar, resolveu furtá-lo e metê-lo em sua sacola improvisada para uma fuga. E levou consigo a sacola, debaixo do braço, enrolada em um cobertor, alguma comida enlatada e outros itens que não convêm a ninguém. Enfim, livre, pôde deitar-se em um canto por sua própria conta, e só foi questionar se essa sua suposta liberdade realmente valia a pena nas altas da madrugada, enquanto cochilava debaixo do viaduto com outros foragidos. No dia seguinte, sem motivos, foi levado à delegacia e seus pertences foram confiscados. Um guarda desonesto caminhou o olhar pela sacola e achou prudente levar para sua casa o livro. Enfiou-o no carro e, findando a tarde, já em sua casa, resolveu arriscar-se na leitura. Na terceira tentativa ele desistiu, provavelmente devido à falta de conforto – o máximo que tinha era uma poltrona rasgada. Da casa do guarda, o livro continuou sua jornada, passando para outras mãos que prometeram devolvê-lo, e essas mãos passaram-no adiante para outras mãos furtivas, que também faziam promessas falsas, e o livro rodou por anos a fio, até que, por descuido ou por poesia, um menino de seis anos agarrou-o no ar para nunca mais soltar. Leu e releu a obra inúmeras vezes, o suficiente para que o odor de suas pequenas mãos se misturasse ao de outras tantas mãos que haviam o segurado previamente. E é por isso que o sujeito quando entra em um sebo, antes de comprar qualquer livro ele o cheira, sente a essência que lhe é transmitida e pensa que isso provém do próprio romance, mas não. Quem constrói essa fragrância não são as letras, como se pensa, mas justamente nós, os leitores. Comprado o livro, instintivamente seu aroma é guardado em alguma região de nosso cérebro que ainda não fora devidamente estudada, para mais tarde, quando reencontrá-lo numa esquina qualquer entre sacos de lixo, possa distinguir quantas mãos o tocaram, saber quantas pessoas foram influenciadas por um punhado de palavras sobrepostas e dizer que o livro jamais pertenceu a alguém, mas carrega consigo um pouco de cada leitor e deixa para os mesmos um pouco de si.

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Um comentário sobre “Constante (2º lugar – I Concurso de Contos Meia Palavra)”

  1. Tauil disse:

    Odeio o silêncio da crítica.

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