A Invenção de Morel
fevereiro 19, 2009 – 11:51 amPor Pips
A tecnologia um dia suprirá todos os anseios da consciência humana? Será que um dia o ser humano poderá fugir da morte ou pelo menos matar o seu medo de morrer. Afinal a morte é a única certeza da vida, do ventre até sete palmos, o que existe no meio vai de cada um, mas além nunca. Dessa forma podemos usar “A Invenção de Morel” como um verdadeiro questionamento de até onde o homem pode chegar com a tecnologia.
Seguimos o diário do personagem principal, nunca nomeado, o qual nos revela ser um fugitivo da polícia venezuelana e que está escondido em uma ilha inabitável e misteriosa. Em certo momento pessoas começam a surgir na ilha, mas aparentemente pouco se importam com o malfeitor. Ele acaba apaixonando-se por uma morena chamada Faustine que, assim como todos os outros novos habitantes, não interage ou reage as investidas do personagem. Entretanto ele não desiste e acompanhamos sua obstinação em entrar em contato.
Podemos concluir que o mundo do homem, sem a interação, não existe. Ou pior, que o mundo é cheio de pessoas que não se cruzam, mesmo se cruzando. Que todos nós ignoramos vez ou outra alguém indesejável a nós ou um mendigo. A verdade é que nossa visão ignora, nos tornamos cegos para o que queremos. Crianças fingem não sentir dor para desafiar o pai que lhe dá uma chinelada. Seríamos os seres que existem apenas de sensações e interações? Sinto, ergo sum.
Perco a vista. O tato se fez impraticável; minha pele cai; as sensações são ambíguas, dolorosas, procuro evitá-las.
Na verdade a falta de contato com os diversos moradores da ilha deve-se a Morel. O cientista da ilha que tinha como maior ambição superar Deus, não apenas criando novas pessoas, mas perpetuando a vida. Explico: a invenção de Morel é uma máquina que capta tudo de uma pessoa desde seus sentidos até seus mais simplórios movimentos (como um filme se pudéssemos cheirar ou degustar), porém sem uma consciência, uma pós-vida sem essência (ou uma alma, talvez? Apesar de sabermos que Bioy é ateu), onde há uma projeção (como o mito da caverna de Platão, sendo bem risível). O fugitivo quer sair da ilha para encontrar a verdadeira Faustine, mas depois de descobrir que todos que participam desse grande ‘filme’ estão mortos, acaba por querer estudar a máquina e incluir-se nesse mundo, talvez paralelo ou mesmo morto.
Através de uma escrita elegante Bioy nos entrega uma obra que aborda assuntos atemporais: o homem que quer ser Deus, a tecnologia como estopim para uma idéia de eternidade e superação das leis da natureza e o amor platônico. Todavia, não devemos esquecer o personagem-fantasma que faz observações no diário do personagem principal, um editor que coloca diversas observações sobre o que foi escrito, explicitando a inutilidade e atrocidade que gera a invenção de Morel.
Ao final da leitura dinâmica, que devoramos com os olhos rapidamente, chegamos a um dilema que nos encosta à parede: entregaríamos a vida por algo que desejamos incontrolavelmente? Pois aqui não temos Mefistófeles para realizá-los, temos uma invenção feita por nossas próprias mãos que pode nos tirar a vida e deixar-nos no limbo da existência humana. Viver eternamente sem vivenciar mais nada, na prisão da vida eterna.
Jorge Luis Borges classifica a obra como perfeita, eu no máximo, posso parafraseá-lo.
CASARES, Adolfo Bioy. A Invenção de Morel. São Paulo: Editora COSAC NAIFY, 2006. 1ª Reimpressão 131 págs. Preço sugerido: R$ 42,00.
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Giovanna em 19 fev 2009 às 12:23 pm, disse:
Nossa, texto lindo e o livro, no mínimo, instigante.
Parece ter o ritmo ideal para virar um filme, memso sem ler já to imaginando tudo tão claro.
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Breno em 19 fev 2009 às 12:51 pm, disse:
Obviamente o filme A Ilha do Dr. Morel deve ter alguma ligação que esse livro.
Pips esse foi um dos seus melhores textos, espero poder ler mais resenhas como essa, ainda mais se forem de livros bons.
A Invenção de Morel acaba de entrar na minha lista de futuros livros.
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Pips em 19 fev 2009 às 12:57 pm, disse:
Na verdade “A Ilha do Dr. Moreau” é um romance de H.G. Welles escrito no século XIX. “A Invenção de Morel” é de 1940.
O que podemos comparar é que em ambos, o homem tenta mexer na natureza de alguma forma. Dr. Moreau tenta criar novas criaturas, ser um novo Deus dentro de uma ilha, ser o criador, o pai. Morel gostaria apenas de superar Deus e acabar com o fim da vida.
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Juliana em 19 fev 2009 às 2:41 pm, disse:
Texto muitissímo bem redigido.
Istiga ao leitor do blog, procurar maiores informações sobre o Livro.
“Bioy nos entrega uma obra que aborda assuntos atemporais: o homem que quer ser Deus, a tecnologia como estopim para uma idéia de eternidade e superação das leis da natureza e o amor platônico”. Bela observação. Sem sombra de dúvida, essa resenha me remeteu a tantas outras obras que valem a pena ser relidas.
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Rossana em 19 fev 2009 às 2:58 pm, disse:
Pips, parabéns pelo texto, muitíssimo bem escrito. Fiquei curiosa para ler o livro.
Engraçado que enquanto lia a resenha fiquei pensando que o narrador é quem, por alguma razão, estaria morto na história – razão pela qual ele não conseguia interagir com os demais.
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Wilson em 19 fev 2009 às 4:02 pm, disse:
Ótima resenha! Eu já tinha ouvido falar nesse livro, mas bem por cima. Se o Borges considera como perfeito, é pq merece ser lido. Mais um pra lista…
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Camps em 19 fev 2009 às 4:21 pm, disse:
Pips, fico feliz de ter indicado tal livro a voce, depois de ler este livro e ver sua resenha, vejo como voce captou bem a essencia do livro, e transcreveu bem o andamento dele e de seus personagens. Muito bem colocado suas visoes filosoficas sobre o livro. Parabens
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Nanda em 24 fev 2009 às 7:06 pm, disse:
Clap clap clap
ótima resenha! Instigou mesmo a vontade de ler o livro!
Tô impressionada
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Sinédoque, Nova York « Battle Nerds Blog em 04 mai 2009 às 10:20 am, disse:
[...] não ansiava pela morte imediata, mas pela propagação de sua dor para a eternidade (assim como a máquina de Morel). Porém sua vida de Deus não avança e nem retrocede. A peça torna-se uma desconstrução de si [...]
Sinédoque, Nova York (Kaufman, 2007) | Kino em 08 jun 2009 às 11:29 pm, disse:
[...] não ansiava pela morte imediata, mas pela propagação de sua dor para a eternidade (assim como a máquina de Morel). Porém sua vida de Deus não avança e nem retrocede. A peça torna-se uma desconstrução de si [...]