Intertextualidade Buarqueana

março 29, 2009 – 7:40 pm
Por Colaborador Meia Palavra

chico_1Há algum tempo que tenho experimentado a Arte do Brasil. Digo, compulsivamente. Por um longo tempo fechei-me para o estrangeiro e abracei nossa literatura, nossa música, nosso teatro, etc. Acho que para o sujeito pensar pra onde vai, ele precisa antes conhecer da onde veio, e por achar que nossas obras não são devidamente valorizadas em nosso próprio país, adotei por alguns anos essa espécie de nacionalismo. Percebi muito claramente que nossas artes mantém um diálogo, bebem da mesma fonte, e por isso resolvi juntar nesse texto um punhado de intertextualidades da Literatura com a música de Chico Buarque, que para mim é o maior expoente vivo de nossa música. Chico, que também é metido na literatura, tem em sua obra muitas citações literárias. Veja só:

Em 1968 Chico fez uma letra para Tom Jobim chamada “Sabiá”. A música foi feita para o III Festival Internacional da Canção promovido pela Rede Globo, e, injustamente, sofreu uma vaia terrível ao vencê-lo, porque o povo exaltado não percebeu a crítica que a canção faz à Ditadura, mais diretamente ao exílio.

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De um palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor Talvez possa espantar
As noites que eu não queira
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
E é pra ficar
Sei que o amor existe
Não sou mais triste
E a nova vida já vai chegar
E a solidão vai se acabar
E a solidão vai se acabar


Esse exemplo já foi muito explorado, mas não custa ressaltá-lo. Para dialogar com Sabiá, a “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias:

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Um ano mais tarde, Chico exilou-se na Itália e gravou um compacto por lá com uma composição inédita. Aqui no Brasil, essa canção foi gravada pelo MPB-4, e chamou-se “Cara a Cara”. Veja:

Tira a pedra do caminho
Serve mais um vinho
Bota vento no moinho
Bota pra correr
[...]


Aqui, pela primeira vez, Chico intertextualiza com Carlos Drummond, um poeta bem presente em sua influência. O poema da vez tem mais de oitenta anos e foi o responsável pela pedra no caminho da nossa literatura. “No meio do caminho” é relembrado até hoje por sua complexa simplicidade:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
[...]

Ainda em 1969, Chico tem sua primeira filha com a atriz Marieta Severo, a Sílvia. Torcedor declarado do Fluminense, Chico recebeu de presente do sambista Ciro Monteiro uma camiseta do Flamengo para dar para a filhinha. A resposta veio em música e se chamou “Ilmo. Sr. Ciro Monteiro”:

Amigo velho
Amei o teu conselho

Amei o teu vermelho
Que é de tanto ardor
Mas quis o verde
Que te quero verde
É bom pra quem vai ter
De ser bom sofredor
[...]

Tenho a impressão que antes de compor esse samba, Chico bateu os olhos de relance no poema “Romance sonâmbulo”, do maldito Frederíco Garcia Lorca:

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
[...]

Alguns anos depois, em 1975, Chico fez uma peça de teatro em parceria com Paulo Pontes, chamada Gota d’água. Uma das canções do repertório chamava-se “Flor da Idade”, que mais tarde seria gravada pela majestosa Bibi Ferreira:

[...]

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha


Ninguém há de negar a presença de Drummond e sua “Quadrilha”:

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história

Mais tarde, em 1978, desponta mais uma citação na introdução de “Até o fim”, que mais tarde seria revivida em duo com Ney Matogrosso:

Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

[...]


O diálogo se dá novamente com Drummond, com um de seus poemas mais famosos, o “Poema de sete faces”:

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

[...]

Para finalizar, acho que vale a pena destacar uma passagem de João Guimarães Rosa na obra de Chico. A música “Assentamento“, de 1997, cheira a Rosa, definitivamente. Prefiro que vocês ouçam ao invés de eu escrever o que cada passagem remete em Guimarães, porque ela é crivada de intertextualidade e nem sou um profundo conhecedor dos escritos de J.G.R.

Quando eu morrer, que me enterrem na
beira do chapadão
– contente com minha terra
cansado de tanta guerra
crescido de coração

(Tôo apud. Guimarães Rosa)


Zanza daqui
Zanza pra acolá
Fim de feira, periferia afora
A cidade não mora mais em mim
Francisco, Serafim
Vamos embora

Ver o capim
Ver o baobá
Vamos ver a campina quando flora
A piracema, rios contravim
Binho, Bel, Bia, Quim
Vamos embora

Quando eu morrer
Cansado de guerra
Morro de bem
Com a minha terra:
Cana, caqui
Inhame, abóbora
Onde só vento se semeava outrora
Amplidão, nação, sertão sem fim
Ó Manuel, Miguilim
Vamos embora

Sobre o autor: Tauil é usuário do fórum meia palavra, você também pode encontrá-lo Meia meio suja.

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O QUE JÁ FOI COMENTADO:

2 comentários


  1. Pips em  29 mar 2009 às 9:41 pm, disse:

    Muito bom esse texto do Tauil. Assentamento é minha música favorita do Chico, junto a Brejo da Cruz que também é inspirado em uma obra da literatura brasileira.

    [Responder]


  2. Intertextualidade Buarqueana « abilio pacheco em  05 abr 2009 às 6:36 am, disse:

    [...] 2009 Para quem já é fã de Chico Buarque, vale a pena ler este breve levantamento de alguns aspectos intertextuais num apanhado simples e sem pretensões [...]



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