A partir de hoje, quarta-feira, e nas semanas decorrentes, serão publicados os contos vencedores do I Concurso de Contos Meia Palavra, do terceiro ao primeiro lugar. Os usuários do Fórum Meia Palavra votaram em seu conto favorito, sem saberem os autores, e o anonimato foi mantido até o final da votação.
A seguir o terceiro lugar, Tsaritsina escrito pelo Pips.
Os trejeitos latinos me entregam: cabelo comprido com a franja presa, dois botões, de uma camisa branca, desabotoados exibindo um escapulário bem pequeno (Nossa Senhora à frente a guiar), uma jaqueta para segurar o vento frio, a barba seguindo o desenho do rosto, aparada há uma semana mais ou menos. Ando por esse cemitério, lembrando de quando ela me acompanhava nesse passeio peculiar, lá em nossa cidade, onde conversávamos sobre a vida num lugar onde ela não está mais, ou está em excesso. Olhando túmulo por túmulo, lembro: eu era feliz, mas a recordação não traz saudades; mata a lembrança como se nunca deveria ter existido ou era apenas minha imaginação pregando peças. Todavia, é mais fácil caminhar sozinho: seguir meus próprios passos em meu próprio ritmo, pensar em coisas aleatórias e olhar de epitáfio em epitáfio algum que fosse minimamente interessante. Nenhum conhecido, parente ou amigo. Enterrados ou vivos. Moscou suga as cores de suas ruas e as deposita nesse cemitério. Os raios de Sol que penetram insistentes iluminam as lápides por mais um dia sem visitas. Dias passei por aqui tentando entender cada mensagem, cada momento, cada fim e a que se deu esse fim. A vida em si, e os sentimentos, são simples e as pessoas os complicam. Complexos e imperfeitos somos completos. Com síndromes e cóleras. Indeterminados e interditados por nós mesmos.
Outra noite mesmo, depois de tanto lutar contra a insônia, meu sonho se tornou pesadelo e a vi dizendo “Fui abortada três vezes: na primeira minha mãe me matou, na segunda foi natural e na terceira quando nasci.”. Em seguida despertei, não ouvia direito era tudo abafado, o coração afobado, como uma grande sala à prova de som, evitando incomodar os vizinhos. Peguei o relógio e olhei as horas, madrugada aqui, dia do outro lado, queria ligar de tanta saudade e por um sonho tão aterrorizador, um fundo branco e ela sentada em uma cadeira alta, dessas de bar, falando tudo aquilo. Parei e pensei, não queria ligar; “Saudade? Acho que não.”, evasivo.
Para evitar mais pensamentos: vesti as calças, calcei botas, coloquei duas blusas e fui até o bar do hotel Ukraine, na Rua Kutuzovskii Prospekt, à margem do rio Moscou. A cidade nunca é branca, não existem noites brancas em Moscou, existe uma cidade colorida pincelada pela brancura da neve. A única certeza que tinha era que Ivan estaria naquele bar, na primeira ou segunda dose de vodka desde às nove da noite.
Descrevi fielmente o sonho: um quadro único, uma fala contínua e sem pausas. Uma personagem de pele branca, olhos castanhos – cansados e amendoados -, um sorriso pálido de canto de boca que mostrava pequenos relevos nas extremidades e a nudez mais bela e suja que criaria aversão ao mais assíduo vouyer. Ele apontou para mim, “Talvez você seja a mãe”, “Ou o segundo aborto”, completei. Todavia, a discussão não sairia do lugar, ainda mais porque provavelmente Ivan apontaria a minha saudade como parte dos meus sonhos.
Um pedaço dela ainda está em mim, ou eu ainda deixei um pedaço meu com ela. O aborto era meu coração, tomado por uma tesoura enquanto eu corria pelos corredores atrás dela. E a quem eu quero enganar? Entreguei a ela quando nos conhecemos, confessei: “É seu, pode ficar!”, ela me beijou, eu beijei suas mãos e foi isso; um pacto silencioso, uma troca de juras, uma troca de farpas. O que realmente nos faz sentir bem é sempre aquilo que fazemos sem pensar em fazer, em sentir sem pensar em sentir e para nunca mais esquecermos; fiz com ela tudo sem pensar. Eu sou o aborto, eu sou a mãe, eu sou o coração que não bate mais. Ivan é tão bom que sabe disso e não me diz, ele olha por cima dos óculos, não comenta; hesita em levar a vodka para a boca, solta uma onomatopéia, e outra, e bebe em um gole.
Agora, porém, achei um significado maior em cinco lápides, em um túmulo gigante, feito todo de pedra trabalhada, o tipo não sei ao certo qual é. A primeira lápide diz: “Para minha querida avó, descanse em paz. Alex”. A segunda diz: “Mamãe, para sempre guardo você no coração. Alex”. A terceira diz: “Para a mulher que mais amei, minha metade e mãe do meu filho. Alex”. A quarta diz: “Para o filho que qualquer pai poderia querer, te amo. Papai Alex”. A quinta era uma cruz de madeira feita à mão para quem quisesse ver: “Alex”. Não havia ninguém para cuidar do Alex. Será que ele caiu de joelhos ao pé da cova tentando recuperar com as lágrimas os últimos momentos com esses entes queridos? Ou simplesmente se entregou numa velhice amena? Gostaria de acreditar que num lugar como Moscou, onde esperamos a morte chegar, sentados em nossos apartamentos datados, em nossos móveis tombados, em nossas visitas anti-sociais; Alex permaneceu vivendo e rindo ao tomar café repassando uma a uma das suas lembranças.
Todavia, não sou o único a simpatizar e sentir sua falta. Logo a minha esquerda, uns três ou quatro passos para trás, está uma garota de cabelos vermelhos, vestimentas pretas, talvez de couro ou imitação, uma calça também preta, uma blusa branca por baixo da jaqueta preta. Portando uma câmera fotográfica, provavelmente com diversas lentes guardadas junto à bolsa de couro, ou imitação. E outra bolsa onde possivelmente guardava as luvas que tirara para bater as fotos, o batom vermelho que está impregnado nos lábios, a caixinha dos óculos de grau com um lenço dentro, pronto para limpar a menor digital e uma documentação com seu nome e data de nascimento.
Para evitar a revista pergunto seu nome, “Daria”, ela responde e emenda, “Argentino ou brasileiro?”. Poucas pessoas sabem diferenciar, geralmente chutam que fazemos parte do mesmo país e fica por isso mesmo, “Argentino”, respondo. Daria sorri, “Os trejeitos latinos te entregam”, ela levanta a câmera quebrando o pulso, como se oferecesse uma foto por conta da casa, um registro do momento em que venho visitar Alex. O sol enaltece as falhas da minha barba, me faz franzir a testa e comprimir os olhos. “Não vale fazer careta”, eu solto uma risada e ouço diversos cliques.
“Quando posso ver essas fotos?”, pergunto querendo pegá-las e rasgá-las ou guardar como reminiscência da fotografa. Ela revira a bolsa, “Não posso dar uma foto sua”. Fiquei espantado em não ser dono da minha própria imagem. “Não posso mesmo. Nunca o momento que fotografo pertence a quem está nele, se eu te der será como matar essa imagem. Nela, você, argentino, será e estará nas nuances oníricas da sua alma”. Em qualquer outro momento aquilo poderia parecer uma poesia fajuta numa desculpa fajuta, mas soou como correto, como singular, como se Moscou, como se o sol derretendo a neve, dissessem que aquele momento não me pertencia. Era de Daria, de seus dedos rápidos e de seu olhar. Alex era testemunha.
Daria tirou um envelope pardo de uma de suas bolsas, entregou na minha mão e me abraçou, “Vou sentir sua falta, você é uma boa lembrança”. Ela sorriu, porque talvez amanhã não o pudesse fazer e de longe não pude mais distinguir se saiu do cemitério ou se a ventania de neve a fez desmanchar no ar.
Sentei ao lado do túmulo de Alex, esperando que ele tocasse meu ombro com seu jeito de resolver os impasses, de seguir em frente, e me dar força para sair do cemitério e superar minhas saudades, matando-as ou enterrando-as. Quem é Daria senão minha melhor lembrança? Esse momento existiu? Ou foi uma foto tirada e guardada dentro de uma gaveta de momentos esquecidos no inesquecível? Sempre. Meu momento de renascimento. Ouço os batimentos leves. Na foto consta o parto.
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